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sexta-feira, 8 de agosto de 2014

A lenda do tesouro perdido, filme 2004

"A lenda do tesouro perdido" (titulo original National Treasure) é um filme de aventura americano, produzido e lançado pela Walt Disney Pictures no ano de 2004. Foi escrito por Jim Kouf, Ted Elliott, Terry Rossio, Cormac Wibberley e Marianne Wibberley, produzido por Jerry Bruckheimer e dirigido por Jon Turteltaub. É o primeiro filme da trilogia "National Treasure", estrelado por Nicolas Cage, Harvey Keitel, Jon Voight, Diane Kruger, Sean Bean, Justin Bartha e Christopher Plummer.


Nicolas Cage interpreta Benjamin Franklin Gates, um historiador e criptologista amador em busca de um tesouro perdido contendo metais preciosos, jóias, obras de arte, além de outros artefatos. Este tesouro faz parte de uma  coleção foi feita   por saqueadores e guerreiros ao longo de muitos milênios,  começando no Antigo Egito, mais tarde redescoberto pelos Cavaleiros Templários, e mais eventualmente escondido por maçons dos Estados Unidos durante a Guerra Revolucionária Americana. A busca segue a partir de um mapa codificado no verso da Declaração de Independência, que mostra os pontos para a localização do "tesouro nacional", mas Gates não está sozinho em sua busca. Quem pode roubar a Declaração e decodificá-lo encontrará o maior tesouro da história primeiro!

Até por se tratar da busca do suposto neto de um maçom, várias cenas apresentam conversas marcadas por simbolismo, desde o "olho" na cédula do dolar americano, até as passagens revelando o interior de edificações egípcias. Vale a pena estar atendo para encontrar os códigos secretos que permeiam o filme. Abaixo, o trailler oficial de National Treasure:


segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A arte sacra de Romolo Picoli Ronchetti


De família capixaba religiosa, foi preciso ingressar no seminário para reconhecer sua grande vocação no serviço à Igreja Católica! Em entrevista ao ARQSAGRADO, o artista sacro Romolo Picoli Ronchetti fala sobre o que pensa a Igreja Católica Contemporânea sobre a arte, e os novos rumos da estética religiosa do século XXI.
Romolo trabalhando no painél do altar da Igreja Paroquial N.S. de Sabara.
Dioces de Santo Amaro.
 
1 – Seu trabalho carrega traços que revelam seu grande conhecimento na doutrina cristã-católica. Como aconteceu essa aproximação com este tipo muito particular de arte?
 
A vida de quem se deixa conduzir por Deus toma muitas vezes rumos para muito além de nossa imaginação! Quando eu estava terminando o Ensino Médio numa pequena cidade da zona rural do Espírito Santo (Marilândia), meu objetivo era estudar Física ou Matemática no Ensino Superior, e eu estava me preparando para isso... Inesperadamente um padre com tradições monásticas muito fortes assume a paróquia, e ao visitar minha família, convida-me para passar alguns dias, juntamente com outros jovens, em retiro de oração e meditação. Essa experiência foi decisiva na minha vida, e ascendeu em meu interior um interesse muito grande pela espiritualidade: decidi entrar no seminário! Incentivado por dois amigos, que hoje são padres, vim parar em São Paulo com 16 anos, para cursar o primeiro ano de Filosofia na Diocese de Santo Amaro, onde fiquei até quase terminar a Teologia. Saí do seminário e fui morar com o Pe. Samuel Pereira Viana, que considero o grande incentivador do meu trabalho. (...) Intelectual de primeira grandeza, iniciou-me no mundo da arte colocando-me para pintar uma Virgem com o Menino. (...)  Daí por diante eu comecei a estudar História da Arte por conta própria e por incentivo desse padre comecei a arriscar algumas pinceladas! Nesse ponto todos os processos da minha vida fazem sentido: deixei as Exatas para dedicar-me às Humanas; entrei no seminário e tive contato com a Liturgia, Direito Canônico, Teologia; fui morar numa paróquia e comecei a pintar.  E aqui estou eu, usando os conhecimentos teológico-litúrgicos para servir à Igreja e melhorar a cada dia meu trabalho como artista sacro.

Detalhe do painél da Paroquia de Santa Luzia, onde o artista
imprimiu sua propria estética.
2 – Dentre todos os murais que você já desenvolveu, qual foi o mais importante e por quê?
Para todo artista o melhor trabalho que ele já realizou é sempre o último. Para não deixar a pergunta numa vazia curiosidade, cito como um trabalho muito importante pra mim o que realizei na Paróquia Santa Luzia, Diocese de Santo Amaro. Todo artista sempre começa como copista de outro, e assim também se deu comigo, e cito esse mural, pois nele eu arrisquei todas as minhas fichas elaborando um trabalho particularmente meu. Esse trabalho é muito querido porque foi nele que apresentei o meu estilo, meu traço, minhas cores ao mundo e onde consegui realizar o objetivo da arte sacra: a transcendência e a veneração. Essa igreja fica num bairro muito castigado pela desigualdade social, mas quando se entra na igreja a impressão que se tem é de estar em outro mundo.  A atmosfera é outra, todo o espaço convida à oração e ao encontro com o Sagrado. Ali não existem diferenças, existe Unidade, consigo mesmo, com o outro,e com o Sagrado.
 
Detalhe do painél da Paroquia de Santa Luzia, onde o artista
imprimiu sua propria estética.
 
3 – Quem são seus mestres? Onde você busca referencias ou inspiração para a elaboração de seus painéis?

O único artista que até hoje foi capaz de criar a partir do nada é Deus, todos os outros são produtos do meio, da época, do subjetivo! Meu trabalho não seria diferente. Sou profundo admirador de dois grandes artistas brasileiros e tenho muitas influencias deles na cor e no traço: Cláudio Pastro e Lázaro Aparecido Diogo. Eles são os verdadeiros pais da minha arte. Mas devo confessar a influência muito clara que tenho da Antiguidade Cristã, da iconografia clássica: todo o figurativo do meu trabalho é uma releitura, uma inspiração na imagem de tradição iconográfica. Faço assim por ter a convicção de que esta tradição representa muitíssimo bem o Humano no âmbito da arte sacra, estando bem posicionada entre o real e o ideal; não é uma abstração nem um realismo, esta exatamente entre o Céu (o Sagrado, o Espiritual, o desprovido de formas) e a Terra (o humano, o carnal). Na composição dos meus trabalhos, uso ainda estudos particulares de outros dois artistas que admiro: Van Gogh (nas cores e na força da pincelada, na ausência de medo e sem pretensão de agradar)  e Portinari ( na desconstrução do espaço, na geometrização, na expressividade).
Tendência à verticalidade na obra de Romolo P.Ronchetti.
Painél da Igreja N.S. do Sabara, na Diocese de Santo Amaro.
 
4 – As forma de arte que você desenvolve nos traz referencias na arte bizantina, pela longevidade dos rostos e tendência á verticalidade por intermédio das formas geométricas, sejam retângulos ou elipses. As primeiras representações deste tipo, aqui no Brasil, segundo meu conhecimento foram elaboradas para igrejas ou capelas de ordens jesuíticas. Algumas ordens são mais abertas a este novo tipo de pintura mural, outras mais fechadas. Isto é realidade ou um mito? A Igreja Católica por completo está aberta ao “novo”, no que diz respeito às novas tipologias arquitetônicas ou artísticas?
 
Em toda a História, a Igreja sempre foi a grande incentivadora das Artes e das Ciências, mas também nunca pôde pôr de lado a Moral e a Teologia. Hoje o mesmo se dá: a Igreja incentiva a arte contemporânea, mas nem tudo serve como arte sacra.(...) Assim como qualquer instituição séria, a Igreja possui princípios e normas, e no que diz respeito à arte eles não são nem um pouco rígidos,  e a partir deles dá para afirmar que todo artista sacro é um artista plástico, mas nem todo artista plástico é um artista sacro! Toda a Arte Sacra Cristã tem uma razão de ser, ela brota da Revelação e esta a serviço da Liturgia, portanto a forma não pode estar desprovida de conteúdo e o artista deve ter um conhecimento teológico, bíblico, para que seu trabalho não seja um corpo sem espírito. Existem sim, alas conservadoras que vivem da reprodução do passado artístico, mas de uma forma geral, a Igreja está aberta ao 'novo'. Contudo não podemos cair na ilusão de pensar que ele pode ser qualquer coisa, precisa ser condizente com o espírito da Instituição, com sua missão: se nas formas do 'novo' estiver o conteúdo da Revelação, a Teologia Cristã, o espírito Litúrgico, certamente haverá o reconhecimento, a Verdade, a presença do Invisível, a veneração; e aí certamente a Igreja irá acolher e incentivar como Arte Sacra.  Existem, evidentemente, escolas, faculdades, instituições que são de iniciativa de Ordens Religiosas Católicas que incentivam a produção da Arte contemporânea nos mais diversos setores (moda, arquitetura, artes plásticas, artes cênicas, arte digital...) mas nem tudo que é produzido serve para ser Arte Sacra.
 
Detalhe do painél na Igreja Paroquial do Sagrado Coração de
Jesus, em Boiçucanga.
 
 5 – Muitas vezes o trabalho mural pode ser encarado como mera decoração do interior de igrejas. Contudo, os novos projetos dos templos católicos são tão complexos que a referencia ao sagrado fica difícil de ser reconhecida se não pelo contato com a pintura ou arte decorativa. Em algumas igrejas, a estatuaria foi substituída por decorações nas paredes, bem à maneira das igrejas ortodoxas, ou mesmo de paredes islâmicas ou hindus. Como você entende a importância de sua arte neste período em que o interior das igrejas está sendo “desnudado”?
 
O trabalho mural nos templos cristãos sempre teve uma função pedagógica e catequética: por meio da imagem ensina-se algo da Revelação de Deus, ou da vida eclesial.  A falta do reconhecimento que você denuncia nessa questão esta justamente na ausência do conteúdo  como elemento primordial na arte autenticamente sacra. Algumas igrejas têm formas muito boas, complexas, mas carecem de conteúdo, não possuem referência ao sagrado, são apenas fruto de uma técnica muito rebuscada em que o objetivo é a autoafirmação de um ego idolátrico.
 
Quanto ao desnudamento no interior do espaço sagrado observado hoje, ele é fruto de uma busca do Centro. Com o passar do tempo os templos cristãos foram tornando-se palco de manifestação de uma religiosidade subjetiva, devocional; fiéis e clérigos piedosos –  bem intencionados, mas mal orientados e com gosto duvidoso – foram enchendo  as igrejas de imagens de santos, Madonas, anjos, rendinhas, paninhos, flores artificiais e a lista prossegue assustadoramente, tudo isso desordenadamente! Hoje o que vemos nas reformas e construções de novas igrejas, é a referência primeira que dá vida e força para uma autêntica vida eclesial, que dá sentido à vida espiritual. O mundo moderno é cheio de informações, imagens diversas; o templo deve ser o lugar da transcendência, o lugar do Encontro, do Reconhecimento, e nesse sentido o Vazio é visto como o lugar onde habita o Sagrado. No Espaço Sagrado tudo é meticulosamente planejado para não se perder justamente o Centro: Jesus Cristo, o centro e a plenitude da Revelação de Deus; o rosto humano pelo qual Deus se mostra ao Homem. A partir desse Centro que todos os elementos devem ser organizados . Agora, quando o 'desnudamento' não é seguido de uma nova 'roupagem', ou seja, quando a retirada das imagens tem por objetivo o Vazio por ele mesmo, não esta condizendo com os princípios cristãos da arte, pois a arte cristã tem seu centro no Deus que se fez Homem, e não no Deus invisível do Antigo Testamento. Por isso, a importância que vejo no meu trabalho nesse processo atual de 'desnudamento', é dar a 'roupa nova', é tirar o velho e pôr algo novo no seu lugar, é ressaltar o que realmente é o Centro, o Foco , no culto e na vida eclesial. Entendo que um templo vazio e carente de referências simbólicas, é como um homem diante de várias opções de caminhos: sem saber aonde quer chegar, qualquer lugar leva a lugar nenhum. Meu trabalho é mostrar o caminho, é convidar à oração, e facilitar a liturgia.
 
Mural na Paróquia de Nossa Senhora Aparecida, em São Carlos.
6 – Seu trabalho contribui muito para situar determinadas igrejas em um contexto arquitetônico mais contemporâneo, haja vista as intervenções em edificações de meados do século XX.  Você já foi alvo de criticas por parte de grupos mais tradicionalistas da igreja?

As críticas sempre existem, e muitas vezes nos fazem crescer. Sou constantemente alvo de duras críticas, mas todas elas são as chamadas 'críticas de gosto' ,  particulares, e não de grupos . Estão sempre no nível do subjetivo, do gosto sem justificativa: não gosto de vermelho, não entendi esse monte de quadrados, esse anjo tem asas muito grandes!  As críticas mais teóricas, feitas por pessoas que defendem no nível mais conceitual determinados estilos de arte ainda não chegaram ao meu conhecimento e quando chegarem certamente vou utiliza-las para o crescimento do trabalho que faço.
 
Painél da Comunidade de Santa Rita de Cassia.
 
 7 – Quais são seus novos desafios? Existe algum trabalho ou algum ícone religioso que você deseja pintar ou esculpir futuramente?

Trabalhar com Arte Sacra já é por si mesmo um grande desafio! Deixar de lado a autoafirmação para poder desenvolver um trabalho sólido, com conteúdo, guiado pelo Espírito Santo é sempre uma tarefa árdua! Podem considerar espiritual demais nessa afirmação – em alguns momentos até concordo que seja! –, mas se o artista sacro não tem intimidade com o objeto de sua arte, se ele não tem vida espiritual, dificilmente conseguirá desenvolver um trabalho que leve o espectador à experiência do sagrado. E aqui faço uma revelação em tom muito confessional: sabe qual é o grande desafio , diante do qual eu sempre tremo? Pintar o rosto de Cristo! Pra mim é sempre uma responsabilidade muito grande tornar visível o Rosto do Amor, o rosto diante do qual muitos vão derramar suas lágrimas pedindo ajuda, diante qual doentes vão pedir a cura para suas doenças, pessoas deprimidas vão buscar consolo, mães vão rezar pelos seus filhos! Confesso, sempre paro e fico muito tempo em silêncio , percebo  o quanto sou indigno de realizar essa tarefa, é onde acredito piamente na força do Espírito Santo, pois sem Ele meus Cristos estariam todos com o rosto em branco...

Cristo. Painél da Paróquia de São João Maria Vianney, Santo Amaro

8 – Finalizando, pediria a você um conselho para os leitores do blog que admiram sua arte e pretendem desenvolver um trabalho da mesma importância para trazer cada vez mais a religião católica aos tempos atuais.

O conselho que dou para quem quer desenvolver um trabalho autenticamente sacro é educar o olhar e preparar o espírito: estudar História da Arte Sacra Cristã, ver como a arte foi feita e como se desenvolveu na história, seus símbolos frequentes, como a forma e o conteúdo se harmonizam. Estudar liturgia, seus tempos, seus movimentos, seus gestos e símbolos. Ter contato com a Palavra de Deus e com a Teologia, sem elas não existe Arte Sacra ; cultivar uma vida de oração saudável, ela ajuda muito a técnica desenvolver-se. Colocar a Arte Sacra Cristã para dialogar com a cultura contemporânea não significa abandonar a Tradição, esquecer o passado, deixar de lado os próprios princípios e símbolos, mas sim, usar o que de melhor existe na contemporaneidade para melhor exprimir o Mistério de Deus, que está sempre para além dos conceitos, fórmulas, teorias, estruturas, mas sempre acessível pela Arte!

Projeto para a fachada externa da Paróquia de São Paulo, Diocese de Santo Amaro.

 Para saber mais sobre o trabalho de Romolo, clique aqui

quarta-feira, 7 de março de 2012

Igrejas Católicas atuais: Sagradas ou Profanas?

Sagrado ou profano? Beleza ou feiúra? Abaixo uma seleção com fotos dos mais diversos projetos realizados para igrejas católicas em todo o mundo. Confira!











Em todas as religiões, a arquitetura é item de suma importância. Diferente do que acontece atualmente no Catolicismo, o papa se apropriou da arquitetura inclusive a fim de propagar a religião quando esta precisava se fazer presente no cenário histórico, econômico e social. Embora seja uma das religiões com mais números de adeptos no mundo, o que se constrói hoje como sagrado está muito longe do propósito religioso. Acredito que devemos seguir utilizando sistemas construtivos modernos, mas os símbolos que determinam o sagrado são os mesmos usados desde a antiguidade. Um arquiteto que conhece o homem e o Universo certamente saberá fazer uso das regras tradicionais de forma pioneira... A lição dos mestres está aí para ser seguida.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Constantine, filme 2005

Constantine é uma adaptação do personagem das histórias em quadrinhos John Constantine, protagonista da revista Hellblazer, para o cinema.  No filme, John Constantine (estrelado por Keanu Reeves) é um experiente ocultista e exorcista, que literalmente chegou ao inferno. Juntamente com Angela Dodson (Rachel Weisz), uma policial cética, ambos investigam o misterioso suicídio de sua irmã gêmea, Isabel. As investigações levam a dupla a um mundo sombrio, em que precisam lidar com demônios e anjos malignos.
Independente dos aspectos místicos e ocultistas que alguns podem identificar,  acredito que o ponto mais interessante que o filme aborda é “como viver a fé religiosa em um mundo tão cruel como o que vivemos?”. Além disso, de encontro com os temas que estamos estudando nos últimos posts, alguns lugares freqüentados por Constantine são incríveis, ou pelo excesso de informações místicas, ou mesmo pelo vazio simbólico – caso do hospital católico onde se passa boa parte da trama.
Sucesso de bilheteria na estréia, o filme certamente vai agradar aos mais exigentes. Bom divertimento!

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A origem das Igrejas Católicas Modernas.

“(...) o então bispo Dom Jaime Luiz Coelho, inspirado pelo pioneiro foguete Sputnik, revoluciona a arquitetura eclesiástica e constrói a nova Catedral Nossa Senhora da Glória com uma forma cônica,com o vértice apontado para o céu, querendo que esta fosse um convite a toda a população, que sempre estivesse voltada para o céu, para Deus”.
Selson Garutti.1. 
Diferente do Catolicismo, o Protestantismo, se ateve às questões dogmáticas, não gerando uma tipologia arquitetônica própria.  Seus fundadores preferiram edificações livres de ornamentos: adaptações simplórias das antigas igrejas católicas, utilizadas para dar maior credibilidade à nova doutrina. No Brasil, os Protestantes – posteriormente denominados evangélicos –, construíram os primeiros templos com inspiração neogótica. Ainda que em meados do século XIX, um movimento interno no protestantismo reivindicou prédios mais compatíveis com as diretrizes da nova Igreja, esses templos foram construídos focalizando leitura e reunião, e não o sacrifício do altar. O projeto destes se assemelhava a anfiteatros e auditórios, uma arquitetura “deliberadamente não-eclesiástica, sem altar, sem tabernáculo e sem presbitério” 2.

Igreja Anglicana de São Paulo. RJ.
foto: Leo Mendes. www.flickr.com

A nova doutrina ameaçou a Igreja Católica, iniciando um movimento arquitetônico  moderno. “Após a II Guerra Mundial, os católicos começaram a experimentar novas formas e configurações. [...] Algumas destas experiências foram inspiradas pelo movimento liturgicista católico, e dirigidas por líderes da arte e da arquitetura modernista [...]. A estatuária foi evitada, a estrutura de basílica foi descartada e o sagrado não foi mais diferenciado do profano. Utilizando linhas retas e geometrias abstratas, arquitetos como Rudolph Schwartz e Dominikus Bohm criaram ‘espaços de culto’ frios e secos muito antes que estas experiências atingissem o seu auge nas décadas que seguiram o Concílio Vaticano II” 3 . Nessas “experiências”, os sentimentos de a piedade e unção sobrenatural desapareceram.

Os novos edifícios católicos continuavam nascendo, e alguns são exemplos bem claros do que o novo programa de necessidades impunha. Independente do adjetivo que cada espectador deu, as Igrejas projetadas a partir de 1950 são edificações que sempre nos despertarão algum sentimento: amor ou ódio.  O arquiteto suíço Le Corbusier criou dois exemplos típicos da nova arquitetura em sintonia com a nova teologia, sendo a Notre Dame du Haut (1950-1954) em Ronchamp, França, o exemplo mais claro de uma igreja desenhada como uma escultura abstrata.  A capela está implantada em platô no topo de uma colina, sobre as ruínas de um santuário datado da Idade Média e dedicado à Virgem Maria, destruído pelos bombardeios em setembro de 1944. A edificação possui paredes grossas e curvilíneas, que apoiam a cobertura em concreto de formato escultural. Nestas paredes pequenas vãos permitem o acesso da luz, em janelas irregulares e vindas das três torres claras. A luz é naturalmente controlada, realçando o interior sem ofuscar o usuário.

Notre Dame du Haut, Le Corbusier. Interior.
Notre dame du haut, Le Corbusier. Fachada.

 "A cobertura foi posta sobre paredes grossas. Dentro delas entretanto estão as colunas do concreto reforçado. O telhado descansará nestas colunas mas não tocará na parede. Uma fenda horizontal de luz com dez centímetros de altura surpreenderá."— Le Corbusier. 4.

Convento Dominicano de La Tourette, Le Corbusier. Interior.

Outro edificio projetado pelo mesmo arquiteto é o do Mosteiro Dominicano de La Tourette (1951). Em suas teses, Le Corbusier sustentava que a casa é uma “máquina para morar”, portanto máquina e não a figura humana, seria o paradigma para a arquitetura. Este critério foi aplicado na arquitetura eclesiástica católica dos anos 1960, e apoiado pela Igreja que, em seu novo movimento litúrgico, acreditava que o  espaço sagrado deveria explorar os materiais e os métodos modernos. Assim, a maioria das obras desta época foram construidas com aço, vidro e concreto, desenhadas como grosseiras massas, obedecendo à forma de conchas, navios, arcas e outros temas náuticos; zigurates, naves espaciais, colméias, toldos de índio, artefatos para pouso lunar, e vários tipos de origami. 5.

Convento Dominicano de La Tourette, Le Corbusier. Fachada.

Catedral de Maringá, José Augusto Belucci. Interior.

No Brasil, seguindo a tendência modernista católica, estavam sendo projetadas a Catedral Metropolitana de São Sebastião, RJ, edificação cônica que lembra ela os templos babilônicos, dos quais o maior foi a Torre de Babel, a Catedral de Brasília, comparada por autores à reservatórios de água, e a Catedral de Maringá, cuja forma cônica reporta-se ao satélite soviético Sputnik, lançado em 1957. 6

Catedral de Maringá, José Augusto Belucci. Fachada.

Notas:
1. GARUTTI, Selson. ANAIS DO II ENCONTRO NACIONAL DO GT HISTÓRIA DAS RELIGIÕES E DAS RELIGIOSIDADES.  Revista Brasileira de História das Religiões – ANPUH Maringá (PR) v. 1, n. 3, 2009. ISSN 1983-2859.  Disponível em http://www.dhi.uem.br/gtreligiao/pub.html .
2. ROSE, Michael S. In Tiers of Glory: the Organic Development of Catholic Church Architecture Through the Ages, Mesa Folio Editions, 2004, P. 99.
3. ROSE, Michael S. In Tiers of Glory: the Organic Development of Catholic Church Architecture Through the Ages, Mesa Folio Editions, 2004, P. 100 e passim.

4. Aos 63 anos, Le Corbusier inicia a reconstrução da capela Notre-Dame-du-Haut a Ronchamp. Seria seu primeiro projeto de um edifício religioso, apesar de ter trabalhado em 1929 nas plantas da igreja de Tremblay. Em um primeiro momento, Le Corbusier declina o projeto, mas desta vez além de um excelente local para implantar a capela, Le Corbusier tem carta branca da Igreja para desenvolver sua liberdade criativa. Lírico, sobre a beleza do terreno, ele disse : “ Eu nunca havia feito algo religioso, mas quando eu me vi diante destes quatro horizontes, não pude hesitar”. A arquitetura fina e curvilínea da capela é surpreendente pelo que se via de Le Corbusier, um arquiteto racionalista que acreditava apenas no ângulo reto. A capela é repleta de contradições arquitetônicas, ao mesmo tempo quadrada e redonda, alongada e contida, baixa e alta. Segundo Christophe Cousin, o diretor do Museu de arte e história de Belfort,: “ Ela possui uma planta muito simples, mas quando estamos no local, não é nem um pouco evidente”. Vasta e aberta sobre o exterior, ela se torna um local pequeno de recolhimento. Com o branco brilhante de seus muros externos, parece definir seu criador, para o qual: “ a emoção arquitetural é o jogo sábio, correto e magnífico dos volumes sobre a luz”.  
Por esta contradição à arquitetura de linhas retas de Corbusier e ao fato de este ser ateu, a capela de Ronchamp foi uma das obras que causaram mais polêmica e dificuldade de assimilação pela crítica, tanto por parte dos arquitetos , quanto pelo público. Segundo Charles Jencks a capela representa um momento irônico de Le Corbusier, o desenho da capela parte de um sistema ortogonal: o cubo. No entanto este é distorcido, empurrado para dentro em três das faces, distorcido em direção ao sul e rebaixado em seu teto em direção à nave. Assim, o sentimento no interior é o oposto das igrejas de então, onde as grandes alturas das naves evidenciam a distância entre o mortal e a divindade.[4] O crítico americano Mumford e outros, viram em Ronchamp um regresso ao passado e à plasticidade, o inglês James Stirling considerou a obra como um indício da crise do racionalismo. Fonte: www.wikipedia.org.br
5. “[...] com seus espaços áridos e opressivos, (o Mosteiro Dominicano de le Corbusier) foi um fracasso monumental” ROSE, Michael S. In Tiers of Glory: the Organic Development of Catholic Church Architecture Through the Ages, Mesa Folio Editions, 2004, P. 100 e passim.
6. ROSE, Michael S. In Tiers of Glory: the Organic Development of Catholic Church Architecture Through the Ages, Mesa Folio Editions, 2004, P. 100 e passim

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Templos Católicos: feiura do pecado X antecâmaras do céu

“ As igrejas modernas criam um ambiente que leva à perda da fé.
Em sentido contrário, as igrejas antigas, fiéis à tradição, estimulam a fé e a piedade,
tornam atraente a virtude e alimentam o desejo do céu.”
Luis Dufaur, escritor.

Há tempos vinha buscando uma referência bibliográfica que estivesse de encontro com o que penso sobre a produção arquitetônica católica atual. Diferente do que acontece com os livros de outras religiões, o que constantemente eu achava era um caderninho repleto de anotações ligadas aos “encontros místicos particulares”, em que a análise formal da edificação ficava abafada ou por “momentos de sublime espiritualidade”, ou por medo de ser tachado como “herege”, seguindo de um processo de expulsão da paróquia, ou um dolorido “puxão de orelha” do padre.

Contudo, cada vez que me deparava com mais um novo projeto para Igreja Católica, não me conformava com o rumo que a arquitetura desta religião ia seguindo. A vivência de um  curto – mas profundo - período como católico, me permitia entender que, em parte, as mudanças estruturais ocorridas nos Concílios do século XX na tentativa de atrair mais fiéis, acabavam eliminando o que mais interessante os templos católicos possuíam. A emoção que esta arquitetura específica despertava nos seus adeptos ia sendo destruída, causando, ao meu ver, o efeito contrário: a expulsão cada vez maior dos jovens fiéis. Claro que este fenômeno não pode ser analisado somente do ponto de vista arquitetônico,  mas, como neste blog comento especificamente de Arquitetura Sagrada, devo apresentar apenas este aspecto.

A certeza que tinha de que o empobrecimento da arquitetura das Igrejas repercutia diretamente na quantidade de fiéis católicos, foi reforçada quando encontrei dois livros do arquiteto Michael S. Rose, doutor em Belas Artes da Brown University, nos Estados Unidos. Em suas publicações – “Ugly us sin” de 2009 e “In tiers of glory” de 2004, - Michael analisa o projeto de diversas Igrejas Católicas contemporâneas, confrontando o partido adotado pelo arquiteto autor do projeto com edificações antigas, cujos programas de necessidades estavam de acordo com a ritualística e a simbologia católica tradicional – ainda em uso na época da construção.

Os próximos edifícios religiosos a serem estudados neste blog serão Igrejas Católicas. Em se tratando de uma religião dominante no nosso país, e certo de que grande parte dos visitantes do blog tenham a possibilidade de vivenciar esta religião de perto, pularei explicações mais detalhadas da história do Cristianismo e me aprofundarei em análises das igrejas, tentando resgatar traços da geometria sagrada existente. Utilizarei alguns pontos identificados pelo arquiteto Michael S.Rose, confrontando-os com questões abordadas em  livros que falam sobre os novos rumos de ser católico no século XXI. Como se trata de um tema bastante presente no nosso dia-a-dia, ficarei muito feliz de receber comentários a respeito do projetos. Inicio este tema provocando a seguinte reflexão: Até que ponto os projetos destas igrejas nos emocionam?

Catedral Metropolitana de São Sebastião, RJ.
Projeto do arquiteto Edgar de Oliveira da Fonseca. 1979

Catedral de Nossa Senhora Aparecida, DF
Projeto do arquiteto Oscar Niemeyer, 1958.
Catedral Metropolitana de Nossa Senhora da Assunçao, SP.
Projeto do arquiteto Maximilian Emil Hehl, 1954

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Arquitetura Baha'i, a síntese de uma religião - Filmes

Por se tratar de uma religião viva, que luta pela Unidade em um terreno dominado por religiões fundamentalistas, grande parte da produção cinematográfica criada acaba sendo destruida antes mesmo da finalização. E as poucas que conseguem ser finalizadas, apresentam demasiadamente as dispustas politico-religiosas, dando pouca ênfase ao simbolismo e a Arquitetura Sagrada, pontos que são discutidos neste blog.

Sendo assim, após dias pesquisando referências no cinema, minha busca se deu por concluida ao encontrar na internet alguns filmes onde o tema principal é a Arquitetura Sagrada. Os três selecionados seguem abaixo. Embora sejam imagens brilhantes, ainda acredito que esta arquitetura tão significativa mereça trabalhos cinematográficos mais interessantes... Fica minha sugestão aos que atuam neste campo.





Contudo, espero que as imagens apresentadas sejam capazes de despertar a emoção que os arquitetos certamente buscaram ao projetarem. Bom fim de semana!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Os sítios sagrados Bahá'ís e sua relação com a urbe

“ A sabedoria que jaz no construir-se tais edifícios é que em dada hora o povo saberia que é tempo de reunir-se, e assim todos se congregariam, e com perfeita harmonia entre si devotar-se-iam à oração; como resultado de tal reunião a unidade e o afeto haverão de crescer e florescer no coração humano.”
1. Ensinamento Baha'i.

Os ensinamentos da religião atribuem que os principais templos Bahá'ís devem ser construídos em lugares de fácil acesso, dedicados ao desenvolvimento social, humanitário, educacional e científico. Embora ainda nenhum desses templos tenham sido construído nesta extensão, esta seria a premissa para a escolha do lugar de implantação da Casa de Adoração.
Os escritos da Fé Bahá'í, determinam que após a edificação dos templos sagrados deve seguir a  construção de um complexo de edificações ao redor  como hospitais, escolas, orfanatos, universidades,  que visam o benefício e o progresso humano. Os Bahá'ís afirmam que futuramente, as Casas de Adoração se tornarão o centro de todas as cidades.

Implantação do Templo Baha'i em Colina, Chile.
Importante observar a projeção de edificios que
visam a instalação de infra-estrutura para a
comunidade Baha'i.
As cidades devem ser estruturadas de modo a facilitar o transporte de mercadorias, permitindo um melhor fluxo econômico e o desenvolvimento socioeconômico urbano. Os ensinamentos associam o termo "doenças modernas"  ao stress provocado, em muitas, pela agitação de grandes centros urbanos. Esse aspecto do desenvolvimento desordenado das cidades, sufoca as relações humanas e as necessidades individuais dos seres humanos, tais como o contato com a natureza. A unidade mundial, como é o princípio da Fé Bahá'í, será dificilmente realizada se os aspectos da socialização objetivar primeiramente a aquisição de mercadorias, como de certo modo tem se tornado aparente os centros urbanos. Os templos Bahá'ís e os complexos que futuramente serão estabelecidos ao redor representarão um progresso orgânico e essencial do indivíduo e da sociedade. O valor evocativo é a de que todas as estruturas das cidades sejam edificadas visando a unidade da humanidade.
Implantação do Templo Baha'i em Colina, Chile.
Importante observar o projeto paisagístico do entorno.
As Casas de Adoração são abertas ao público, exclusivamente dedicadas à oração e meditação, sendo proibido qualquer tipo de culto ou sermão. É permitida somente a leitura de escrituras consideradas sagradas, prática esta estendida à pessoas de todas as religiões , que lá podem  recitar orações de seus livros sagrados, sejam estes de autoria de Krishna, Moisés, Zoroastro, Buda, Cristo, Maomé, Báb ou Bahá'u'lláh.
Atualmente existem 9  templos implantados – estando 2 em fase de construção – , que podem ser visualizados através de imagens de satélite, seguindo as coordenadas ou os links a seguir:

Templo Baha'i na Alemanha  -   50° 6' 47.24" N 8° 23' 48.07" E
Templo Baha'i na Austrália - 33° 41' 7.54" S 151° 15' 31.42" E
Templo Baha'i no Chile - 33° 0' 21.58" S 70° 39' 9.12" W 3D - em construção
Templo Baha'i nos Estados Unidos - 42° 4' 27.90" N 87° 41' 3.64" W
Templo Baha'i na Índia - 28° 33' 12.14" N 77° 15' 31.01" E
Templo Baha'i em Israel - 32° 48' 48.68" N 34° 59' 11.43" E 
Templo Baha'i no Panamá - 9° 3' 34.90" N 79° 31' 13.75" W
Templo Baha'i em Samoa - 13° 54' 9.37" S 171° 46' 34.45" W
Templo Baha'i na Uganda - 0° 21' 52.00" N 32° 35' 19.04" E
 Notas:
1.Ensinamento Baha'i. O Tabernáculo da Unidade

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Princípios religiosos da Fé Baha'i

“ Ó vós que habitais a terra! A religião de Deus visa o amor e união; não a torneis causa de inimizade e conflito... Nutrimos a esperança de que o povo de Bahá possa ser guiado pelas palavras abençoadas: "Vede! Todas as coisas são de Deus!" Esta excelsa afirmação é como água para extinguir o fogo do ódio e da inimizade latente dentro dos corações e peitos dos homens.. Ele, deveras, diz a verdade e mostra o caminho. Ele é o Todo-Poderoso, o Excelso, o Benévolo. “
1. Ensinamento Bahá'í
Os ensinamentos  Bahá'ís,  assim como o de outras religiões, definem que o propósito da vida é o crescimento espiritual. Este  processo é gradual, como em um embrião no ventre materno, continuando eternamente após a morte. O paraíso referido em muitas escrituras religiosas, é apontado na Fé Bahá'í como metafórico, já que o desenvolvimento é eterno, tratando-se para eles, apenas de uma definição necessária adotada pelos profetas anteriores para melhor compreensão dos povos da época.
Todos os ensinamentos Bahá'ís  giram ao redor de três alicerces principais: a unidade de Deus, unidade de Seus Profetas, unidade da humanidade.
Um só Deus, uma só Religião, um só Mundo - ensinamentos Baha'i.
 Um só Deus
Os Bahá'ís acreditam na existência de um único Deus, o criador de todas as coisas. A existência de Deus é considerada eterna, não tendo começo ou fim. Segundo os  ensinamentos Bahá'ís, Deus é inacessível e incognoscível, mas tem consciência de sua criação, tem uma vontade e propósito. Os ensinamentos Bahá'ís também declaram que Deus não pode ser compreendido pela mente humana. Eles  acreditam que Deus expressa sua vontade através de uma série de Mmensageiros Divinos referidos por "Manifestantes de Deus" ou "Profetas". Esses Manifestantes estabelecem as bases das grandes religiões mundiais, e os seus ensinamentos são uma forma de Deus educar a humanidade.  Nas escrituras Bahá'ís, Deus é frequentemente referido por títulos, como "Todo-Poderoso", "Onisciente", "Suprema Sabedoria", "Aquele que subsiste por si próprio".
Uma só Religião
 A despeito de constantes conflitos que há séculos envolvem as religiões na visão de inúmeros expositores, os Bahá'ís se apoiam nos próprios ensinamentos dessas religiões para enfatizar que todas as religiões, ao contrário, ensinam o amor e a unidade - sendo a intolerância e o fanatismo origem de tais conflitos.  É proibido o fanatismo na Fé Bahá'í, o que consistiria em se fechar a dogmas que muitas vezes podem ser mal-interpretados. À luz do princípio de que todas as religiões provém de Deus, os homens podem procurar compreender e desta forma eliminar os preconceitos religiosos.
A 'religião de Deus', ou 'religião una' descrita através da sucessiva revelação Divina a cada época, foi denominada Revelação Progressiva. De acordo com os bahá'ís, este conceito não é exclusivo da Fé Bahá'í, mas apresentada de diferentes maneiras em todas as religiões. Moisés fez a promessa ao povo de seu tempo sobre a vinda de um Messias, quando Cristo afirmou ser o Prometido, também advertiu a seu povo sobre a vinda de um Messias. Os escritos bahá'ís delineiam categoricamente as religiões que fazem parte da revelação de Deus. Sobre a mudança entre as Leis e Ensinamentos de cada Manifestante, Bahá'u'lláh diz:
“ Ó povo! As palavras são reveladas segundo a capacidade, de modo que os principiantes possam fazer progresso. O leite deve ser dado segunda a medida, a fim de que a criancinha deste mundo, possa entrar no Reino da Grandeza e estabelecer-se na Corte da Unidade. “ 2
Os bahá'ís desenvolvem a idéia de que cada época diferente exige necessidades diferentes. Assim como as leis de um país precisam evoluir conforme evolui sua sociedade, as Leis de Deus sempre evoluem através das religiões, conforme evolui a humanidade.
Um só Mundo
Os Bahá'ís acreditam que o ser humano possui uma "alma racional", na qual provê à espécie uma capacidade única de reconhecer a Deus e a relação da humanidade com seu criador. Todo ser humano é considerado possuidor do dever de reconhecer a Deus através de seus mensageiros e de seus ensinamentos. Através do reconhecimento e obediência, serviço à humanidade e práticas espirituais, os Bahá'ís acreditam que a alma pode se aproximar de Deus. Quando um ser humano morre, a alma continua existindo no mundo espiritual próximo ou distante de Deus, descreve a relação entre este mundo e o próximo, não sendo nenhum lugar físico, nem a sujeição a recompensas ou punições.
Os Escritos Bahá'ís enfatizam a igualdade essencial do ser humano e a abolição de todos os tipos de preconceito. A humanidade é considerada essencialmente uma, embora diversificada; esta diversidade de raça e cultura é considerada merecedora de apreciação e tolerância. Doutrinas de racismo, nacionalismo, castas, e classes sociais são impedimentos artificiais da unidade. Os ensinamentos Bahá'ís declaram que a unificação da humanidade deve ser assunto principal sobre as condições religiosas e políticas no tempo presente.
Abaixo, a última parte da entrevista do arqutieto Luis Henrique, representante da Fé Bahá'í no 3° Encontro da Nova Consciência, de 1994.


Notas:

1. Esinamentos Baha'is, retirado do livro O Tabernáculo da Unidade.

2. Ensinamento Baha'i, retirado do livro "O segredo da Civilização Divina."

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Persépolis, livro e filme. França, 2007.

Capa do livro.
Persépolis narra de forma singela passagens autobiográficas da autora do livro em quadrinhos que deu origem a esta animação inteligente e brilhante, Marjane Satrapi. A adolescência de Satrapi desfila por cenários que testemunham a ditadura imposta pelo Xá no Irã e a posterior irrupção do regime fundamentalista dos ayatolás.

Em Teerã, capital iraniana, durante o ano de 1978, a criança Marjane, mergulhada em seus sonhos infantis, acalenta o desejo de se tornar uma profetisa quando crescer, pois assim terá poderes para salvar o Planeta. Ela tem diante de si o exemplo liberal de sua avó, marcante figura feminina que oferece à neta preciosas diretrizes morais e também um intenso senso de humor. Além disso, seus pais são modernos, adeptos da ideologia de esquerda e igualmente inteligentes.
Marjane vê se desenrolar diante de seus olhos a passagem de uma ditadura opressiva para um sistema regido por grupos islâmicos fanáticos, não menos cruéis que o antigo Xá. Eles determinam cada detalhe da vida dos iranianos, desde o comportamento até a forma de se trajar. A menina é então obrigada a usar um véu, o que lhe inspira a vontade de se converter em uma autêntica revolucionária.
Esta genial animação se vale de vários desenhos compostos em preto e branco, perpassados por densas faixas pretas, no interior das quais é possível encontrar diversas tonalidades em tons acinzentados. Mas o cuidado com o visual não pretende em momento algum ofuscar a beleza e a criatividade do que é narrado no centro dessa moldura formal. Certamente uma narrativa tradicional roubaria tanto do livro quanto do filme sua engenhosidade natural e a poética surpreendente que se encontra em ambos.
A animação desvela boa parte da história iraniana que se desenrola a partir do governo totalitário do Xá, retratando também o bombardeio de Teerã ao longo da guerra contra o Iraque, seguido por um incessante sumiço de pessoas. Este contexto desemboca em um sistema cada vez mais opressivo e cruel, no qual não faltam conflitos bélicos, torturas e crimes.
Diante desta preocupante situação, os pais de Marjane decidem enviá-la para Viena, capital austríaca, tentando assim impedir que algo terrível lhe aconteça. Aí a jovem experimenta outras tantas conturbações, mais relacionadas ao período da adolescência. Ela enfrenta questões como a liberdade, o amor, perpassados por boas doses de tristeza e melancolia, por se sentir distante de sua família, exilada de sua pátria. Marjane se sente inevitavelmente deslocada em seu novo refúgio.
A jovem se vê diante de um dilema crucial. Para conquistar o mínimo de liberdade necessária para qualquer ser humano, Marjane é obrigada a se manter em terra alheia. Se quiser voltar para seu país de origem, terá que abrir mão de tudo que pensa, sente e sonha.
O filme francês de animação estreou em 2007, escrito e dirigido por Satrapi e Vincent Paronnaud.  No Festival de Cannes de 2007, recebeu o prêmio do júri. Foi lançado na França e na Bélgica em 27 de junho do mesmo ano. No Brasil, foi lançado em 30 de outubro de 2007 no Festival Internacional de São Paulo e em 23 de fevereiro de 2008 no circuito comercial.

A animação do ponto de vista estético já seria uma boa dica para o fim de semana. No entanto, a sugestão para esta data está de acordo com a temática abordada nos tópicos desta semana, já que a história se passa no Irã, cidade importantíssima para a religião Baha’i, que estamos estudando. Vale a pena tentar entender o quão desafiador foi - e ainda é - apresentar conceitos religiosos mais abrangentes em um cenário fundamentalista tão severo.
A seguir, um trecho do filme Persépolis... Bom fim de semana!