terça-feira, 17 de novembro de 2015

Arte, natureza e símbolo na Quinta da Regaleira.

“A Regaleira assume um caráter único no panorama mundial dos jardins, 
enunciando uma paisagem épica na recriação do Paraíso perdido – que 
o saber do seu proprietário sobre a biodiversidade, em particular a do 
Novo Mundo, permite evocar – inscrevendo-se de forma singular na 
tradição dos grandes jardins europeus, espaços de sagração da Natureza 
onde se revisita o pensamento clássico de Platão e de Aristóteles e 
onde ecoam, desde o Renascimento, as grandes intuições do hermetismo.”

1
Vista do Palácio a partir da ponte de entrada.
Foto: acervo particular
Pouco difundida nos guias turísticos, a Quinta da Regaleira na cidade de Sintra se insere no roteiro indispensável para quem visita a cidade de Lisboa em Portugal. Do ponto de vista arquitetônico, a casa onde viveu Antonio Augusto de Carvalho (1848-1920) já valeria a visita por se tratar de um exemplar com estética belíssima contudo, aos iniciados ou estudiosos de mística ou religiosidade, a visita se torna inesquecível. Isso porque, embora possua uma capela, não se trata de uma construção cujo programa de necessidades seja especificamente para rituais, mas uma residência onde o interesse místico se tornou uma obrigatoriedade no projeto arquitetônico.

Vista dos jardins tendo em destaque a torre sineira da capela.
Foto: acervo particular
 A cargo do arquiteto italiano Luigi Manini (1848-1936), o projeto que durou muitos anos  - 1904 a 1910 -, diluiu vários textos ou passagens com enfoque místico no paisagismo, na arquitetura e mesmo no mobiliário elaborados primorosamente para adornar as diversas salas ou ambientes espalhados por cerca de 4 hectares de terreno.
Detalhe das cordas decorando as janelas.

Detalhe dos animais míticos e folhagens em meio às cordas.

Detalhe da decoração interna do Palácio.
Até pela forma como foi implantada no terreno, o primeiro ponto a chamar a atenção de quem adentra a Quinta é o palácio. O projeto arquitetônico seguiu os cânones da geometria sagrada, estando estes aspectos traduzidos nas proporções, composição ou mesmo orientação rigorosa dos espaços. Contudo, nos salta aos olhos a mensagem simbólica utilizada na decoração da fachada composta de cordas – símbolo importante em várias teorias místicas como a da maçonaria –, gárgulas – figuras animalescas das construções góticas –, animais alados como morcegos, lagartos ou águias, pináculos decorados com dragões ou mesmo deuses pagãos inseridos em meio a folhagens como os deuses romanos camuflados em meio a fachada à maneira dos celtas. O interior não é diferente, porém a decoração segue de acordo com o uso de cada sala, intensificando ainda mais o caráter simbólico da atividade e do símbolo referido.

Praça de Baco.

Detalhe de ânfora com Baco e Baphomet.

Banco decorado em meio ao jardim.
Os jardins podem ser admirados apenas pela beleza estética, ou degustados de maneira mais rica pelos iniciados ou conhecedores de alquimia e mística. A orientação de diversos “templos” pode parecer confusa mas segue um rigoroso critério de implantação para que a posição geográfica de cada parada reforce ainda mais o caráter simbólico da edificação, caso da capela ou mesmo no poço iniciático, localizado na cota mais alta da Quinta. Os caminhos são todos adornados com deuses romanos, fontes com decoração temática, portais ou mirantes com bancos ricamente esculpidos, praças com posicionamento de bancos evidenciando a lenda ou o mito. Mesmo sendo o caminhar algo muito agradável, dois momentos são os mais fortes no paisagismo da Regaleira: a capela e o poço iniciático.

Interior da capela com destaque para o forro com geometrica gótica.

Forro do coro com decoração em cordas e símbolos maçônicos.

Vista da cripta da capela com piso xadrez preto e branco.
A capela tem o altar dedicado à Coroação da Virgem Maria, preservando também o tema mariano já na fachada tanto na torre sineira quanto no pórtico de entrada. Contudo salta aos olhos outros elementos que são mesclados a estes, alguns já visíveis na fachada do palácio e outros referentes à Ordem do Templo ou Ordem de Cristo, movimentos importantes na sociedade portuguesa no período dos Descobrimentos. Destes símbolos é notória a cruz grega tanto no alto da porta de entrada quanto no piso da capela, marca presente nas ilustrações de navegadores como Vasco da Gama. Embora a decoração exterior seja muito interessante, no interior duas surpresas saltam aos olhos: a primeira a figura de um triangulo com um olho humano no centro localizada no teto do coro, e a segunda o piso em xadrez preto e branco na cripta da capela, ambos muito comuns na simbologia maçônica. Embora não haja nenhuma referencia a estes dois temas, é de se suspeitar a participação do proprietário e do arquiteto nesta ordem haja visto que eram pessoas bastante influentes na sociedade da época. Além disso, pesquisas recentes elaboradas pela equipe responsável pela Quinta da Regaleira descobriu outros símbolos maçônicos em livros que faziam parte do acervo da biblioteca de Antonio Augusto de Carvalho.

Vista superior do poço, com piso ao fundo imitando rosa dos ventos.

Vista do alto de dentro do poço.

Detalhe dos nichos e arcos da escadaria.

A outra edificação que desperta curiosidade é o “Axis Mundi”, ou o poço iniciático. Localizado no ponto mais alto dos jardins, o poço foi construído como uma torre invertida para unir o céu e a terra. O poço dispõe de quatro acessos em níveis distintos, cada um direcionado a um ponto cardeal e conectado com outras edificações localizadas em pontos extremos do jardim. Os degraus somam 139 pisos, cuja soma 13 alude a números cabalísticos, e os 22 nichos existentes aos arcanos maiores do taro. O fundo tem a decoração da “rosa dos ventos” demarcando os pontos cardeais. A descida no poço resgata diversos textos místicos, estando por vezes ligada à Divina Comedia de Dante – por causa dos 10 patamares – ou mesmo outros livros que citam a viagem iniciática com o objetivo do conhecimento do homem e da Natureza.
Vista do complexo Quinta da Regaleira.
Foto: acervo particular.
Aos acéticos, conhecer a Quinta da Regaleira vale pela beleza arquitetônica e paisagística; aos iniciados, caminhar por estas edificações resgata o sentido dos estudos místicos e reforça a certeza de que quando a Arte, a Natureza e o Símbolo estão juntos, o resultado é muito próximo da perfeição do Cosmos!

 Serviço: a Quinta da Regaleira esta localizada na Estrada EN375, ou Estrada da Quinta da Regaleira, 2710-567, em Sintra, Portugal. O horário de atendimento ao publico é das
10h00 as 17h00. O email para contato é geral@cultursintra.pt.

Notas: 

1. Do livro Quinta da Regaleira, coleção Arte, Natureza e Simbolo, Volume 1.




quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Arquitetura simbólica das lojas maçônicas

 " Hiram fabricou também as conchas, tenazes e taças, para a aspersão.
 Terminou, assim, as obras de que o encarregara o rei salomão no Templo de Javé: 
as duas colunas, as esferas sobre os capitéis, as duas redes que cobriam as esferas das colunas(...)".
I Reis, 7, 40-41 .  1

Importante iniciar este texto explicando o que é “Loja”, muito empregado para designar os edifícios de Ordens Secretas como a Maçonaria.  O termo “Loja” refere-se tanto ao grupo de homens autorizados por uma Grande Loja, quanto à sala onde se reúnem. Contudo, embora na língua portuguesa a palavra “Loja” designa um estabelecimento comercial, em outras línguas como o espanhol  (logia) , alemão (loge) , o italiano (loggia), ou mesmo o francês  (loge), o termo semelhante ao que usamos no Brasil não se traduz por algo comercial mas por uma construção simples ou à casa de porteiro ou um caseiro. Assim, com base nas línguas italiano, espanhol, alemão ou mesmo francês, o termo está relacionado a uma edificação rústica utilizada para alojar trabalhadores, uma relação direta com as origens da Maçonaria. 2

Avental Maçônico inglês, datado de 1813, apresenta entre as
representações simbólicas duas colunas gregas, mostrando a
importância da arquitetura para a Ordem.
As primeiras Lojas reuniam-se em aposentos reservados de tavernas;  hoje, as Lojas se reúnem em seus próprios salões, em centros Maçônicos que oferecem instalações para várias Ordens diferentes ou em salões de uma Grande Loja. E à medida que a Ordem evoluía no numero de membros a ponto de necessitar de seus próprios edifícios, todo um complexo sistema de decoração e arquitetura era criado, apresentando no espaço físico alguns símbolos importantes para as cerimônias, inclusive fixando o posicionando de determinados lugares de acordo com a ritualística própria no salão principal das edificações.

No século XVIII quando teve inicio a Maçonaria especulativa formal,
muito atribuiram aos maçons a construção de importantes
edificios da Antiguidade.
Gravura feita por artista de Frankfurt, datada de 1738
Em se tratando de uma Ordem Secreta, muito do que se encontra é mera especulação da verdadeira simbologia Maçônica já que o sigilo faz parte da regra. Contudo, há de se verificar que independente do significado que os membros utilizam, determinados elementos possuem carga simbólica que transcendeu o período inicial em que foram criados, facilitando uma possível compreensão do que seria o simbolismo Maçônico para estes itens decorativos.

Painél marchetado apresenta a tipologia classica para
as fachadas das Lojas. 
Já na fachada das Lojas é possível notar a presença de colunas e de um frontão triangular como nos templos gregos ou romanos. Para os capitéis e colunas, nota-se uma livre adaptação das ordens clássicas de acordo com a necessidade de cada Loja, não levando muitas vezes também em consideração a proporção ou mesmo os elementos originais para a decoração do entablamento    3 . Contudo, a imponência que estes edifícios possuem sobre o entorno apontam mais para a arquitetura romana, onde a paisagem não era levada tão a sério mas a grandiosidade da construção em questão. Talvez também por ser tratar de uma Ordem que teve inicio nos canteiros das catedrais góticas, a monumentalidade seja algo mais importante que a adequação com o vizinhança. Com relação ao numero de  colunas nas elevações frontais, não se sabe se existe um numero máximo, porém para o mínimo há necessidade de serem duas, em alusão ás possíveis colunas existentes no Templo de Salomão, projeto do arquiteto Hiram Abif, que figura de modo proeminente no ritual de dois Graus.

Fachada de Loja Maçônica, com colunas jônicas e entablamento
decorado com rigor clássico.
Fonte: www.google.com.br
Abaixo algumas imagens com fachadas de Lojas Maçônicas no Brasil e em outros países:

Templo Maçônico de Paris.
Fonte: Fonte: A Maçonaria: simbolos, segredos e significados
Projeto de 1804,  suposta Loja Maçônica de autoria atribuida ao
arquiteto neoclássico Claude Ledoux.
Fonte: A Maçonaria: simbolos, segredos e significados

Detalhe de fachada de Loja Maçônica

Detalhe de fachada de Loja Maçônica

Detalhe de fachada de Loja Maçônica
Detalhe de fachada de Loja Maçônica

Detalhe de fachada de Loja Maçônica


Notas:

1. Biblia Sagrada, Antigo Testamento. Biblia, mensagem de Deus. Biblia n. 1 - Grande - vermelha. 
Edições Loyola, São Paulo, SP. 1983.

2. Com base nesses termos, que denominam as Lojas Maçônicas nas línguas francesa, italiana, espanhola, 
alemã e inglesa, pode-se compreender que as expressões referem-se a uma edificação rústica 
utilizada para alojar trabalhadores, e não a um estabelecimento comercial. 
Verifica-se então uma relação direta com a Maçonaria Operativa, em que os pedreiros costumavam e 
até hoje costumam construir estruturas rústicas dentro do canteiro de obras, 
onde eles guardam suas ferramentas e fazem seus descansos. 
Essas simples edificações que abrigam os pedreiros e suas ferramentas nas construções 
são chamadas de “loge, lodge, loggia, logia” nos países de língua francesa, alemã, inglesa, italiana e espanhola.  
A palavra na língua portuguesa que mais se aproxima desse significado não seria “loja” e sim “alojamento”. 
Nossas Lojas Maçônicas são exatamente isso: alojamentos simbólicos de construtores especulativos. 
Isso fica evidente ao se estudar a história da Maçonaria em muitos países de língua espanhola, que algumas 
vezes utilizavam os termos “Alojamiento” em substituição à “Logia”, 
o que denuncia que ambas as palavras têm o mesmo significado.
À luz dos significados dos termos que designam as Lojas Maçônicas em outras línguas, 
podemos observar que a teoria amplamente divulgada no Brasil de que o uso da palavra “Loja”
 é herança das lojas onde os artesãos vendiam o “handcraft”, ou seja, o fruto de seu trabalho manual, 
além de simplista, é furada. Se fosse assim, os termos utilizados nas outras línguas 
citadas teriam significado similar ao de estabelecimento comercial, se seria usado 
em substituição às outras palavras que servem a esse fim.
Na próxima vez que você passar em frente a um canteiro de obras e ver à margem aquela 
estrutura simples de madeira compensada ou placas de zinco, cheia de trolhas, níveis, 
prumos e outros utensílios em seu interior, muitas vezes equipada também com 
um colchão para o pedreiro descansar à noite, lembre-se que essa estrutura é 
a versão atual daquelas que abrigaram nossos antepassados, os maçons operativos, 
e que serviram de base para nossas Lojas Simbólicas de hoje.

Fonte: http://www.noesquadro.com.br/2011/02/por-que-loja-maconica.html#sthash.BgtekceX.dpuf


3. Na simbologia Maçônica, as ordens clássicas estão relacionadas à virtudes sendo respectivamente 
Jônica, Dórica e Coríntia, os pilares da Sabedoria, Força e Beleza, 
relacionadas também aos principais oficiais das Lojas. A Maçonaria. Simbolos, segredos e significaddo. W.kirk MacNulty. 

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Livro: Fama Fraternitatis, em comemoração aos 400 anos do Manifesto Rosa-Cruz.

Capa do livro da
Pentagrama Publicações
      " A sabedoria, assim diz Salomão, é um tesouro inesgotável para o homem, pois ela é o alento da força divina e um raio da glória do Todo-Poderoso.(...) Compreende palavras veladas e resolve enigmas, prevê sinais e prodígios e sabe o que acontecerá futuramente."
 RIJCKENBORGH, J. Van. Tradução da introdução do Fama Fraternitatis. 1

     Outra Ordem Secreta que teve muita influencia na cena medieval foi a Ordem Rosa-Cruz. Ramificada atualmente em AMORC Rosa-Cruz e Roza-Cruz, os rosacruzes compartilham conhecimentos místicos adquiridos ao longo da história da humanidade, alternando atualmente seus focos ou para as escolas de mistérios do  Antigo Egito ou tendendo à gnose e alguns conceitos alquimistas do Iluminismo. Em todo o caso, ambos consideram importante o ato de Christian Rosenkreuz que no século XVII publicou o Manifesto “Fama Fraternitatis”, fazendo o mundo conhecer a existência da Ordem Rosa-Cruz e divulgando o papel dela como influenciadora do pensamento a partir daquele momento.

     Este manifesto, contendo uma mensagem de renovação universal, foi redigido e dirigido a todos os chefes de Estado, ilustres e eruditos da Europa. O continente era dominado pelo poder religioso, polarizado entre o Sacro Império Romano, católico, e os príncipes protestantes, cuja Reforma tinha criado um grande cisma na fé e no poder. Segundo os adeptos do rosacrucianismo, se a Europa tivesse abraçado a renovação anunciada pela Fama Fraternitatis e Frederico V tivesse sido alçado ao trono do Sacro Império Romano, talvez um novo poder e uma nova visão universal poderiam ter evitado os rumos que a história tomou com a eclosão da Guerra dos Trinta Anos.

     Em comemoração aos 400 anos deste Manifesto a Editora Pentagrama na 23ª edição da Bienal do Livro, lançará dentre os livros mais importantes, o Fama Fraternitatis. O exemplar é a tradução em português na íntegra do texto original que foi escrito em linguagem criptográfica, devido às penas impostas a todos aqueles que eram considerados heréticos no século XVII. Se o olharmos estritamente pela ótica da história oficial, o livro nos conta a peregrinação de Christian Rosenkreuz para Jerusalém, seu contato com um grupo de sábios da Arábia, os quais o iniciam nos mistérios da física, matemática, magia e cabala, além de seu retorno à Europa, através do Egito e Marrocos até a chegada à Espanha. Por trás desta história, conta-se todo o processo de demolição das estruturas vigentes e a reconstrução de algo absolutamente novo, seguindo o ponto de vista da Ordem Rosa-Cruz. “O surgimento deste Manifesto causou grande comoção em todos aqueles que detinham poder e conhecimento na Europa naquele período, pois acreditava-se que seu texto contivesse a chave da sabedoria universal”, finaliza a coordenadora da editora.

     O evento da Bienal Internacional do Livro acontece de 22 a 31 de agosto de 2014 no centro de exposiçõees do Anhembi em São Paulo. Para saber mais  deste ou de outros livros da Pentagrama Publicações o site é http://www.pentagrama.org.br/.
Notas:


1. Trecho do capítulo "Ao leitor que compreende a sabedoria". In RIJCKENBORGH, J. Van. O Chamado da Fraternidade Rosa-Cruz. Pentagrama Publicações, Jarinu, SP. 2014.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

A influencia das Ordens Secretas no projeto das Igrejas Católicas Medievais - Parte 2

“ O símbolo atua abrindo o consciente mais imediato e, 
ao mesmo tempo, fazendo imergir até a superfície da consciência, 
elementos inconscientes por associação e encadeamento espontâneo de emoções,
imagens, recordações e pulsações, concatenando assim uma reserva de significados.”

PERADEJORDI, Julio. A propósito del símbolo.   


      Um fato curioso sobre o projeto das catedrais medievais é que nenhuma das construções góticas possui autoria reconhecida e até hoje, o único tipo de identificação encontrada são marcas gravadas nas pedras.  Os mestres das primitivas confrarias de construtores costumavam reconhecer-se entre si por símbolos e sinais que traçavam nas paredes dos edifícios onde exerciam o seu ofício, nascendo assim as siglas lapidárias. Estas siglas, abundantes em várias igrejas, serviam tanto para identificar o seu autor (uma espécie de rúbrica pessoal) como a confraria a que pertencia, sendo um símbolo particular pertencente ao simbolismo de uma coletividade. Alguns autores afirmam que as siglas lapidárias tinham como única finalidade utilitária a identificação do trabalhador para efeito de pagamento do seu trabalho. Contudo a maioria desses sinais esculpidos são identificados como pertencentes à simbologia mística e esotérica, e portanto, sendo símbolos sagrados em um período onde a intensidade espiritual e religiosa dominava a sociedade, talvez não foram utilizados apenas como sinais de identificação pessoal para fins salarial e “ profanos”, já que se tratava de edifícios religiosos.  2

Detalhe da alvenaria com inscrições.
Igreja São Pedro de Chevron Villiers, Normandia - França
Fonte:  www.lusophia.wordpress.com

      É também muito compreensivo que estas siglas, representassem a confraria companheiril mais do que a pessoa em si mesma que assim deixava a sua marca em determinada obra do seu empenho, contudo  ao mesmo tempo  o teor da doutrina estudada pela mesma corporação através dessa linguagem  simbólica universal. Isso pode ser constatado também porque os signos usados dos canteiros não se resumiam em um só tipo e sim em quatro classes gerais, conforme apresentadas tanto nos monumentos como nos “ incunábulos”   3  . Podem sem configurados na ordem de importância a seguir : A) signos paleocristãos; B) signos mágico-cabalísticos; C) signos astrológicos; D) signos numéricos.  Por vezes, ao invés de uma só classe aparecem todas misturadas entre si.
  
Bafomé esculpido em igreja dos Templários.
Fonte: pt.fantasia.wikia.com
       Enquanto as inscrições nos tijolos são esquemas complexos e de difícil compreensão, os arquitetos não pouparam esforços para revelar todos os detalhes na estatuária das catedrais, principalmente as que dominavam os telhados destas edificações. Gárgulas e figuras antropomórficas aparecem em grande número nestes edifícios, num primeiro momento como parte da estabilidade do sistema estrutural gótico. Contudo inúmeros estudiosos aproveitaram estas figuras para destrinchar outras análises sobre estas peças, dotando as mesmas de muita simbologia mística, neste caso de fácil aceitação haja vista que não se pode criar outro tipo de entendimento senão o caráter religioso.

     Se as gárgulas já são assustadoras, uma outra figura mítica aparece com frequência em algumas fachadas,  muito temida no imaginário do período medieval: o Bafomé.  Destacado em muitas portas de igrejas, a figura metade homem e metade bode, por muito tempo foi confundida com o demônio revelado na doutrina cristã.  Mas seu sentido pode ser outro, “um símbolo templário, que expressa a necessidade humana de transcender seus instintos básicos, a fim de ascender espiritualmente e cumprir seu papel evolutivo. Ser parte de Deus, até se confundir com Ele, é o sentido da verdadeira humanização. E este era o ensinamento maior dos idealizadores do gótico, que criaram uma arquitetura viva. Suas catedrais estão tão perfeitamente integradas ao cosmo, que são praticamente forças da natureza”, como explica o teólogo  Victor Franco.  4



Homem verde, esculpido em igreja gótica.
Fonte: www.google.com

    Nas fachadas destas mesmas igrejas, o Bafomé às vezes se alterna com outra figura antropormófica chamada “Homem verde”, este já um símbolo mais estudado no  Renascimento, representando o ciclo de crescimento da natureza a cada primavera. Para esta figura, estudiosos acreditam que sua ligação seja mais com a Maçonaria e ao culto da Deusa da Fertilidade. 5

     No interior destas igrejas, outros elementos sugerem discussões com inclinação ao misticismo para alguns elementos que algumas vezes aparece sem justificativa nos dogmas do Cristianismo, ou sem uma clara necessidade arquitetônica. Olhando para o alto, algumas igrejas apresentam o Zodíaco na decoração do tambor da cúpula, relacionando as constelações  com representações personificadas por figuras ou animais – neste caso, fazendo conexão dos signos de Touro, Leão, Escorpião e Aquários  com os quatro  Evangelistas do Novo Testamento, respectivamente Marcos, Lucas, João e Mateus.  Em outros momentos, é o piso que nos chama a atenção, caso da Catedral francesa de Chartres.  Chamados de “Labirinto de Salomão”, eles costumam se localizar no ponto em que a nave e os transeptos se unem. Seu sentido alquímico é o mesmo do mito grego de Teseu, o herói que entra num labirinto a fim de combater o Minotauro e, após vencer o terrível monstro, consegue voltar, graças ao fio que Ariadne lhe dera. 6

Piso com labirinto. Catedral de Chartres, França.
Fonte: www.google.com.br
     Outro espetáculo que a arquitetura interna das catedrais góticas oferece é o “banho” de luz solar nas horas canônicas. A intenção era que durante as vésperas (hora canônica correspondente às 6 horas  e na hora mariana correspondente às 18 horas),  a luminosidade filtrada pelas “rosáceas” criasse a sensação de um incêndio, um suposto “ fogo iniciático”.  Essas rosáceas são vitrais circulares, obtidos por meio de uma geometria complexa que se repete ao longo da circunferência, à maneira das “mandalas”.  Para os místicos, elas  funcionavam como "um mapa" das tradições que precisavam ser transmitidas, e para isso se apropriavam de muitas cores – o arco-íris, símbolo da aliança de Deus com os homens no pós dilúvio  7  – e principalmente da forma do círculo – a “roda”, que na Alquimia,  simboliza o tempo necessário para o fogo agir sobre a matéria, a transmutação   8.  Há, ainda outra corrente de pensadores místicos que compara as rosáceas a flores, símbolos da pureza,  da castidade e do feminino,  qualidades valorizadas no período medieval, que, acima de tudo, cultuava a Virgem Maria.   9

Rosácea vista a partir da fachada.

Rosácea vista a partir do interior.
Fonte: www.google.com.br

       Esotéricos ou cristãos, o efeito plástico que todos estes elementos causam é indiscutível e, se a intenção de tais edificações foi de conectar ao Sagrado por intermédio da emoção, os autores conseguiram. Hoje na contemporaneidade, alguns elementos ainda são reproduzidos em lugares religiosos,  o que permite afirmar que atingiram o status de  atemporais e relevantes, mesmo na sociedade capitalista do século XXI. Em tempos de retorno do homem ao Sagrado, resgatar alguns destes itens é a certeza de conseguir arrebanhar um numero maior de adeptos, construindo para isso um discurso qualquer para formas já consagradas no inconsciente esotérico da humanidade.


 Notas:

1. Livre tradução do trecho: “El símbolo actúa abriendo el consciente más inmediato y, al mismo tiempo, 
haciendo emerger hasta la superfície de la conciencia elementos inconscientes por 
asociación y encadenamiento espontâneo de emociones, imágenes, recuerdos y pulsaciones, concatenado 
así uma reserva de significados.” PERADEJORDI, Julio. El Cuerpo Humano, Biblioteca de lós símbolos. Ediciones Obelisco.Barcelona, Espanha. 1991.

2. trecho retirado do link: 

3. Incunábulo é um livro impresso nos primeiros tempos da imprensa com tipos móveis. 
A popularização da imprensa começa a ser mais percebida em 1450, com Gutenberg. 
Refere-se às obras impressas entre 1455, data aproximada da publicação da Bíblia de Gutenberg, até 1500.1 . 
Essas obras imitavam os manuscritos. 
Assim, demorou-se 50 anos para que o livro impresso passasse a ter suas próprias características, 
abandonando, paulatinamente, as características do livro manuscrito. 
A sua origem vem da expressão latina in cuna (no berço), referindo-se assim ao berço da tipografia. 

4. In  A fé cristã em confronto com o humanismo ateu: a perspectiva de Henri de Lubac.
GOMES, Victor Franco. Editora: Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, Lisboa. 2006.


6. Filosoficamente, o labirinto são os inúmeros caminhos que o homem tem à sua disposição. 
Cedo ou tarde, ele entrará em contato com seu monstro interior, sua falta de luz. 
Aquele que consegue combater e vencer as próprias imperfeições – o  Minotauro – pode voltar à vida. 
Mas só os que possuem o fio de Ariadne – símbolo do conhecimento iniciático –  é que conseguem efetivamente retornar à Luz. http://pt.slideshare.net/Daneto/simbologia-manica-nas-igrejas-10721069

7. Ver livro de Genesis, capitulo 9. Biblia, Antigo Testamento.

8. ROOB, Alexander. Alquimia y Mistica, el museo hermético. Taschen. China, 1997

9.  Evocada como intermediadora entre o terreno e o divino, eleita advogada da humanidade, 
a Virgem Maria inspirou, entre 1170 e 1270, a construção de nada menos que 80 catedrais e 
500 igrejas em sua homenagem, só na França. A maioria das igrejas em honra da 
Virgem foram erguidas em lugares antes dedicados a alguma deusas pagãs, curiosamente, a uma Madona negra, cujos atributos estavam associados à sexualidade, à procriação e à fertilidade. 
Outras ainda eram deusas associadas à Lua ou ao planeta Vênus.
 Em outras palavras, eram herdeiras da antiga crença em uma Deusa-Criadora, predominante nas concepções religiosas mais arcaicas e retornada com força pelas Ordens secretas da Idade Média, 
algo como  a “Virgini Paritures” ou “Nossa Senhora dos Subterrâneos”, 
divindade cujo poder encontrava-se na morte e renascimento, muito cultuada pelos Templários.
 FULCANELLI. O Mistério das Catedrais. Editora Madras, São Paulo. 2007

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

A influência das Ordens Secretas nas Igrejas Católicas Medievais - Parte 1

“A Ciência, única capaz de penetrar o mistério das coisas, 
o dos seres e de seu destino, 
pode dar ao homem asas para que se eleve ao conhecimento 
das mais altas verdades e chegue até Deus”.

Fulcanelli, escritor e alquimista do século XX  1.


      Além da influencia no plano urbano de algumas cidades, as Ordens Secretas conseguiram também inserir alguns símbolos – ou apenas criar especulações a respeito deles – em inúmeras igrejas católicas edificadas durante os anos de 1.200 a 1.500 a.C. Momento importante na história da disseminação do Catolicismo, boa parte das Ordens Secretas atuava de forma intensa nos canteiros de obras dessas construções e muitas vezes, sem a sua participação,  alguns avanços tecnológicos não seriam possíveis e a verticalização destes templos seria algo inviável.

     Do ponto de vista especulativo,  boa parte da estrutura principal destas complexas edificações certamente não foram usadas por uma simbologia anterior mas, a necessidade de se apropriar destes elementos fez com que surgissem lendas ou alusões de carga simbólica a estes elementos.  Acredita-se que abóbadas, arcos ogivais, arcobotantes e contrafortes já tinham sido experimentados em construções Românicas, mas a importância que estes elementos tiveram nas catedrais góticas fez criou inúmeros mitos a respeito de seu uso aliado aos estudos místicos de Ordens Secretas. A verticalidade destes templos sim tem sua conexão com princípios místicos, mas esta tipologia tão particular não teve sua repercussão no simbolismo dos Rosa-cruzes ou da Maçonaria, cuja arquitetura simbólica foi resgatada ou na Antiguidade Clássica.   2

Rosácea de catedral gótica.
Fonte: www.google.com.br

         Mesmo assim, ainda existem itens decorativos que possuem total conexão com as Ordens Secretas e, cuja elaboração não se justificava pela tecnologia como no casos dos elementos destacados acima. A luz do Sol não necessariamente precisaria adentrar a Igreja em datas específicas demonstrando o conhecimento dos arquitetos com os princípios de astrologia ou mesmo a preocupação com a mística astronômica;  os tijolos da alvenaria de fechamento das igrejas não precisava ser demarcado com linhas geométricas haja visto que seu papel era apenas a vedação;  a estatuária poderia aludir apenas aos santos católicos sem a necessidade de figuras antropomórficas em pináculos ou nas fachadas; os “ labirintos” desenhados nos transeptos poderiam ser substituídos por desenhos com linhas ortogonais já que a planta baixa das catedrais tinha a base quadrada e não circular; e por fim as “rosáceas” poderiam ser simplificadas em óculos  envidraçados.   3

        A planta baixa da maioria das Igrejas deste período baseia-se na cruz latina, com algumas divergências de acordo com a necessidade de naves laterais, o que acaba algumas vezes diluindo o desenho inicial. Do ponto de vista dos teóricos de arquitetura, a planta surge da evolução da planta basilical romana com algumas intervenções para a estabilidade do conjunto. Contudo, para alguns místicos a estrutura das catedrais góticas não parece resultado de “meros cálculos arquitetônicos”. De acordo com Fulcanelli, a cruz latina estendida no solo  é o símbolo do crisol, o ponto em que uma determinada matéria perde suas características iniciais para se transmutar em outra completamente diferente. Simbolicamente, a igreja teria então o objetivo “iniciático” de fazer com que o homem comum, ao penetrar nos seus mistérios, renascesse para uma nova forma de existência, mais espiritualizada.   4

Elevação e planta baixa com cruz latina - Catedral de Chartres.
Fonte: www.google.com.br

        Outro fator intrigante é a relação do Sol com a implantação destas catedrais, proporcionando um efeito muito interessante em dias de santos ou nos solstícios. Sabe-se que a linha mestra utilizada na locação destes edifícios era obtida pelo método da Vesica Piscis, contudo o conhecimento destes princípios certamente tem sua origem nas Ordens Iniciáticas ou mesmo na sabedoria adquirida pelos cavaleiros Templários.    5.  Sobre a luz solar que brinda os altares nos solstícios, os místicos acreditam que haja toda uma relação das datas religiosas com algumas datas já consagradas em calendários pagãos, de forma que a Igreja se apropriou da força simbólica destes dias para seu benefício.  6


(continua)

1. FULCANELLI. O Mistério das Catedrais. Editora Madras, São Paulo. 2007

2. Para os rosacruzes, os estudos iniciáticos tiveram sua origem nas Escolas de Mistérios do Egito, sendo a arquitetura deste período a mais resgatada para a construção das lojas. Já a Maçonaria, embora originada nos canteiros de obras das Igrejas Medievais, utiliza com carga simbólica as colunas das ordens gregas clássicas, bem como alguns detalhes decorativos existente nas residências ou palácios da antiguidade Greco-romana,
 caso do piso em xadrez preto e branco, por exemplo.

3. Óculo: designa um elemento de arquitetura, sendo uma abertura na fachada ou no interior que pode ser redonda ou de outras formas, localizada geralmente acima de uma abertura principal ou inclusa em frontões e frontispícios. Fonte: www.wikipedia.com.br. Embora teve seu uso mais marcante na arquitetura do Barroco, 
seu primeiro uso se deu no Panteão de Roma.

4. O autor - que também escreveu o livro “As Moradas dos Filósofos” - revela o significado oculto das imagens expostas nas catedrais góticas, como um tradutor da secreta “língua das pedras”. Segundo suas palavras, a catedral inteira não é mais que uma glorificação muda, mas gráfica  da antiga ciência de Hermes. Além da tipologia, o próprio termo “gótico” que designa as catedrais citadas, segundo Fulcanelli, seria uma deformação fonética de Argoth (ou Art Goth), uma linguagem restrita utilizada somente por Iniciados em Ocultismo. A arte gótica é, com efeito, a art got ou cot, a arte da Luz ou do Espírito. Ressalta que as catedrais não devem ser vistas unicamente como obras dedicadas à glória do Cristianismo, mas como uma vasta concreção de idéias, tendências e fé popular que motivou sua construção. Sobre o autor,  pouco se pode afirmar sobre Fulcanelli. Sua real identidade é cercada de mistérios; , sabe-se apenas que foi grande conhecedor de arquitetura, escultura, simbolismo, literatura clássica, arquivos e alquimia. FULCANELLI. O Mistério das Catedrais. Editora Madras, São Paulo. 2007.


6.  A 25 de Dezembro ocorre o solstício de inverno (no hemisfério norte) ou de verão (no hemisfério sul).  No 22º dia de Dezembro,  3 dias antes do ápice, o Sol se encontra nas redondezas da Constelação de Cruzeiro do Sul, Constelação de Crux ou Alpha Crucis. Depois deste período a 25 de Dezembro, o Sol move-se, criando a perspectiva de dias mais intensos. E assim se diz: que o Sol morreu na Cruz, (constelação de Crux), esteve morto por 3 dias, apenas para ressuscitar ou nascer uma vez mais. Esta é a razão, segundo os alquimistas, pela qual Jesus e muitos outros deuses do Sol partilham a ideia da crucificação, morte de 3 dias e o conceito da ressurreição. 

sábado, 16 de agosto de 2014

Basílica Nossa Senhora da Penha, Recife.

     Construída pelos frades capuchinhos franceses, foi concluída em 1882. Entre o início da construção (1656) e a conclusão de suas obras, passaram-se mais de 200 anos, em decorrência da expulsão dos calvinistas franceses do Recife, por determinação da corte portuguesa. Única do Recife em estilo coríntio, possui na sua nave colunas em mármore que vieram inteiras da região de Carrara na Itália e que não conseguindo os escravos arrastarem as mesmas do porto até a construção, retornaram a Carrara para serem serradas em partes menores e então serem transportadas até o interior da edificação. Um dos altares do interior é o túmulo de Dom Vital,  e na sacristia está o seu museu, que abriga objetos de uso pessoal do bispo. Segundo o historiador Carlos Alberto Campelo, possui os únicos verdadeiros afrescos da América latina, pintados pelo artista Murillo La Greca.

     Abaixo algumas imagens da Igreja:










      A Basílica Nossa Senhora da Penha está localizada à Praça Dom Vital, S/N , bairro de São José, Recife – PE.  Telefone de contato:  (81) 3424-8500
  

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Questão religiosa brasileira: a crise entre a Igreja Católica e as Ordens secretas no séc. XIX

“Até 1872, a Maçonaria no Brasil respeitou a religião católica. 
Introduziu-se no clero, nos conventos, nos cabidos, nas confrarias. 
Mas quando teve um Grão-Mestre à frente do Governo nacional, julgou oportuno atacar a Igreja”

Antônio Carlos Villaça. 1

         Historicamente a presença da Maçonaria no Brasil não despertou nenhuma oposição durante muitos anos, encontrando nesta terra terreno fértil para criar raízes e estabelecer importantes parcerias com objetivos políticos ou mesmo sociais. Diferente da regra canônica que imperava em outros países – cuja bula Papal condenava quem se associasse à Ordem –, a  força da Ordem impulsionava posições de destaque inclusive em importantes cidades como por exemplo no Rio de Janeiro, capital brasileira na época.  2 .

Foto de D. Vital como frei capuchinho.
Fonte: www.google.com

        A tensão entre a Igreja Católica e a Ordem dos irmãos pedreiros teve como cenário a cidade de Olinda, e como principal personagem Dom Vital   3 , nomeado Bispo aos 27 anos.  Em março de 1872, houve uma festa da Maçonaria que comemorava a Lei do Ventre Livre,  4   obtida pelo então principal Ministro do Imperador, Presidente do Conselho  o Visconde de Rio Branco. Consta que um dos oradores da festa foi inclusive um padre, chamado Almeida Martins. O bispo do Rio de Janeiro, D. Pedro Maria de Lacerda, surpreso com tal atitude, chamou o padre em particular para ponderar-lhe que ele não podia ser padre e maçom ao mesmo tempo. O padre recusou atender a qualquer ponderação e o bispo suspendeu-o de ordens. A Maçonaria considerou-se atingida com tal ato e em assembleia, decidiram iniciar uma campanha coletando fundos e criando publicações para divulgar os interesses da Ordem em todas as capitais do país.  

          Assim, quando D. Vital chegou ao Recife, já encontrou  os jornais maçons  em circulação, divulgando também determinados eventos realizados inclusive nos edifícios das próprias igrejas católicas. Primeiro anunciaram que iria haver uma missa em ação de graças numa loja. Diante da proibição sigilosa do bispo, nenhum padre ousou celebrá-la. Depois, pediram missas por maçons falecidos e mais uma vez houve a recusa dos padres. Por fim o jornal "A Verdade" publicou uma série de artigos entendidos como ofensas pelas diretrizes católicas da época, e em resposta,  o bispo D. Vital publicou  um protesto contra estes textos específicos, motivando a população a protestar também, e  reforçando ainda tais posições  em um sermão público na catedral da cidade. À revelia, dias depois o jornal “A Verdade”, publicou lista de padres e cônegos, presidentes, secretários e tesoureiros de irmandades que também pertenciam às lojas, e o bispo chamando-os um por um, em particular, exigiu retração publica e o desligamento das lojas.  

Foto do Visconde do Rio Branco.
Fonte: www.google.com

        Enquanto uma onda de insegurança reinava em Olinda, também o bispo de Belém do Pará, D. Antônio Macedo Costa, resolveu combater  a Maçonaria. As notícias a respeito, chegaram ao Rio de Janeiro, e provocaram no Governo uma resposta aos dirigentes da Igreja Católica. Depois de inúmeras trocas de cartas envolvendo desde o Imperador até o Papa da época, o Governo mandou processar e prender D. Vital trazendo-o ao Rio de Janeiro para ser julgado pelo Supremo Tribunal. D. Vital foi condenado a 4 anos de prisão com trabalhos forçados, mesma punição do bispo de Belém. Mesmo preso, D. Vital escreveu e mandou publicar uma carta, "A Maçonaria e os Jesuítas", com 139 páginas, em que defendia a estes e atacava a Ordem.    Por razões políticas, caiu o gabinete do Visconde do Rio Branco e o Duque de Caxias foi chamado para sucedê-lo, concedendo anistia aos bispos.

      Os ânimos se acalmaram e a convivência, ao menos em território nacional se manteve pacífica. Contudo, a posição da Igreja Católica permaneceu igual, enumerando os princípios considerados incompatíveis com a Doutrina Católica Romana.  6    Em todos os estudos realizados com base acadêmica, em nenhum momento notam-se  sentimentos anticlericais, anti-Igreja ou anticristãos por parte dos membros da Ordem. Contudo, o desgaste ocasionado por conflitos históricos em disputas de poder geraram “ranços” que criam preconceitos contra essa ou outras Ordens Secretas. O cenário do século XXI dissocia a Religião, a Ciência e a Magia, criando barreiras intransponíveis mesmo em um território pacifico como o brasileiro. No momento de pluralidade religiosa, outras correntes se tornam mais ameaçadoras e ao menos por enquanto, o simbolismo das Ordens Secretas pode ser admirado e estudado com maior tranquilidade.
  
  
1 – VILAÇA, Antonio Carlos. História da Questão Religiosa no Brasil. 
Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1974. P. 7.

2 – Visconde do Rio Branco, José Maria da Silva Paranhos 
(* 16 .03. 1819 Salvador BA. + 0.111.1880, RJ). Seu pai era o português e tio coronel de
 engenheiros foi estudar no Rio de Janeiro onde ingressou no curso de Engenharia na Escola Militar. 
Afiliou-se membro da Maçonaria por volta de 1840, chegando a publicar um folheto a respeito da "Constituição Maçônica". 
Importante político da época, tornou-se Grão-Mestre da Loja da rua do Lavradio,  
cooperando com a publicação de vários jornais anticlericais editados pela maçonaria, 
entre eles no Rio, o jornal A Família; em São Paulo, o Correio Paulistano; 
em Porto Alegre, O Maçom; no Pará, o Pelicano; no Ceará, A Fraternidade; 
no Rio Grande do Norte, A Luz; em Alagoas, 
O Labarum e em Recife, dois, A Família Universal e A Verdade. 
Foi um dos ministérios mais duradouros do período imperial, com participação 
de políticos de ambos os partidos. Coube a Paranhos sancionar a Lei do Ventre Livre 
(28 de setembro de 1871) e enfrentar a questão epíscopo-maçônica nos anos de 1873/1874. 

3 - D. Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira (* 27.11.1844 PE, + 1878, Paris.FR)  
com nome civil foi Antônio Júnior. Estudou no Seminário de Olinda, 
e depois em S. Sulpice em Paris, se tornando capuchinho. 
Posteriormente passou por outros dois seminários europeus antes de retornar ao Brasil, 
em 1868, vindo a integrar o corpo docente no Convento dos franciscanos em São Paulo. 
Em março de 1872 foi sagrado bispo por indicação do Governo do Império do Brasil, 
e nomeado bispo de Olinda e Recife e tomou posse de seu cargo em 24 de Maio de 1872. 
D. Vital,  morrreu aos 33 anos de idade, em Paris. Seu corpo foi enterrado na cripta dos 
franciscanos em Versalhes, de onde, mais tarde, foi trasladado para o Recife. 
Está enterrado na Basílica de N. Sra. da Penha, em Recife. 
OLIOVOLA O.F.M, Frei Feliz de. D. Vital -- Um Grande Brasileiro.
 Edição da Imprensa Universitária, Recife, 1967.

4 - A Lei do Ventre Livre, também conhecida como “Lei Rio Branco” foi uma 
lei abolicionista, promulgada em 28 de setembro de 1871 (assinada pela Princesa Isabel). 
Esta lei considerava livre todos os filhos de mulher escravas nascidos a partir da data da lei.
 Tinha por objetivo principal possibilitar a transição, lenta e gradual, no Brasil do
 sistema de escravidão para o de mão-de-obra livre. Vale lembrar que o Brasil, 
desde meados do século XIX, vinha sofrendo fortes pressões da Inglaterra para abolir a escravidão. 
  Junto com a Lei dos Sexagenários, A Lei do Ventre Livre (1887), 
a Lei do ventre Livre serviu também para dar uma resposta, embora fraca, 
aos anseios do movimento abolicionista.

 5 – Voce pode acessar o livro através deste link:

6 - O último documento da Igreja sobre o assunto foi produzido pela Sagrada 
Congregação para a Doutrina da Fé, em 26/11/1983, e assinado pelo 
Cardeal Joseph Ratizinger, que os maçons consideram como seu inimigo figadal.  
A Declaração afirma: “Permanece imutável o parecer negativo da Igreja a respeito
 das associações maçônicas, pois os seus princípios foram sempre considerados
 inconciliáveis com a doutrina da Igreja, e por isso permanece proibida a inscrição nelas. 
  Os fiéis que pertencem às associações maçônicas, pois os seus princípios foram sempre 
considerados inconciliáveis com a doutrina da Igreja, e por isso permanece proibida a inscrição nelas.  
Os fiéis que pertencem às associações maçônicas estão em estado de pecado grave, e não podem aproximar-se da Sagrada Comunhão”. http://www.presbiteros.com.br/site/maconaria-um-pouco-de-historia/