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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A religião da Roma Antiga.

Os romanos ultrapassaram todos os outros povos na sabedoria singular de compreender que tudo está subordinado ao governo e direção dos deuses. Sua religião, porém, não se baseou na graça divina e sim na confiança mútua entre deuses e homens; e seu objetivo era garantir a cooperação e a benevolência dos deuses para com os homens e manter a paz entre eles e a comunidade.
Entende-se por religião romana o conjunto de crenças, práticas e instituições religiosas dos romanos no período situado entre o século VIII a.C. e o começo do século IV da era cristã. Caracterizou-se pela estrita observância de ritos e cultos aos deuses, de cujo favor dependia a saúde e a prosperidade, colheitas fartas e sucesso na guerra. A piedade, portanto, não era compreendida em termos de experiência religiosa individual e sim da fiel realização dos deveres rituais aos deuses, concebidos como poderes abstratos e não como Divindades Antropomórficas.
Um traço característico dos romanos foi seu sentido prático e a falta de preocupações filosóficas acerca da natureza ou da divindade. Seus preceitos religiosos não incorporaram elementos morais, mas consistiram apenas de diretrizes para a execução correta dos rituais. Também não desenvolveram uma mitologia imaginativa própria sobre a origem do universo e dos deuses; seu caráter legalista e conservador contentou-se em cumprir com toda exatidão os ritos tradicionalmente prescritos, organizados como atividades sociais e cívicas.
Do ponto de vista arquitetônico, o único exemplar relevante para o estudo de geometria sagrada foi o edifício do Panteão. Nele as características colonizadoras da civilização romana se expressavam de forma plena, sendo colocado lado a lado divindades de várias civilizações conquistadas. Com relação às inovações tecnológicas, a planta circular era complementada por uma grande calota, projeto inspirador para muitos arquitetos do período renascentista, caso de Michelangelo que considerava “o grande templo da antiguidade clássica”.
Panteão romano.
Fonte: rengerwurm.blogspot.com
O declínio e consequentemente o ceticismo religioso chegou a ser uma atitude predominante na sociedade romana, em face das guerras e calamidades que os deuses, apesar de todas as cerimônias e oferendas, não conseguiam afastar. O historiador Tacitus comentou amargamente que a tarefa dos deuses era castigar e não salvar o povo romano. A índole prática dos romanos manifestou-se também na política de conquistas, ao incorporar ao próprio panteão os deuses dos povos vencidos. Sem teologia elaborada, a religião romana não entrava em contradição com essas deidades, nem os romanos tentaram impor aos conquistados uma doutrina própria. Durante a república, no entanto, foi proibido o ensino da Filosofia Grega, porque os filósofos eram considerados inimigos da ordem estabelecida. Os valores dominantes da cultura romana não foram o pensamento ou a religião, mas a retórica e o direito. Com as crises econômicas e sociais que atingiram o mundo romano, a antiga religião não respondeu mais às inquietações espirituais de muitos, passando a ser declarado o Cristianismo como religião oficial de todo o império.         

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O sagrado inserido no cotidiano de um povo

“... a parte da divindade [sangue dos deuses atlantes] dentro deles estava se
                                                               tornando cada vez menor e mais fraca pela mistura com os mortais
                                               [sangue dos homens] cujo sangue se tornava cada vez mais dominante (...)  pois
                                                               haviam perdido sua maior herança,sua parte mais preciosa e valiosa. (...)
                                               E Zeus, deus dos deuses  (...)  percebeu como essa raça íntegra estava em um
                                               terrível apuro e quis infligir-lhe um castigo.”

                                               Platão, Timeu e Crítias ou Atlântida, 561 a.C.  1

               A religiosidade fazia parte do cotidiano dos gregos   2   e posteriormente dos romanos, já que grande parte dos conceitos religiosos destes foi retirada da cultura grega. Naqueles tempos quando a reverência pagã ainda não havia contaminado o mundo europeu, qualquer objeto que passasse pelas mãos de um artesão continha propriedades sagradas, pois o trabalhador estava consciente da natureza sagrada dos materiais com que trabalhava e da sua responsabilidade como fiduciário desse mesmo material.
             Foi devido aos padrões empregados na sociedade grega que os estudos de simbologia se difundiram.  Isso porque quando a religiosidade se incorporou na vida do povo grego, criou-se uma nova condição para a geometria sagrada, que, diferente do que acontecia nas civilizações egípcia e babilônica, não estava mais restrita aos sacerdotes (guardiões e interpretes de todos os conhecimentos) mas nas mãos de cidadãos livres que começavam a investigar racionalmente a natureza e o universo. 3. 
            Do ponto de vista mitológico, o sistema de valores da sociedade grega não girou em torno de um soberano autocrata ou de um deus incompreensível, mas em torno do homem  3  – “O homem é a medida de todas as coisas, dos seres vivos que existem e das não entidades que não existem.”, diria Protágoras (481 – 411 a.C.) 4. Acreditavam que as pessoas pudessem procurar a verdade por meio da indagação e do debate.
             A mitologia grega baseava-se em deuses que viviam da mesma forma que os homens da época. Tinham as mesmas necessidades, as mesmas imperfeições, os mesmos sentimentos. Criaram deuses olímpicos com todas as suas forças e imperfeições de homens e mulheres. Os deuses “habitavam” a Terra e permeavam o cotidiano das pessoas. Por isso, toda a Terra e seus elementos também eram sagrados. Assim, esculpir e modelar era um ato de adoração, e o artesão trabalhava com o melhor de sua habilidade. 5

Os deuses do Olimpo.
Fonte: greekmithology.com

 Na Roma antiga os homens seguiam uma religião onde os deuses apesar de serem imortais, possuíam características comportamentais e atitudes semelhantes aos seres humanos. Sua religião porém não se baseou na graça divina e sim na confiança mútua entre deuses e homens; e seu objetivo era garantir a cooperação  e  a  benevolência dos deuses para com os homens e manter a paz entre eles e a comunidade. Diferente dos gregos, os romanos tinham sentido prático e poucas preocupações filosóficas acerca da natureza ou da divindade. Seus preceitos religiosos não incorporaram elementos morais, mas consistiram apenas de diretrizes para a execução correta dos rituais. Também não desenvolveram uma mitologia imaginativa própria sobre a origem do universo e dos deuses; seu caráter legalista e conservador contentou-se em cumprir com toda exatidão os ritos tradicionalmente prescritos, organizados como atividades sociais e cívicas. Sem teologia elaborada, a religião romana não entrava em contradição com essas divindades, nem os romanos tentaram impor aos conquistados uma doutrina própria. 6

Deuses romanos: diferenciados pelo nome e aparência externa.
 Nos próximos estudos poderemos observar como a diferença no grau de importância da religião marcou definitivamente as construções religiosas das civilizações grega e romana.
Fontes:

1. PLATAO. Timeu e Crítias ou Atlântida. SP. Editora Hemus. 2002. p.55.

2. . WITTKOWER, Rudolf. Los fundamentos de la arquitectura em la edad del humanismo.
Madri, Espanha. Alianza editora. 2002. Apêndice IV parte II. P. 209.

3. O homem passa a ser a figura central filosófica só a partir de Sócrates (Atenas, 470 ou 469 a.C. – 370 a.C.) que, valorizando a descoberta do homem feita pelos sofistas, orientou-a para os valores universais segundo a via real do pensamento grego. Os filósofos pré-socráticos (como Heráclito, por exemplo) divinizavam a natureza, utilizando de seus elementos para comparações em seus discursos.

4. PENNICK, Nigel. Geometria sagrada. SP. Editora Martins Fontes. 1980. p.7

5. Ibid, p.67.

65. GURY, Mario da Gama. Dicionário da Mitologia grega e romana. SP. Editora Jorge Zahar.2003

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

O círculo.

“... e assim animou o mundo, ser vivo único que contém em
 si todos os seres à Sua semelhança (...) e imprimindo-lhe um movimento giratório,
lhe deu forma esférica (...) em outras palavras,
lhe deu a forma mais perfeita de todas.”

Platão, Timeu 33b, 410 a.C. 1


             A geometria, do latim, medição de terra, desenvolveu a possibilidade de manipular a medida, uma habilidade humana que nos tempos primitivos era considerada um ramo da magia. Nesse tempo a magia, a ciência e a religião eram de fato inseparáveis, e faziam parte do conjunto de habilidades possuídas pelo sacerdócio; e os primeiros “sacerdotes” realizavam seus cultos nos lugares onde a natureza era abundante, em que se podia sentir mais forte a presença do Divino. 2
            Com a evolução do homem no que diz respeito à sua capacidade de simbolizar, outros espaços passaram a ser utilizados com fins religiosos. Nestes espaços, pedras foram arranjadas, constituindo os monumentos neolítico, satisfazendo a necessidade do contato com o Criador através da verticalidade. Não só por isso mas também pela implantação em formato circular, forma primeira a ser desenhada pela raça humana, tanto pela sua simplicidade quanto pela possibilidade de ser reconhecida diversas vezes na natureza.

Stonehenge.  Fonte: espiritualismo.hostmach.com.br

            Os monumentos neolíticos já existiam pela Europa ocidental desde 6500 a.C., porém o mais intrigante é Stonehenge localizado em Wilthire, Inglaterra. Datado de 3000 a.C., a disposição de suas pedras está em círculos concêntricos em volta de uma forma de ferradura, sendo que o Sol nasce exatamente no ápice (solstício de verão), mostrando o preciso conhecimento astronômico que seus construtores possuíam. Além destas relações com o Sol, a presença de uma pedra central - que provavelmente era utilizada como altar -, reforça ainda mais o suposto uso para atividades religiosas. Embora seja a construção mais elaborada da época em toda a extensão das Ilhas Britânicas foram encontrados mais de 900 círculos de pedra chamados cromlechs, o que comprova a importância do círculo para esses fins.
              Inovação na planta arquitetônica grega, os túmulos Tolos foram edificados tendo como base a forma circular.  Sua aparição se deu por volta de 1600 a.C. no Peloponeso, no princípio do período chamado Heládico Tardio I. A forma circular da base  subia  em  formato  cônico formando o telhado, sendo a entrada da câmara através de um declive criado na parte frontal da construção. Após um período de interrupção, a construção de tolos é retomada em Delfos por volta do ano de 375 a.C.. Neste edifício, a mesma base circular com telhado cônico é construída de forma mais aprimorada, iluminada por meio de janelas na parte mais alta das paredes, e envolvida por quatorze colunas encerradas por capitéis coríntios.
                Muito semelhante aos túmulos primitivos Tolos gregos, as Stupas localizadas em Sanchi, Índia, construídas de 273-276 a.C., são monumentos dedicados a Buda. Eram originalmente montes de terra que guardavam relíquias de Buda ou de seus seguidores, desprovidas de símbolos, pois naquele momento a religião não permitia imagens, restando o caráter religioso apenas na forma circular ascendente, e no local de implantação já considerado sagrado. Com o passar do tempo, as stupas se tornaram mais complexas arquitetonicamente, porém o seu volume permaneceu igual.

Stupa de Sanchi. Fonte: indialine.com
            Embora o círculo já fosse utilizado na planta de alguns espaços sagrados, foi com a cúpula do Panteão de Roma (18 a 128 d.C.) que ele se consagrou. Construído pelo imperador Adriano para substituir o templo de Agripa, o edifício inicialmente dedicado a todos os deuses, impressionava por ser o primeiro projeto onde a estrutura (semi-esférica) havia sido capaz de proporcionar um vão livre espacialmente equilibrado. O efeito luminoso produzido pelo óculo localizado no ápice da cúpula, proporcionava o passeio de um facho de luz solar por cada um dos nichos dos deuses e juntamente com os detalhes de ouro dos caixotes da cúpula, que sugeriam estrelas do céu, dava ao prédio todo um simbolismo cósmico, satisfazendo o propósito inicial da obra – “O projeto de um anjo, não de um homem”, diria Michelangelo.  Com o passar dos tempos o edifício passou a ser utilizado para outros fins, mas foi  resgatado  pelos arquitetos renascentistas por atingir plenamente suas intenções; dar ênfase  ao poderia do Império Romano  por intermédio do volume plástico.

Notas
1. ROOB, Alexander. Alquimia & Mística, el museo hermético – Madrid, Espanha: Taschen, 2005. p.35
2. PENNICK, Nigel.Geometria Sagrada. SP. Editora Martins Fontes, 1980. pág. 7 e passim.
3. WALKER, Paul Robert. A disputa que mudou a renascença: como Brunelleschi e Ghibert marcaram a história da arte. RJ. Editora Record. 2005. p. 285.