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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Filme: Jesus de Nazaré. 1977.

            Para entender a arquitetura sagrada do período medieval é necessário entender o personagem mais importante para a religião reinante no Ocidente neste período: o cristianismo. Diversas obras cinematográfiocas já foram produzidas tendo como pano de fundo a vida de Jesus Cristo, algumas excessivamente fantásticas, outras excessivamente sanguinárias. 
           O filme indicado para este fim de semana de estudos é Jesus de Nazaré, de Franco Zeffirelli uma premiada versão  aclamada pela crítica pela sua grandiosidade e pela sua correção histórica e religiosa. O épico conta com a interpretação de atores como Robert Powell e a participação de Anne Bancroft, Claudia Cardinale e James Farentino entre outros.
           O comovente retrato da vida e a morte de Jesus de Nazaré é aqui apresentado desde o seu nascimento, passando pelas suas peregrinações ainda enquanto criança e o seu batismo por João Batista. Relatando inúmeros milagres durante o seu percurso, este lindo filme culmina com a crucificação e ressureição, num dos mais fiéis e impressionantes relatos da vida de Cristo.
            Além da mística apresentada pela representação -  a mais fiel possível -  da história de Jesus, vale a pena ressaltar alguns elementos importantes para nosso estudo, principalmente nas questões de arquitetura de espaços (templos hebreus), comportamentos diferenciados das sociedades romana e hebraica, e algumas divergências - bíblico/históricas como a forma de Cristo carregar a cruz, defendida por muitos historiadores do tema. Dica: o filme tem longa duração, mas vale muito a pena acompanhá-lo do início ao fim.


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Ben-Hur, um clássico de 1959.

O filme começa no ano de 26 d.C., quando o príncipe Judah Ben-Hur ( Charlton Heston ) é um comerciante rico em Jerusalém . Seu amigo de infância, Messala ( Stephen Boyd ), agora um tribuno militar, chega como o novo comandante da guarnição romana. Ben-Hur e Messala estão felizes em se reunir, após anos de separação, mas a política poderá dividi-los; Messala acredita na glória de Roma e do seu poder imperial , enquanto Ben-Hur ainda acredita na liberdade do povo judeu. Tempos depois, por um acidente, Ben-Hur é acusado injustamente pelo seu amigo, e condenado a servir a Roma nas galeras, dando início a uma fase de sofrimento que culminará no encontro com Jesus Cristo, figura misteriosa contemporânea de sua época. Após este encontro, a sorte de Ben-Hur muda, e ele ganha a liberdade, tentando depois a qualquer custo retribuir a ajuda recebida pelo homem misterioso.
O subtítulo, "Um Conto de Cristo", se faz jus devido às duas histórias que se cruzam a partir de um determinado momento do filme. Não somente por ser um retrato diferenciado da histórica mística de Jesus, o clássico Ben-Hur apresenta vários aspectos da vida romana, dando maior ênfase a vida política e questões militares, deixando em segundo plano a religião, bem aos modos da sociedade da época. Uma boa sugestão para iniciar o tema religiões cristãs sem cair nas produções muito específicas desta doutrina.
Abaixo, um trecho de uma das cenas mais famosas do filme... Bom fim de semana.


quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A religião da Roma Antiga.

Os romanos ultrapassaram todos os outros povos na sabedoria singular de compreender que tudo está subordinado ao governo e direção dos deuses. Sua religião, porém, não se baseou na graça divina e sim na confiança mútua entre deuses e homens; e seu objetivo era garantir a cooperação e a benevolência dos deuses para com os homens e manter a paz entre eles e a comunidade.
Entende-se por religião romana o conjunto de crenças, práticas e instituições religiosas dos romanos no período situado entre o século VIII a.C. e o começo do século IV da era cristã. Caracterizou-se pela estrita observância de ritos e cultos aos deuses, de cujo favor dependia a saúde e a prosperidade, colheitas fartas e sucesso na guerra. A piedade, portanto, não era compreendida em termos de experiência religiosa individual e sim da fiel realização dos deveres rituais aos deuses, concebidos como poderes abstratos e não como Divindades Antropomórficas.
Um traço característico dos romanos foi seu sentido prático e a falta de preocupações filosóficas acerca da natureza ou da divindade. Seus preceitos religiosos não incorporaram elementos morais, mas consistiram apenas de diretrizes para a execução correta dos rituais. Também não desenvolveram uma mitologia imaginativa própria sobre a origem do universo e dos deuses; seu caráter legalista e conservador contentou-se em cumprir com toda exatidão os ritos tradicionalmente prescritos, organizados como atividades sociais e cívicas.
Do ponto de vista arquitetônico, o único exemplar relevante para o estudo de geometria sagrada foi o edifício do Panteão. Nele as características colonizadoras da civilização romana se expressavam de forma plena, sendo colocado lado a lado divindades de várias civilizações conquistadas. Com relação às inovações tecnológicas, a planta circular era complementada por uma grande calota, projeto inspirador para muitos arquitetos do período renascentista, caso de Michelangelo que considerava “o grande templo da antiguidade clássica”.
Panteão romano.
Fonte: rengerwurm.blogspot.com
O declínio e consequentemente o ceticismo religioso chegou a ser uma atitude predominante na sociedade romana, em face das guerras e calamidades que os deuses, apesar de todas as cerimônias e oferendas, não conseguiam afastar. O historiador Tacitus comentou amargamente que a tarefa dos deuses era castigar e não salvar o povo romano. A índole prática dos romanos manifestou-se também na política de conquistas, ao incorporar ao próprio panteão os deuses dos povos vencidos. Sem teologia elaborada, a religião romana não entrava em contradição com essas deidades, nem os romanos tentaram impor aos conquistados uma doutrina própria. Durante a república, no entanto, foi proibido o ensino da Filosofia Grega, porque os filósofos eram considerados inimigos da ordem estabelecida. Os valores dominantes da cultura romana não foram o pensamento ou a religião, mas a retórica e o direito. Com as crises econômicas e sociais que atingiram o mundo romano, a antiga religião não respondeu mais às inquietações espirituais de muitos, passando a ser declarado o Cristianismo como religião oficial de todo o império.         

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O quadrado

“O corpo humano perfeito e acabado se inscreve também em um quadrado,
pois quando está com os braços estendido e os pés juntos,
forma um quadrado regular cujo centro passa
exatamente pela parte mais baixa da genitária.”

Agrippa de Nettesheim, De occulta philosophia. 1


             
            Enquanto os edifícios sagrados de planta circular eram edificados com a ajuda do Divino através da luz solar que criava a vesica, o quadrado dependia apenas do trabalho do homem e o manuseio da corda dos treze nós; técnica já praticada nas artes pictóricas da civilização egípcia.  
             No antigo Egito, vários são os edifícios sagrados cuja figura do quadrado pode ser identificada; mas o uso desta forma na base da Grande Pirâmide o tornou mais evidente. Embora no volume do edifício sobressaia à forma triangular que aponta para o céu, o quadrado da base tem o caráter de estabilidade. No entanto, o edifício egípcio que foi significativo para a propagação da planta quadrada às demais construções religiosas foi o Templo de Aton. Construído pelo faraó Akhenaton ao norte de Tebas, o grande templo tinha a planta composta por três quadrados. E, para todos os estes edifícios religiosos de base quadrada, a implantação no terreno se dava a partir do sistema da cordagem em forma de cerimônia religiosa. 2   

A grande pirâmide.
Fonte: blogdoelvio.blogspot.com

            Contemporâneos aos egípcios, os hebreus, quando voltaram para Israel, tiveram seus edifícios religiosos  inspirados pelo Divino, conforme citam as Escrituras: os projetos arquitetônicos orientavam-se conforme a vontade de Javé. A Arca da Aliança (Bíblia, Êxodo 37), o Tabernáculo (Bíblia, Êxodo 26), e o Templo edificado por Salomão (Bíblia, I Reis 6 – 8), eram projetos que tinham em comum soluções formais resgatadas da maneira egípcia de se construir: base quadrada, dimensões em números inteiros, medidas em côvados; uma vez que os hebreus foram escravos e trabalharam na construção de vários templos no Egito, já dominavam estas técnicas. Contudo, dentre tantos edifícios sagrados hebraicos, a configuração das plantas do Tabernáculo (quadrado duplo) e do Templo de Salomão (quadrado triplo) foi decisiva na continuidade do uso do quadrado como modulação na arquitetura. E destes dois edifícios religiosos citados na Bíblia, o mais emblemático é o Templo de Salomão, alvo durante as guerras bíblicas: Nabucodonosor em 585 a.C. invadiu Jerusalém, escravizou os hebreus e destruiu o Templo; Ciro, Rei da Pérsia, conquistou a Babilônia e autorizou os exilados em 538 a.C., a voltarem para a terra natal devolvendo os tesouros sagrados e reconstruindo o Templo de Salomão, porém na forma de um cubo de base quadrada de 60 por 60 côvados (Livro de Esdras 6, 3). A configuração quadrada para um templo também esteve presente na arquitetura persa, e seu resgate deu-se posteriormente com os Templários, na Idade Média 3 Voltarei  a falar sobre este assunto nas postagens futuras.
              Os estudos de Pitágoras relacionados à harmonia musical foram fundamentais para as construções gregas do século VI a.C. Apoiado pelas questões filosóficas das três dimensões, comprimento, altura e largura, o cubo foi considerado a forma perfeita e como tal, passou a ser utilizado nos templos sagrados no modo simples, duplo ou triplo. A filosofia e a matemática fizeram com que a geometria impregnasse o cotidiano grego,  e  a figura do cubo permeasse tanto a arquitetura quanto a religiosidade. Um exemplo clássico é a história dos delios, povos que nos tempos de Platão estavam sendo vitimados por uma peste, e ao consultarem um oráculo, foram desafiados a duplicar um dos altares cúbicos do recinto.  
             Finalizando a utilização do quadrado na antiguidade clássica, o tratado de Vitrúvio no século I a.C., proporcionou aos arquitetos romanos outros conceitos para a edificação de templos. Tomado pela geomântica antiga do microcosmo, passaram a ver o templo como o corpo humano. E os estudos do corpo humano fizeram com que as medidas dos espaços sagrados fosse nele baseada, e o desafio da geometria era chegar próximo à harmonia presente entre as partes do corpo humano. Além dessa ligação, a orientação astronômica dos templos intensificava a relação com o Cósmico, já que segundo eles, o homem era uma criação divina .
O homem vitruviano. Desenho desenvolvido na Idade Média.
Fonte: ROOB, Alexander. Alquimia & Mística, el museo hermético – Madri, Espanha: Taschen, 2005
Fontes:
1.  ROOB, Alexander. Alquimia & Mística, el museo hermético – Madrid, Espanha: Taschen, 2005. p.535.

2.   Cordagem: cerimônia religiosa em que se locavam as estruturas do edifício a partir de uma corda com doze intervalos, construindo-se ângulos retos pelo método do triângulo retângulo pitagórico: cateto 3, cateto 4 e hipotenusa 5. Este método assemelha-se a técnica utilizada ainda hoje para a verificação ou determinação de ângulos nos terrenos ou obras arquitetônicas. PENNICK, Nigel. Geometria Sagrada. SP. Editora Martins Fontes, 1980. c.4.

3. PENNICK, Nigel. Geometria Sagrada. SP. Editora Martins Fontes, 1980. p.59.