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terça-feira, 5 de agosto de 2014

A ordem dos irmãos "pedreiros".

" Se dentro do Compasso ficares, decerto estarás,
livre de um problema que aos demais afligirá."
Mensagem maçônica. 1


           De todas as ordens secretas, talvez a de menor complexidade e maior facilidade de compreensão é a Maçonaria. Diferente das outras ordens cuja origem muitas vezes se perde no tempo ou mesmo na história, a ordem dos irmãos maçônicos se correlaciona com a evolução da arquitetura já que surgiu nos canteiros de obra das mais importantes edificações do período medieval. 2   Nasceu na Europa católica, quando a poderosa Igreja proibia reuniões de pessoas que pudessem questionar ou colocar em risco seu domínio. Assim, para fugir dos inquisidores, grupos da iniciante classe média (intelectuais, artesões e comerciantes) formaram uma espécie de associação secreta, que visava a busca da verdade através da razão e da ciência e não apenas através da fé. 

Ilustração de Rito Maçônico.
fonte: www.google.com

       Segundo estudiosos, a Maçonaria se inspirou na organização dos pedreiros que trabalharam na construção do Templo de Salomão 3 , originalmente erguido no estado de Israel. Para gerir um empreendimento monumental  numa época com poucos recursos tecnológicos ou sistemáticos, criou-se uma metodologia simples e funcional, e para fins de remuneração e obediência os pedreiros foram divididos em três classes: aprendiz, companheiro e mestre.  4   Cada classe tinha um conjunto de códigos e sinais para que se reconhecessem entre si e, para não ocorrer tumultos ou brigas, frequentemente  haviam reuniões onde os mestres conscientizavam a importância do respeito mútuo e ajuda ao próximo para que aquele empreendimento pudesse chegar ao fim.

           Embora não existam dúvidas quanto ao momento histórico que originou a Maçonaria, a simbologia que a ordem utiliza nos textos ou mesmo na decoração de seus edifícios  possui uma linguagem complexa e algumas vezes duvidosa  para os não-iniciados, se apropriando de figuras geométricas e sinais com conotação esotérica  5 , além de gestos e posturas com total coerência ás crenças originais. Das muitas figuras utilizadas pelos maçons, talvez a única figura cuja compreensão é universal é a do “triangulo” que já na Antiguidade Clássica estava ligado a Deus, ou como é mais conhecido pelos maçons, o Grande Arquiteto do Universo. 

Painél com simbolismo maçônico.
fonte: www.google.com

          Mesmo com certa tendência mística a maçonaria é uma organização não religiosa, cujos membros podem ser de qualquer credo, desde que acreditem num único Deus. Apesar de não possuir definição político ou religiosa, a maçonaria sempre procurou interferir no campo político-ideológico, o que faziam ora estar no poder, ora serem perseguidos. Perseguidos na Europa, começaram a chegar ao Brasil no século XVIII, durante o ciclo do ouro.


         No Brasil ou mesmo no exterior, a influência da ordem pode ser notada no panorama de inúmeras cidades, seja pela presença do monumento com a letra “G” em um ponto urbano importante, ou pela imponência do edifício de suas “lojas”.  Se na Europa os símbolos maçons tinham que ser discreto por causa das freqüentes perseguições, o mesmo não acontecia aqui pois desde a chegada dos primeiros maçons – estabelecidos na Bahia em 1807  –  houve total simpatia com a ordem secreta fazendo com que muitos padres participassem como afiliados apesar do mandamento contrário da Igreja – 6 – cujo exemplo urbano  pode ser observado no centro histórico de Paraty, em que os  sobrados cujos proprietários eram maçons possuem faixas repletas de desenhos geométricos de linguagem maçônica.


1. Mensagem maçônica.

2. Segundo o dicionário Michaelis, a palavra ma.çon. nm 1 pedreiro. 2 maçom.
Talvez daí venha a relação da Maçonaria com pedreiros, se apropriando de  alguns símbolos
 relacionados à essa atividade profissional e subvertendo seu papel primário 
para outro com sentido mais místico

3. A inspiração na arquitetura do antigo Templo de Salomão está presente tanto na própria 
decoração das lojas – onde duas colunas erguem-se em lugar de destaque com simbologia 
específica – ou mesmo na estrutura organizacional da ordem – caso do segundo grau, 
cujo painél possui a representação deste templo aludindo à frase bíblica
 “Não sabeis que vós sois o templo?”.  – segundo MacNulty, W. Kirk. A Maçonaria. Simbolos, segredos e significado. Editora Martins Fontes, São Paulo, 212.  p 166

4. Os três primeiros Graus da Maçonaria  - os de Aprendiz, Companheiro e Mestre – 
são os chamados Graus simbólicos e são o fundamento da Ordem Maçônica;
 juntos reúnem todo o ensinamento essencial da ordem.

5. Na Idade Média, a geometria era entendida como um atributo da Divindade.
 Vários manuscritos apresentam a figura de um homem portando um compasso ou
 alguma instrumento de desenho, simbolizando na maioria das vezes o 
Deus Maior projetando o Universo. Essas crenças estavam em sintonia com a concepção maçônica
 do “Grande Arquiteto do Universo”, o principio criativo que governa todas as coisas.  – MacNulty, W. Kirk. A Maçonaria. Simbolos, segredos e significado. Editora Martins Fontes, São Paulo, 212.

6 . O cenário favorável à Maçonaria no Brasil foi algo diferente do que houve em toda a Europa, 
onde a Igreja Católica perseguia os membros afiliados cumprindo a 
Bula Papal do Papa Clemente XII, do ano de 1738. 
MacNulty, W. Kirk. A Maçonaria. Simbolos, segredos e significado. 
Editora Martins Fontes, São Paulo, 212. p 128.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Anjos e Demônios, livro (2004) e filme (2009)

Antes de decifrar 'O Código Da Vinci', Robert Langdon, o famoso professor de simbologia de Harvard, vive sua primeira aventura em 'Anjos e Demônios', quando tenta impedir que uma antiga sociedade secreta destrua a Cidade do Vaticano. Às vésperas do conclave que vai eleger o novo Papa, Langdon é chamado às pressas para analisar um misterioso símbolo marcado a fogo no peito de um físico assassinado em um grande centro de pesquisas na Suíça. Ele descobre indícios de algo inimaginável - a assinatura macabra no corpo da vítima - um ambigrama que pode ser lido tanto de cabeça para cima quanto de cabeça para baixo - é dos Illuminati, uma poderosa fraternidade considerada extinta há quatrocentos anos. A antiga sociedade ressurgiu disposta a levar a cabo a lendária vingança contra a Igreja Católica, seu inimigo mais odiado. De posse de uma nova arma devastadora, roubada do centro de pesquisas, ela ameaça explodir a Cidade do Vaticano e matar os quatro cardeais mais cotados para a sucessão papal. Correndo contra o tempo, Langdon voa para Roma junto com Vittoria Vetra, uma bela cientista italiana. Numa caçada frenética por criptas, igrejas e catedrais, os dois desvendam enigmas e seguem uma trilha que pode levar ao covil dos Illuminati - um refúgio secreto onde está a única esperança de salvação da Igreja nesta guerra entre ciência e religião.
Em 'Anjos e Demônios', Dan Brown demonstra novamente sua extraordinária habilidade de entremear suspense com fascinantes informações sobre ciência, religião e história da arte, despertando a curiosidade dos leitores para os significados ocultos deixados em monumentos e documentos históricos. Na semana em que estamos estudando a tradição arquitetônica católica, vale a pena assitir a este intrigante filme de ação.
Abaixo, o trailler do filme. Bom fim de semana!


domingo, 8 de maio de 2011

De umbris idearum, conceitos nolanos para o duelo entre a luz e as trevas.

   "Se eu, ilustríssimo Cavaleiro, manejasse o arado, apascentasse um rebanho,
cultivasse uma horta, remendasse um fato, ninguém faria caso de mim,
raros me observariam, poucos me censurariam, e facilmente poderia agradar a todos.
Mas, por eu ser delineador do campo da natureza, atento ao alimento da alma,
ansioso da cultura do espírito e estudioso da atividade do intelecto,
eis que me ameaça quem se sente visado, me assalta quem se vê observado,
me morde quem é atingido, me devora quem se sente descoberto.
E não é só um, não são poucos, são muitos, são quase todos. (...)"

Giordano Bruno, epístola preambular do livro "Acerca do Infinito, do Universo e dos Mundos" 1.

   Por todo o Renascimento permeou-se a retórica e a poética da luz e sombra. Muitos textos foram publicados tendo como pano de fundo o Deus Vivo e suas comparações com o astro-rei Sol ou mesmo outras comparações com tentativas humanistas. Contudo, uma das teorias mais edificantes foi criada por Giordano Bruno, em seu primeiro texto, “De umbris idearum” de 1572, no qual se apropriou do tema luz e sombras para dar conta dos limites do conhecimento. Evocando alguns versículos do antigo cântico do Salomão, o filósofo deslocou o horizonte espiritual em função da filosofia nolana , e por intermédio de comparações entre o duelo do Sol e das trevas, alto e baixo, espírito e matéria,  Bruno sugeriu de forma filosófica o confronto entre o bem e o mal, provocando uma discussão além dos muros da igreja católica romana.  

   Giordano Bruno era muito conhecido pela sua memória, o que lhe concedeu, na época,  a fama de mago, comparando-se algumas vezes, para os intelectuais contemporâneos, ao próprio Jesus cristo histórico. 2  Na verdade, essa facilidade de memória tinha fundamentos científicos que foram apresentados a partir de um método que “permitia gravar  imagens arquetípicas básicas, tendo como lugar-sistema a própria ordem cósmica”  3 . E nesta obra, o filósofo revelou algumas destas imagens arquetípicas, às quais reproduziam os primeiros dos sete planetas considerados pelo autor   4:


Estudos de Giordano Bruno.
   Primeira imagem de Saturno: um homem com cabeça de veado, sobre um dragão, e tendo, na mão direita, uma coruja, que come uma serpente.


   Primeira imagem de Júpiter: um homem nobre  em uma carruagem conduzida por um dragão, com uma seta na sua mão direita, espetando a cabeça do animal.



   Primeira imagem de Marte: um homem de aparência feroz, com uma armadura, montado  em um leão.

   Primeira imagem do Sol   5: uma mulher atraente e charmosa, com uma coroa magnífica,  em uma carruagem dourada conduzida por quatro cavalos.

   Primeira imagem de Vénus: uma mulher desnudada, com longos cabelos até aos tornozelos.

   Primeira imagem de Mercúrio: uma jovem mulher com um cetro, no qual duas serpentes se entrelaçam e se contemplam face a face.

   Primeira imagem da Lua: uma mulher com um corno-crescente, conduzindo um golfinho, e com um camaleão à sua direita e um lírio à sua esquerda.

   Estas imagens mágicas eram inseridas em um sistema de rodas da memória, que correspondia a outras rodas, onde eram lembrados todos os conteúdos físicos do mundo terrestre. “O possuidor desse sistema elevava-se acima do tempo e refletia, na sua inteligência, todo o universo da natureza e do homem (…) Por meio da gravação, na memória, das imagens celestes – as imagens arquetípicas dos céus, que são as sombras próximas às ideias da divina mensagem –, Bruno esperava tornar-se o Aion, que contém em si todas as forças divinas. (…) O sistema da memória de Bruno representa, de fato, a memória de um homem que conhece
   Acredito que ao ler a descrição das imagens planetárias criadas por Giordano Bruno, certamente várias outras imagens ligadas á simbologia tenham vindo à tona, provando a eficácia do sistema criado e seu poder transcendente, vivo até os dias de hoje. A importância deste filósofo no estudo de geometria sagrada é enorme, mas como este blog se trata de arquitetura, concluo o estudo da filosofia nolana neste artigo, descrevendo abaixo alguns importantes textos que poderão ser pesquisados para o aprofundamento deste tema:

- De umbris idearum (1582)
- Cantus Circaeus (1582)
- De compendiosa architectura (1582)
- Candelaio (1582)
- Ars reminiscendi (1583)
- Explicatio triginta sigillorum (1583)
- Sigillus sigillorum (1583)
- La Cena de le Ceneri (1584)
- De la causa, principio, et Uno (1584)
- De l’infinito universo et Mondi (1584)
- Spaccio de la Bestia Trionfante (1584)
- Cabala del cavallo Pegaseo - Asino Cillenico (1585)
- De gl’ heroici furori (1585)
- Figuratio Aristotelici Physici auditus (1585)
- Dialogi duo de Fabricii Mordentis Salernitani (1586)
- Idiota triumphans (1586)
- De somni interpretatione (1586)
- Centum et viginti articuli de natura et mundo adversus peripateticos (1586)
- Delampade combinatoria Lulliana (1587)
- De progressu et lampade venatoria logicorum (1587)
- Oratio valedictoria (1588)
- Camoeracensis Acrotismus (1588)
- De specierum scrutinio (1588)
- Articuli centum et sexaginta adversus huius tempestatismathematicos atque Philosophos (1588)
- Oratio consolatoria (1589)
- De triplici minimo et mensura (1591)
- De monade numero et figura (1591)
- De innumerabilibus, immenso, et infigurabili (1591)
- De imaginum, signorum & idearum compositione (1591)
- Summa terminorum metaphisicorum (1595)
- Animadversiones circa lampadem lullianam (1586)
- Lampas triginta statuarum (1586)
- De vinculis in genere (1591)

Notas:

1. BRUNO, Giordano. Acerca do Infinito, do Universo e dos Mundos.Fundação Caloust Gulbenkian. Lisboa, Portugal, 1978.

2. A Figura de Jesus Cristo - Tal como os platônicos de Alexandria e os cabalistas da época, Giordano considerava que Jesus era um mago no sentido atribuído a essa palavra por Porfírio, Cícero e Fílon, ou seja, como sendo um dos investigadores mais assombrosos dos mistérios ocultos da Natureza. De fato, na sua concepção, os magos eram homens santos que, isolando-se de qualquer outra preocupação terrestre, contemplaram as virtudes divinas e compreenderam mais claramente a natureza divina dos deuses e dos espíritos; e, então, iniciaram outros nos mesmos mistérios, que consistem na conservação de um intercâmbio ininterrupto com os seres e realidades invisíveis durante a vida. artigo de NEVES, Ana Isabel. Licenciada em Sociologia. http://biosofia.net/2005/09/21/giordano-brunoo-grande-filosofo-do-renascimento/

3. YATES, Frances.  Giordano Bruno e a Tradição Hermética, Cultrix, São Paulo, 1964.

4.  Nesta obra, Giordano refere sete imagens para cada um dos sete planetas principais.


5.  O Sol surgue aqui, claramente, em substituição da Terra, como se vê pela ordem em que os sete planetas estão colocados. A Lua aparece a velar um planeta oculto.


6.  YATES, Frances, Giordano Bruno e a Tradição Hermética, Cultrix, São Paulo, 1964.
a realidade que está além da multiplicidade das aparências”.

Giordano Bruno, o grande filósofo do Renascimento.

  “Existe apenas uma Divindade, a qual pode ser encontrada em todas as coisas,
a mãe sustentadora do universo. (…) A Divindade revela-se a Si mesma em todas as coisas…
tudo tem a Divindade latente no seu  interior. . Sem a Sua presença nada poderia existir,
pois Ela é a essência da existência do primeiro ao último ser” 1.


Giordano Bruno
  Giordano Bruno (1548 - 1600)  foi teólogo, filósofo, escritor e frade dominicano italiano, condenado à morte na fogueira, pela Inquisição romana por heresiaFilho de militares, seu nome de batismo era Filippo, tendo adotado o nome de Giordano quando ingressou na Ordem Dominicana em 1566. Lá, iniciou seus estudos em  filosofia apartir das obras de Aristóteles e de São Tomás de Aquino. 
   Sempre contestador, não tardou a atrair contra si próprio opiniões contrárias e perseguições. Em 1576 abandonou o hábito ao ser acusado de heresia por duvidar da Santíssima Trindade, iniciando uma peregrinação que marcou sua vida. Visitou Gênova, Toulouse, Paris e Londres, onde passou dois anos (1583 a 1585) sob proteção do embaixador francês, freqüentando o círculo de amigos do poeta inglês Sir Philip Sidney. Em 1585, Bruno retornou a Paris, indo em seguida para Marburg, Wittenberg, Praga, Helmstedt e Frankfurt, onde conseguiu publicar vários de seus escritos.
  
   Defensor do humanismo, corrente filosófica do Renascimento (cujo principal representante é Erasmo), Bruno defendia o infinito cósmico e uma nova visão do homem. Embora a filosofia da sua época estivesse baseada nos clássicos antigos, dentre os quais principalmente Aristóteles, Bruno teorizou veementemente contra eles. Sua forma e conteúdo são muito semelhantes às de Platão, escrevendo na forma de diálogos e com a mesma visão.
   Nômade por natureza e modo de vida, Bruno baseou sua filosofia apoiado nas suas intuições e vivências fora do comum. Defendeu teorias filosóficas que misturavam neoplatonismo místico e panteísmo. Acreditava que o Universo é infinito, que deus é a alma universal do mundo e que todas as coisas materiais são manifestações deste princípio infinito. Por tudo isso, Bruno é considerado um pioneiro da filosofia moderna, tendo influenciado decisivamente o filósofo holandês Baruch de Espinoza e o pensador alemão Gottfried Wilhelm von Leibniz.
  Segundo John Gribbin, em seu livro Science: The History (1543-2001), Bruno filiou-se ao hermetismo, baseado em escrituras egípcias, da época de Moisés. Entre outras referências, esse movimento utilizava os ensinamentos do deus egípcio Thoth, cujo equivalente grego era Hermes (daí hermetismo), conhecido pelos seguidores como Hermes Trimegistus. Bruno teria abraçado a teoria de Copérnico porque ela se encaixava bem na idéia egípcia de um universo centrado no sol.  Deus seria a força criadora perfeita que forma o mundo e que seria imanente a ele. Bruno defendia a crença nos poderes humanos extraordinários, e enfrentou abertamente a Igreja Católica e seus preceitos.

Notas:

1. Bruno, Giovani, Spaccio de la Bestia Trionfante. 

 foi remodelado a partir de publicação nesta fonte.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Ramon Llull e sua obssessão missionária - parte 2.

  
"... a maior amizade que deveria existir neste mundo deveria ser entre clérigo e cavaleiro"
 Ramon Lull.1       


          Tomado pelo clima religioso reinante na época, Ramon Llull  declarou-se imaginativo e iluminado, elaborando e propagando um método apologético que deveria difundir à conversão dos infiéis. Sua obra mais famosa, Ars Generalis sive Magnis (1308), descreve como estabelecer a verdade essencial:  sua arte deveria ser um instrumento argumentativo de conversão para judeus e muçulmanos.
           Podemos dividir seu pensamento nesta questão em duas fases. Na primeira, que compreende quase toda sua vida, Llull defendia a evangelização dos infiéis através do amor e do diálogo, a prática da conversão através de uma conversa inteligente entre homens cultos de diferentes religiões. A partir do século XIV, no fim de sua vida, o fracasso do esforço missionário pacífico levou-o a defender o uso da força. Esta perspectiva se insere no quadro histórico ibérico da época, de expansão e conquista militar cristã, fase final da Reconquista. Logo, possui um espírito de cruzada ibérica (tardio em relação ao resto da Europa), expansão ultramarina (idéia que precede em quase um século as navegações portuguesas) e sentido civilizacional cristão (que permeia toda sua obra).

Ramon Llull entregando sua obra para uso nas Cruzadas.
fonte: cometica.ufpr.br

           No tratado Liber de fine (1305), preocupado com possíveis fracassos militares na dispersão das forças cruzadas em várias frentes de batalha, propôs que a cristandade concentrasse seus efetivos na expulsão dos mouros de Granada e num bloqueio econômico e militar ao Egito. No Liber de acquisitione terrae sanctae (1309) retornou à pregação da cruzada, considerando a viabilidade da tomada de Constantinopla simultaneamente a uma operação contra Granada.
            Em sua estratégia cruzadística, o papel desempenhado pelas ordens militares era fundamental. A grande questão de seu tempo a respeito das ordens foi a supressão do Templo decidida por Clemente V, e o destino dos bens templários espalhados por toda Europa. Llull sugeriu ao papa a fusão das ordens numa só, a exemplo de Pedro Dubois. Na idéia de um controle maior sobre as ordens, também pensou numa espécie de "independência restrita" no mediterrâneo leste, área de maior atrito entre templários e hospitalários, principalmenteDe qualquer forma, para Ramón Llull o papel dos monges guerreiros era o de protagonista do teatro da guerra cruzada na Península. Os atributos considerados por Llull essenciais para a consecução da cruzada eram a caridade (caritas) e o poder (potestas), ambos intrinsecamente ligados à ideologia cruzadística monástico-militar.
            O conteúdo de sua Ars é, basicamente, a exposição deste método argumentativo. O sistema combinatório de que Llull faz uso utiliza um simbolismo visual (esquemas, letras, cores, figuras geométricas), em que foi dado um importante passo a caminho das operações intelectuais baseadas num mecanicismo de fundo matemático. Além disso, Llull inaugurou o catalão literário, fazendo um pioneiro uso do vernáculo românico para seus escritos. Sua obra teve grande repercussão até meados dos século XVIII, e o lulismo penetrou também em Portugal, juntamente com outras correntes filosóficas, como o averroísmo e o escotismo. Registramos algumas obras de Llull na biblioteca alcobacense, em letra gótica miúda do século XV, além de referências no Leal Conselheiro de D. Duarte. Todavia, não teve o mesmo eco entre os filósofos.

Notas:

1.  LLULL, Ramon. O livro da Ordem de Cavalaria. Trad. Ricardo da Costa.
São Paulo: Giordano, Instituto Brasileiro de Filosofia e
Ciência "Raimundo Lúlio" (Ramon Llull), 2000.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Ramón Llull, o cavaleiro templário.

          "Fui um homem casado, pai de família, numa boa situação de fortuna, lascivo e mundano.
A tudo isso renunciei de bom grado, a fim de poder honrar a Deus, servir ao bem público
e exaltar nossa santa fé. Aprendi árabe; fui várias vezes pregar entre os sarracenos.
Detido, encarcerado e flagelado pela fé, trabalhei cinco anos para comover
os chefes da Igreja e os príncipes cristãos em favor do bem público.
Agora estou velho, agora estou pobre, mas não mudei de idéia e perseverarei na mesma,
se o Senhor me permitir, até a morte."  1


            O pensamento e a obra de Ramón Llull nos permitem analisar a visão cristã da cavalaria peninsular diretamente envolvida no contato direto com o "outro": o muçulmano. Ao inserir-se numa proposta missionária de conversão - e portanto muito mais próximo do "inimigo" - Llull trouxe importantes contribuições à visão cristã da cavalaria. Sua obra Libro del Orden de Caballería foi fruto desse envolvimento. Embora contra as cruzadas desde o começo - era considerado um pacifista - Ramón Llull no fim de sua vida aceitou a luta armada contra o infiel como uma forma de impor o diálogo.
           Nasceu entre os anos 1232 e 1235, em Maiorca. De família nobre, foi pajem e cavaleiro de Jaime I, o Conquistador, e senescal e mordomo de seu filho, o infante D. Jaime de Maiorca. Casou-se antes de 1257 com Blanca Picany, tendo dois filhos, Domingos e Madalena. Ao contrário do que se costuma pensar, não existe nenhuma prova documental que Llull tenha aderido a qualquer ordem religiosa. Na verdade, Llull foi um pensador leigo. Contudo, a iconografia posterior o franciscanizou.

Ramon Llull.
fonte: nibiryukov.narod.ru
           A forte presença moura e judia em Maiorca contribuiu para o sentido missionário de sua obra. Em 1265, aos trinta anos, quatro aparições de Jesus crucificado levaram-no a dedicar-se à conversão de todos os infiéis. Até então, sua vida era voltada para a corte, as poesias trovadorescas e a vida mundana: "Apesar da ajuda que recebi dos anjos e das pregações dos religiosos (...) cheguei a ser o pior dos homens e o maior pecador desta cidade e de todas as redondezas."  Ramón Llull nasceu quando Maiorca estava sendo conquistada aos mouros por Jaime I. A presença da Ordem do Hospital em Maiorca - auxiliou a campanha de Reconquista cristã, recebendo como prêmio a repartição da ilha - provavelmente influenciou o espírito de conversão expansionista do pensamento de Llull.    
           Seus esforços resultaram na fundação, por Jaime II, de um colégio em Miramar, em 1276, onde os missionários cristãos podiam enfronhar-se nos mistérios da língua árabe. Não se sabe a duração do Colégio de Miramar. Especialistas especulam que a crise espiritual sofrida pelo filósofo em 1293 foi devida ao fechamento do Colégio. De qualquer forma, a partir de então, aos sessenta anos, Llull fez viagens à África e Ásia para pregar  (esteve na Berberia, Tartária, Abissínia, Chipre e Rodes - sede internacional da Ordem do Hospital desde 1308).
Pregou ainda na Universidade de Paris e no Concílio de Vienne (no Delphinado, na França) de 1311 - 1312, onde foi decidida a supressão da Ordem do Templo. Morreu em 1315, apedrejado até a morte por muçulmanos em Bougie (norte da África) . Mais tarde, difundiu-se uma lenda que dizia que teria expirado numa barca de mercadores catalães que o haviam pegado em Túnis para reconduzi-lo à terra natal. A lenda também propagou sua imagem como a de um alquimista e mago, o que não se confirma com o estudo de suas obras.
           Ramón Llull foi um escritor prolífico. Sobreviveram quase trezentas de suas obras; poesia, misticismo, filosofia e teologia. Boa parte de seus escritos do final de sua vida inserem-se dentro da perspectiva da ideologia cruzadística cristã (Liber de fine, 1305 e Liber de acquisitione terrae sanctae, 1309) e suas conexões com o maravilhoso (Libre des meravelles - ca. 1288) . No entanto, a filosofia luliana num todo é realista, não-aristotélica (por esse motivo aproveitada no Renascimento) e progressista - por exemplo, Llull foi um pioneiro na tentativa de organizar um sistema de arbitragem nas discussões internacionais. Em sua época, alguns filósofos (Duns Scott, Guilherme de Ockham e os averroístas) tentavam libertar-se dos estreitos vínculos da metafísica e da teologia. Llull colocou não só a lógica, mas toda sua filosofia novamente a serviço da religião.


Nota:

1. LLULL, Ramon. Disputatio clerici et Raymundi phantastici
in artigo de Ricardo da Costa, 1977, UFES, Porto, Portugal.