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terça-feira, 17 de novembro de 2015

Arte, natureza e símbolo na Quinta da Regaleira.

“A Regaleira assume um caráter único no panorama mundial dos jardins, 
enunciando uma paisagem épica na recriação do Paraíso perdido – que 
o saber do seu proprietário sobre a biodiversidade, em particular a do 
Novo Mundo, permite evocar – inscrevendo-se de forma singular na 
tradição dos grandes jardins europeus, espaços de sagração da Natureza 
onde se revisita o pensamento clássico de Platão e de Aristóteles e 
onde ecoam, desde o Renascimento, as grandes intuições do hermetismo.”

1
Vista do Palácio a partir da ponte de entrada.
Foto: acervo particular
Pouco difundida nos guias turísticos, a Quinta da Regaleira na cidade de Sintra se insere no roteiro indispensável para quem visita a cidade de Lisboa em Portugal. Do ponto de vista arquitetônico, a casa onde viveu Antonio Augusto de Carvalho (1848-1920) já valeria a visita por se tratar de um exemplar com estética belíssima contudo, aos iniciados ou estudiosos de mística ou religiosidade, a visita se torna inesquecível. Isso porque, embora possua uma capela, não se trata de uma construção cujo programa de necessidades seja especificamente para rituais, mas uma residência onde o interesse místico se tornou uma obrigatoriedade no projeto arquitetônico.

Vista dos jardins tendo em destaque a torre sineira da capela.
Foto: acervo particular
 A cargo do arquiteto italiano Luigi Manini (1848-1936), o projeto que durou muitos anos  - 1904 a 1910 -, diluiu vários textos ou passagens com enfoque místico no paisagismo, na arquitetura e mesmo no mobiliário elaborados primorosamente para adornar as diversas salas ou ambientes espalhados por cerca de 4 hectares de terreno.
Detalhe das cordas decorando as janelas.

Detalhe dos animais míticos e folhagens em meio às cordas.

Detalhe da decoração interna do Palácio.
Até pela forma como foi implantada no terreno, o primeiro ponto a chamar a atenção de quem adentra a Quinta é o palácio. O projeto arquitetônico seguiu os cânones da geometria sagrada, estando estes aspectos traduzidos nas proporções, composição ou mesmo orientação rigorosa dos espaços. Contudo, nos salta aos olhos a mensagem simbólica utilizada na decoração da fachada composta de cordas – símbolo importante em várias teorias místicas como a da maçonaria –, gárgulas – figuras animalescas das construções góticas –, animais alados como morcegos, lagartos ou águias, pináculos decorados com dragões ou mesmo deuses pagãos inseridos em meio a folhagens como os deuses romanos camuflados em meio a fachada à maneira dos celtas. O interior não é diferente, porém a decoração segue de acordo com o uso de cada sala, intensificando ainda mais o caráter simbólico da atividade e do símbolo referido.

Praça de Baco.

Detalhe de ânfora com Baco e Baphomet.

Banco decorado em meio ao jardim.
Os jardins podem ser admirados apenas pela beleza estética, ou degustados de maneira mais rica pelos iniciados ou conhecedores de alquimia e mística. A orientação de diversos “templos” pode parecer confusa mas segue um rigoroso critério de implantação para que a posição geográfica de cada parada reforce ainda mais o caráter simbólico da edificação, caso da capela ou mesmo no poço iniciático, localizado na cota mais alta da Quinta. Os caminhos são todos adornados com deuses romanos, fontes com decoração temática, portais ou mirantes com bancos ricamente esculpidos, praças com posicionamento de bancos evidenciando a lenda ou o mito. Mesmo sendo o caminhar algo muito agradável, dois momentos são os mais fortes no paisagismo da Regaleira: a capela e o poço iniciático.

Interior da capela com destaque para o forro com geometrica gótica.

Forro do coro com decoração em cordas e símbolos maçônicos.

Vista da cripta da capela com piso xadrez preto e branco.
A capela tem o altar dedicado à Coroação da Virgem Maria, preservando também o tema mariano já na fachada tanto na torre sineira quanto no pórtico de entrada. Contudo salta aos olhos outros elementos que são mesclados a estes, alguns já visíveis na fachada do palácio e outros referentes à Ordem do Templo ou Ordem de Cristo, movimentos importantes na sociedade portuguesa no período dos Descobrimentos. Destes símbolos é notória a cruz grega tanto no alto da porta de entrada quanto no piso da capela, marca presente nas ilustrações de navegadores como Vasco da Gama. Embora a decoração exterior seja muito interessante, no interior duas surpresas saltam aos olhos: a primeira a figura de um triangulo com um olho humano no centro localizada no teto do coro, e a segunda o piso em xadrez preto e branco na cripta da capela, ambos muito comuns na simbologia maçônica. Embora não haja nenhuma referencia a estes dois temas, é de se suspeitar a participação do proprietário e do arquiteto nesta ordem haja visto que eram pessoas bastante influentes na sociedade da época. Além disso, pesquisas recentes elaboradas pela equipe responsável pela Quinta da Regaleira descobriu outros símbolos maçônicos em livros que faziam parte do acervo da biblioteca de Antonio Augusto de Carvalho.

Vista superior do poço, com piso ao fundo imitando rosa dos ventos.

Vista do alto de dentro do poço.

Detalhe dos nichos e arcos da escadaria.

A outra edificação que desperta curiosidade é o “Axis Mundi”, ou o poço iniciático. Localizado no ponto mais alto dos jardins, o poço foi construído como uma torre invertida para unir o céu e a terra. O poço dispõe de quatro acessos em níveis distintos, cada um direcionado a um ponto cardeal e conectado com outras edificações localizadas em pontos extremos do jardim. Os degraus somam 139 pisos, cuja soma 13 alude a números cabalísticos, e os 22 nichos existentes aos arcanos maiores do taro. O fundo tem a decoração da “rosa dos ventos” demarcando os pontos cardeais. A descida no poço resgata diversos textos místicos, estando por vezes ligada à Divina Comedia de Dante – por causa dos 10 patamares – ou mesmo outros livros que citam a viagem iniciática com o objetivo do conhecimento do homem e da Natureza.
Vista do complexo Quinta da Regaleira.
Foto: acervo particular.
Aos acéticos, conhecer a Quinta da Regaleira vale pela beleza arquitetônica e paisagística; aos iniciados, caminhar por estas edificações resgata o sentido dos estudos místicos e reforça a certeza de que quando a Arte, a Natureza e o Símbolo estão juntos, o resultado é muito próximo da perfeição do Cosmos!

 Serviço: a Quinta da Regaleira esta localizada na Estrada EN375, ou Estrada da Quinta da Regaleira, 2710-567, em Sintra, Portugal. O horário de atendimento ao publico é das
10h00 as 17h00. O email para contato é geral@cultursintra.pt.

Notas: 

1. Do livro Quinta da Regaleira, coleção Arte, Natureza e Simbolo, Volume 1.




terça-feira, 19 de agosto de 2014

A influencia das Ordens Secretas no projeto das Igrejas Católicas Medievais - Parte 2

“ O símbolo atua abrindo o consciente mais imediato e, 
ao mesmo tempo, fazendo imergir até a superfície da consciência, 
elementos inconscientes por associação e encadeamento espontâneo de emoções,
imagens, recordações e pulsações, concatenando assim uma reserva de significados.”

PERADEJORDI, Julio. A propósito del símbolo.   


      Um fato curioso sobre o projeto das catedrais medievais é que nenhuma das construções góticas possui autoria reconhecida e até hoje, o único tipo de identificação encontrada são marcas gravadas nas pedras.  Os mestres das primitivas confrarias de construtores costumavam reconhecer-se entre si por símbolos e sinais que traçavam nas paredes dos edifícios onde exerciam o seu ofício, nascendo assim as siglas lapidárias. Estas siglas, abundantes em várias igrejas, serviam tanto para identificar o seu autor (uma espécie de rúbrica pessoal) como a confraria a que pertencia, sendo um símbolo particular pertencente ao simbolismo de uma coletividade. Alguns autores afirmam que as siglas lapidárias tinham como única finalidade utilitária a identificação do trabalhador para efeito de pagamento do seu trabalho. Contudo a maioria desses sinais esculpidos são identificados como pertencentes à simbologia mística e esotérica, e portanto, sendo símbolos sagrados em um período onde a intensidade espiritual e religiosa dominava a sociedade, talvez não foram utilizados apenas como sinais de identificação pessoal para fins salarial e “ profanos”, já que se tratava de edifícios religiosos.  2

Detalhe da alvenaria com inscrições.
Igreja São Pedro de Chevron Villiers, Normandia - França
Fonte:  www.lusophia.wordpress.com

      É também muito compreensivo que estas siglas, representassem a confraria companheiril mais do que a pessoa em si mesma que assim deixava a sua marca em determinada obra do seu empenho, contudo  ao mesmo tempo  o teor da doutrina estudada pela mesma corporação através dessa linguagem  simbólica universal. Isso pode ser constatado também porque os signos usados dos canteiros não se resumiam em um só tipo e sim em quatro classes gerais, conforme apresentadas tanto nos monumentos como nos “ incunábulos”   3  . Podem sem configurados na ordem de importância a seguir : A) signos paleocristãos; B) signos mágico-cabalísticos; C) signos astrológicos; D) signos numéricos.  Por vezes, ao invés de uma só classe aparecem todas misturadas entre si.
  
Bafomé esculpido em igreja dos Templários.
Fonte: pt.fantasia.wikia.com
       Enquanto as inscrições nos tijolos são esquemas complexos e de difícil compreensão, os arquitetos não pouparam esforços para revelar todos os detalhes na estatuária das catedrais, principalmente as que dominavam os telhados destas edificações. Gárgulas e figuras antropomórficas aparecem em grande número nestes edifícios, num primeiro momento como parte da estabilidade do sistema estrutural gótico. Contudo inúmeros estudiosos aproveitaram estas figuras para destrinchar outras análises sobre estas peças, dotando as mesmas de muita simbologia mística, neste caso de fácil aceitação haja vista que não se pode criar outro tipo de entendimento senão o caráter religioso.

     Se as gárgulas já são assustadoras, uma outra figura mítica aparece com frequência em algumas fachadas,  muito temida no imaginário do período medieval: o Bafomé.  Destacado em muitas portas de igrejas, a figura metade homem e metade bode, por muito tempo foi confundida com o demônio revelado na doutrina cristã.  Mas seu sentido pode ser outro, “um símbolo templário, que expressa a necessidade humana de transcender seus instintos básicos, a fim de ascender espiritualmente e cumprir seu papel evolutivo. Ser parte de Deus, até se confundir com Ele, é o sentido da verdadeira humanização. E este era o ensinamento maior dos idealizadores do gótico, que criaram uma arquitetura viva. Suas catedrais estão tão perfeitamente integradas ao cosmo, que são praticamente forças da natureza”, como explica o teólogo  Victor Franco.  4



Homem verde, esculpido em igreja gótica.
Fonte: www.google.com

    Nas fachadas destas mesmas igrejas, o Bafomé às vezes se alterna com outra figura antropormófica chamada “Homem verde”, este já um símbolo mais estudado no  Renascimento, representando o ciclo de crescimento da natureza a cada primavera. Para esta figura, estudiosos acreditam que sua ligação seja mais com a Maçonaria e ao culto da Deusa da Fertilidade. 5

     No interior destas igrejas, outros elementos sugerem discussões com inclinação ao misticismo para alguns elementos que algumas vezes aparece sem justificativa nos dogmas do Cristianismo, ou sem uma clara necessidade arquitetônica. Olhando para o alto, algumas igrejas apresentam o Zodíaco na decoração do tambor da cúpula, relacionando as constelações  com representações personificadas por figuras ou animais – neste caso, fazendo conexão dos signos de Touro, Leão, Escorpião e Aquários  com os quatro  Evangelistas do Novo Testamento, respectivamente Marcos, Lucas, João e Mateus.  Em outros momentos, é o piso que nos chama a atenção, caso da Catedral francesa de Chartres.  Chamados de “Labirinto de Salomão”, eles costumam se localizar no ponto em que a nave e os transeptos se unem. Seu sentido alquímico é o mesmo do mito grego de Teseu, o herói que entra num labirinto a fim de combater o Minotauro e, após vencer o terrível monstro, consegue voltar, graças ao fio que Ariadne lhe dera. 6

Piso com labirinto. Catedral de Chartres, França.
Fonte: www.google.com.br
     Outro espetáculo que a arquitetura interna das catedrais góticas oferece é o “banho” de luz solar nas horas canônicas. A intenção era que durante as vésperas (hora canônica correspondente às 6 horas  e na hora mariana correspondente às 18 horas),  a luminosidade filtrada pelas “rosáceas” criasse a sensação de um incêndio, um suposto “ fogo iniciático”.  Essas rosáceas são vitrais circulares, obtidos por meio de uma geometria complexa que se repete ao longo da circunferência, à maneira das “mandalas”.  Para os místicos, elas  funcionavam como "um mapa" das tradições que precisavam ser transmitidas, e para isso se apropriavam de muitas cores – o arco-íris, símbolo da aliança de Deus com os homens no pós dilúvio  7  – e principalmente da forma do círculo – a “roda”, que na Alquimia,  simboliza o tempo necessário para o fogo agir sobre a matéria, a transmutação   8.  Há, ainda outra corrente de pensadores místicos que compara as rosáceas a flores, símbolos da pureza,  da castidade e do feminino,  qualidades valorizadas no período medieval, que, acima de tudo, cultuava a Virgem Maria.   9

Rosácea vista a partir da fachada.

Rosácea vista a partir do interior.
Fonte: www.google.com.br

       Esotéricos ou cristãos, o efeito plástico que todos estes elementos causam é indiscutível e, se a intenção de tais edificações foi de conectar ao Sagrado por intermédio da emoção, os autores conseguiram. Hoje na contemporaneidade, alguns elementos ainda são reproduzidos em lugares religiosos,  o que permite afirmar que atingiram o status de  atemporais e relevantes, mesmo na sociedade capitalista do século XXI. Em tempos de retorno do homem ao Sagrado, resgatar alguns destes itens é a certeza de conseguir arrebanhar um numero maior de adeptos, construindo para isso um discurso qualquer para formas já consagradas no inconsciente esotérico da humanidade.


 Notas:

1. Livre tradução do trecho: “El símbolo actúa abriendo el consciente más inmediato y, al mismo tiempo, 
haciendo emerger hasta la superfície de la conciencia elementos inconscientes por 
asociación y encadenamiento espontâneo de emociones, imágenes, recuerdos y pulsaciones, concatenado 
así uma reserva de significados.” PERADEJORDI, Julio. El Cuerpo Humano, Biblioteca de lós símbolos. Ediciones Obelisco.Barcelona, Espanha. 1991.

2. trecho retirado do link: 

3. Incunábulo é um livro impresso nos primeiros tempos da imprensa com tipos móveis. 
A popularização da imprensa começa a ser mais percebida em 1450, com Gutenberg. 
Refere-se às obras impressas entre 1455, data aproximada da publicação da Bíblia de Gutenberg, até 1500.1 . 
Essas obras imitavam os manuscritos. 
Assim, demorou-se 50 anos para que o livro impresso passasse a ter suas próprias características, 
abandonando, paulatinamente, as características do livro manuscrito. 
A sua origem vem da expressão latina in cuna (no berço), referindo-se assim ao berço da tipografia. 

4. In  A fé cristã em confronto com o humanismo ateu: a perspectiva de Henri de Lubac.
GOMES, Victor Franco. Editora: Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, Lisboa. 2006.


6. Filosoficamente, o labirinto são os inúmeros caminhos que o homem tem à sua disposição. 
Cedo ou tarde, ele entrará em contato com seu monstro interior, sua falta de luz. 
Aquele que consegue combater e vencer as próprias imperfeições – o  Minotauro – pode voltar à vida. 
Mas só os que possuem o fio de Ariadne – símbolo do conhecimento iniciático –  é que conseguem efetivamente retornar à Luz. http://pt.slideshare.net/Daneto/simbologia-manica-nas-igrejas-10721069

7. Ver livro de Genesis, capitulo 9. Biblia, Antigo Testamento.

8. ROOB, Alexander. Alquimia y Mistica, el museo hermético. Taschen. China, 1997

9.  Evocada como intermediadora entre o terreno e o divino, eleita advogada da humanidade, 
a Virgem Maria inspirou, entre 1170 e 1270, a construção de nada menos que 80 catedrais e 
500 igrejas em sua homenagem, só na França. A maioria das igrejas em honra da 
Virgem foram erguidas em lugares antes dedicados a alguma deusas pagãs, curiosamente, a uma Madona negra, cujos atributos estavam associados à sexualidade, à procriação e à fertilidade. 
Outras ainda eram deusas associadas à Lua ou ao planeta Vênus.
 Em outras palavras, eram herdeiras da antiga crença em uma Deusa-Criadora, predominante nas concepções religiosas mais arcaicas e retornada com força pelas Ordens secretas da Idade Média, 
algo como  a “Virgini Paritures” ou “Nossa Senhora dos Subterrâneos”, 
divindade cujo poder encontrava-se na morte e renascimento, muito cultuada pelos Templários.
 FULCANELLI. O Mistério das Catedrais. Editora Madras, São Paulo. 2007

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

A influência das Ordens Secretas nas Igrejas Católicas Medievais - Parte 1

“A Ciência, única capaz de penetrar o mistério das coisas, 
o dos seres e de seu destino, 
pode dar ao homem asas para que se eleve ao conhecimento 
das mais altas verdades e chegue até Deus”.

Fulcanelli, escritor e alquimista do século XX  1.


      Além da influencia no plano urbano de algumas cidades, as Ordens Secretas conseguiram também inserir alguns símbolos – ou apenas criar especulações a respeito deles – em inúmeras igrejas católicas edificadas durante os anos de 1.200 a 1.500 a.C. Momento importante na história da disseminação do Catolicismo, boa parte das Ordens Secretas atuava de forma intensa nos canteiros de obras dessas construções e muitas vezes, sem a sua participação,  alguns avanços tecnológicos não seriam possíveis e a verticalização destes templos seria algo inviável.

     Do ponto de vista especulativo,  boa parte da estrutura principal destas complexas edificações certamente não foram usadas por uma simbologia anterior mas, a necessidade de se apropriar destes elementos fez com que surgissem lendas ou alusões de carga simbólica a estes elementos.  Acredita-se que abóbadas, arcos ogivais, arcobotantes e contrafortes já tinham sido experimentados em construções Românicas, mas a importância que estes elementos tiveram nas catedrais góticas fez criou inúmeros mitos a respeito de seu uso aliado aos estudos místicos de Ordens Secretas. A verticalidade destes templos sim tem sua conexão com princípios místicos, mas esta tipologia tão particular não teve sua repercussão no simbolismo dos Rosa-cruzes ou da Maçonaria, cuja arquitetura simbólica foi resgatada ou na Antiguidade Clássica.   2

Rosácea de catedral gótica.
Fonte: www.google.com.br

         Mesmo assim, ainda existem itens decorativos que possuem total conexão com as Ordens Secretas e, cuja elaboração não se justificava pela tecnologia como no casos dos elementos destacados acima. A luz do Sol não necessariamente precisaria adentrar a Igreja em datas específicas demonstrando o conhecimento dos arquitetos com os princípios de astrologia ou mesmo a preocupação com a mística astronômica;  os tijolos da alvenaria de fechamento das igrejas não precisava ser demarcado com linhas geométricas haja visto que seu papel era apenas a vedação;  a estatuária poderia aludir apenas aos santos católicos sem a necessidade de figuras antropomórficas em pináculos ou nas fachadas; os “ labirintos” desenhados nos transeptos poderiam ser substituídos por desenhos com linhas ortogonais já que a planta baixa das catedrais tinha a base quadrada e não circular; e por fim as “rosáceas” poderiam ser simplificadas em óculos  envidraçados.   3

        A planta baixa da maioria das Igrejas deste período baseia-se na cruz latina, com algumas divergências de acordo com a necessidade de naves laterais, o que acaba algumas vezes diluindo o desenho inicial. Do ponto de vista dos teóricos de arquitetura, a planta surge da evolução da planta basilical romana com algumas intervenções para a estabilidade do conjunto. Contudo, para alguns místicos a estrutura das catedrais góticas não parece resultado de “meros cálculos arquitetônicos”. De acordo com Fulcanelli, a cruz latina estendida no solo  é o símbolo do crisol, o ponto em que uma determinada matéria perde suas características iniciais para se transmutar em outra completamente diferente. Simbolicamente, a igreja teria então o objetivo “iniciático” de fazer com que o homem comum, ao penetrar nos seus mistérios, renascesse para uma nova forma de existência, mais espiritualizada.   4

Elevação e planta baixa com cruz latina - Catedral de Chartres.
Fonte: www.google.com.br

        Outro fator intrigante é a relação do Sol com a implantação destas catedrais, proporcionando um efeito muito interessante em dias de santos ou nos solstícios. Sabe-se que a linha mestra utilizada na locação destes edifícios era obtida pelo método da Vesica Piscis, contudo o conhecimento destes princípios certamente tem sua origem nas Ordens Iniciáticas ou mesmo na sabedoria adquirida pelos cavaleiros Templários.    5.  Sobre a luz solar que brinda os altares nos solstícios, os místicos acreditam que haja toda uma relação das datas religiosas com algumas datas já consagradas em calendários pagãos, de forma que a Igreja se apropriou da força simbólica destes dias para seu benefício.  6


(continua)

1. FULCANELLI. O Mistério das Catedrais. Editora Madras, São Paulo. 2007

2. Para os rosacruzes, os estudos iniciáticos tiveram sua origem nas Escolas de Mistérios do Egito, sendo a arquitetura deste período a mais resgatada para a construção das lojas. Já a Maçonaria, embora originada nos canteiros de obras das Igrejas Medievais, utiliza com carga simbólica as colunas das ordens gregas clássicas, bem como alguns detalhes decorativos existente nas residências ou palácios da antiguidade Greco-romana,
 caso do piso em xadrez preto e branco, por exemplo.

3. Óculo: designa um elemento de arquitetura, sendo uma abertura na fachada ou no interior que pode ser redonda ou de outras formas, localizada geralmente acima de uma abertura principal ou inclusa em frontões e frontispícios. Fonte: www.wikipedia.com.br. Embora teve seu uso mais marcante na arquitetura do Barroco, 
seu primeiro uso se deu no Panteão de Roma.

4. O autor - que também escreveu o livro “As Moradas dos Filósofos” - revela o significado oculto das imagens expostas nas catedrais góticas, como um tradutor da secreta “língua das pedras”. Segundo suas palavras, a catedral inteira não é mais que uma glorificação muda, mas gráfica  da antiga ciência de Hermes. Além da tipologia, o próprio termo “gótico” que designa as catedrais citadas, segundo Fulcanelli, seria uma deformação fonética de Argoth (ou Art Goth), uma linguagem restrita utilizada somente por Iniciados em Ocultismo. A arte gótica é, com efeito, a art got ou cot, a arte da Luz ou do Espírito. Ressalta que as catedrais não devem ser vistas unicamente como obras dedicadas à glória do Cristianismo, mas como uma vasta concreção de idéias, tendências e fé popular que motivou sua construção. Sobre o autor,  pouco se pode afirmar sobre Fulcanelli. Sua real identidade é cercada de mistérios; , sabe-se apenas que foi grande conhecedor de arquitetura, escultura, simbolismo, literatura clássica, arquivos e alquimia. FULCANELLI. O Mistério das Catedrais. Editora Madras, São Paulo. 2007.


6.  A 25 de Dezembro ocorre o solstício de inverno (no hemisfério norte) ou de verão (no hemisfério sul).  No 22º dia de Dezembro,  3 dias antes do ápice, o Sol se encontra nas redondezas da Constelação de Cruzeiro do Sul, Constelação de Crux ou Alpha Crucis. Depois deste período a 25 de Dezembro, o Sol move-se, criando a perspectiva de dias mais intensos. E assim se diz: que o Sol morreu na Cruz, (constelação de Crux), esteve morto por 3 dias, apenas para ressuscitar ou nascer uma vez mais. Esta é a razão, segundo os alquimistas, pela qual Jesus e muitos outros deuses do Sol partilham a ideia da crucificação, morte de 3 dias e o conceito da ressurreição. 

terça-feira, 12 de agosto de 2014

A influência das ordens secretas no plano urbano da cidade de Paraty.

“ A relação entre a Maçonaria e a sociedade em geral sempre foi dúbia. 
Por um lado, as boas obras e as significativas contribuições dos maçons foram largamente aplaudidas; 
por outro, o segredo que envolve a Ordem foi objeto de incompreensão, suspeita e temor.”
W. Kirk MacNulty  1


         Atualmente, a Maçonaria se justifica por sua vocação filantrópica fundamentada em princípios  filosóficos - 2.  Apesar de não possuir definição político ou religiosa, historicamente a Ordem sempre se manifestou no campo ideológico, o que ocasionava certa alternância em aliados do poder ou inimigos destes. Perseguidos na Europa começaram a chegar ao Brasil no século XVIII, durante o ciclo do ouro, muitos se estabelecendo na cidade de Paraty, que na época era o ponto intermediário entre a capital e as minas.

Vista de rua em Paraty - RJ. Decoração simbólica nas fachadas.
Fonte: www.google.com.br

         O Porto Principal de Paraty , atual Cais,   foi construído em 1722, mesmo período emq eu a Vila recebeu uma trincheira para protegê-la , hoje a Praça da Bandeira.  Todas essas obras foram realizadas devido ao aumento no fluxo comercial ocasionado pelo escoamento do ouro, gerando uma melhora na economia na cidade,  permitindo o empenho para novas construções e benfeitorias não só relativas à segurança, mas também relacionadas ao transporte. Com relação ás edificações residenciais  a  Vila de Paraty tornava-se promissora,  ostentando 400 casas construídas com paredes de pedra e cal ou na técnica de pau-a-pique, sendo que dentre todas essas casas, 40 eram grandes sobrados. As casas comerciais somavam um total de 60 estabelecimentos que comercializavam principalmente aguardente, secos e molhados, e outras mercadorias trazidas de Minas Gerais, região de São Paulo e até mesmo da Europa. Todo esse fluxo comercial justificou o título de segundo porto da Colônia Portuguesa, no ano de 1750.  3

Mapa do centro histórico de Paraty - RJ.
Fonte: www.google.com

         Com o progresso econômico a Maçonaria buscou demarcar a Vila de Paraty com sinais característicos de sua simbologia tendo em vista fazer-se reconhecer frente aos outros afiliados vindo de todos os lugares – 4 – e a  influência da ordem pode ser notada em vários detalhes da arquitetura da cidade até hoje.  Nessa época, a cidade já possuia um “arruador”    5,  que chamava-se Antônio Fernandes da Silva.  Embora o mesmo justificou esse traçado para evitar o vento encanado nas casas e distribuir equitativamente o sol nas residências, tal desenho contribuiu para a criação de três cunhais de pedra nas casas das esquinas,  formando um triângulo imaginário que, decorados com figuras geometrias e intrincados esquemas compositivos que geram desenhos complexos, contribuiu de forma positiva para “marcar” a presença dos maçons da cidade.  6.   Outra contribuição do arruador foi o plano urbano do centro de Paraty  construído com 33 quarteirões. Mesmo as plantas das casas foram feitas na escala 1:33.   7

           Sobre a decoração das fachadas das casas, especula-se que a cor azul-hortência presente nas janelas e portas tenha alguma relação com a Ordem Maçônica , a exemplo da cidade portuguesa de  Óbidos,  cuja ordem também teve importante influencia.  Outra questão apresentada como especulativa é o fato do primeiro padroeiro da cidade ser São Tiago de Compostela, santo cuja história se aproxima da mística da ordem.   8

Decoração dos "cunhais" das casas de Paraty.
Fonte: www.google.com.br

           Em uma cidade com arquitetura tão interessante como Paraty, a beleza da decoração arquitetônica facilita que o espectador se perca tentando decifrar estes intrincados códigos. Além disso, as lacunas dos documentos históricos impedem uma definição sobre os interesses que existiam ao se planejar esta vila tão importante do ponto de vista econômico e político no século XVIII. Independente de qualquer documento, podemos ainda barrar no sigilo da Maçonaria, ordem que prima pelo segredo. O labirinto é enorme, e este artigo assim como outros escritos sobre a cidade ou sobre a Maçonaria quer apenas revelar a importância e Paraty ou mesmo da ordem, eliminando qualquer preconceito no intuito de valorizar o trabalho dos “irmãos pedreiros” e sua parcela de importância no progresso da humanidade.

           “A Maçonaria oculta os seus segredos de todos, à exceção dos seus seguidores e sábios, ou os Eleitos, e utiliza falsas explicações e falsas interpretações dos seus símbolos para induzir a erro aqueles que merecem ser induzidos em erro; para ocultar a Verdade destes e para a manter afastada dos mesmos.”  General Albert Pike.


1 – MACNULTY, W. Kirk. A Maçonaria: símbolos, segredos , significado. 
Editora Martins Fontes, São Paulo, 2012. P 216.

2 - Até o final dos anos de 1600 os maçons ditos “operativos” tiravam seu sustento da arte de construir. 
Depois desta data as características do ofício começaram a mudar e até a metade do século XVIII 
as Lojas perderam o interesse pelo comércio e passaram a exercer atividades 
de cunho social e beneficente, abrindo espaço para cavalheiros e negociantes sem nenhum contato 
com a “Arte de Construir” – antigo ofício de pedreiro –, que consolidaram os ensinamentos e princípios especulativos da Maçonaria Moderna. 
CARR, Harry. O Ofício do Maçom. Editora Madras. São Paulo, 2007


4 – Em 1833 fundaram na cidade a Loja Maçônica “União e Beleza”
 (na esquina da rua do Comércio com a rua da Cadeia), certamente os mais responsáveis pela
 influencia da ordem na  arquitetura da cidade. 
Um dos fundadores desta loja maçônica foi o vereador José Campos do Amaral, 
que convenceu a Câmara a formular neste ano  o código de postura e obras de Paraty, 
obedecendo alguns critérios maçons. Graças a esse código e ao isolamento geográfico ocorrido entre 1870 e 1950 a cidade manteve preservadas suas características arquitetônicas.
 Quando do fechamento da Loja União e Beleza alguns móveis com símbolos maçons foram doados à Câmara dos Vereadores, onde se encontram até hoje.

5 – No período colonial o arruador era  a pessoa encarregada de
 organizar as construções das ruas, das casas, das praças planejando o traçado das cidades.

6 – Diferente do que acontecia na Europa em que os símbolos maçons tinham que ser discreto 
por causa das frequentes perseguições, o mesmo não acontecia em Paraty onde os 
sobrados cujos proprietários eram maçons possuíam faixas repletas de desenhos geométricos de linguagem Maçônica, preservados até hoje no centro histórico da cidade. 
Em alguns casos, através dessa simbologia, o iniciado poderia até saber o grau do maçom de cada residência.

7 –  O 33 é um número de elevada importância para a Maçonaria que, segundo a interpretação ortodoxa da Bíblia, 
seria a duração em anos da vida de Cristo. 
Derivando desse número, o triângulo isósceles é o símbolo maçom por excelência, presente em toda a representação da ordem seja na decoração de seus edifícios ou mesmo em publicações de seu editorial.


8 – Tais informações não foram encontradas em livros acadêmicos. 

quarta-feira, 7 de março de 2012

Igrejas Católicas atuais: Sagradas ou Profanas?

Sagrado ou profano? Beleza ou feiúra? Abaixo uma seleção com fotos dos mais diversos projetos realizados para igrejas católicas em todo o mundo. Confira!











Em todas as religiões, a arquitetura é item de suma importância. Diferente do que acontece atualmente no Catolicismo, o papa se apropriou da arquitetura inclusive a fim de propagar a religião quando esta precisava se fazer presente no cenário histórico, econômico e social. Embora seja uma das religiões com mais números de adeptos no mundo, o que se constrói hoje como sagrado está muito longe do propósito religioso. Acredito que devemos seguir utilizando sistemas construtivos modernos, mas os símbolos que determinam o sagrado são os mesmos usados desde a antiguidade. Um arquiteto que conhece o homem e o Universo certamente saberá fazer uso das regras tradicionais de forma pioneira... A lição dos mestres está aí para ser seguida.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O Código da Vinci, livro (2003) e filme (2006)

Capa da edição original, em inglês.

"The Da Vinci Code" ("O Código Da Vinci" nas edições brasileiras e portuguesas) é um romance policial do escritor norte-americano Dan Brown, publicado em 2003, causou polêmica no mundo católico ao questionar a divindade de Jesus Cristo. A maior parte do livro desenrola-se a partir do assassinato de Jacques Saunière, curador do museu do Louvre, que antes de morrer deixa várias pistas relacionadas a segredos místicos nunca antes revelados. Robert Langdon, Sophie Neveu e Leigh Teabing vivem várias aventuras ao tentar desvendar códigos que dêem resposta aos enigmas que Jacques Saunière deixou no leito de morte.
A trama do livro envolve desde grandes organizações católicas como o Opus Dei, até a sociedade secreta conhecida como Priorado de Sião, que, de acordo com documentos encontrados na Biblioteca Nacional de Paris, possuía inúmeros membros famosos como Sir Isaac Newton, Botticelli, Victor Hugo e Leonardo da Vinci. Os cenários onde as pistas se escondem estão em sua maioria em edificações centenárias de uso restrito da religião católica, aspecto este que vai muito de encontro com a temática abordada neste blog.

Polêmicas a parte, o livro e o filme surgem como excelentes aulas de Geometria e Arquitetura Sagrada. Vale a pena ter um dos exemplares em sua coleção particular.

Abaixo, um trecho do filme. Bom divertimento!

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

A arquitetura religiosa no Humanismo.

            "... a grande transição do espírito europeu do Reino de Deus para a Natureza, das coisas eternas para o ambiente imediato, dos tremendos mistérios escatológicos para os segredos mais inofensivos do mundo criado. (...) A vida orgânica, que depois do fim da Antiguidade havia perdido todo o valor e significado, mais uma vez se torna honrada, e as coisas individuais da realidade sensível são doravante erguidas como sujeitos de uma arte que já não requer justificações sobrenaturais. Não há melhor ilustração desse desenvolvimento do que as palavras de São Tomás de Aquino, 'Deus rejubila em todas as coisas, em cada qual de acordo com sua essência'. Elas são o epítome cabal da justificação teológica do naturalismo. Todas as coisas, por mais pequenas e efêmeras que possam ser, têm uma relação imediata com Deus; tudo expressa a divina natureza de sua própria maneira e assim ganha valor e significado também para a arte". 1

         
             A linha de pensamento dos humanistas objetivava a elaboração de modelos simbólicos do universo cósmico. O princípio de unidade é levado à geometria, e as plantas dos edifícios religiosos quase sempre se apresentavam como poligonais centralizadas. A questão da centralidade nas artes ficou clara na obra De re aedificatoria, livro composto de 10 volumes, escrito pelo arquiteto Leon Battista Alberti a partir do ano de 1443. O círculo, afirma ele, é a forma primária que acima de todas as outras é favorecida pela natureza começando pela própria forma do mundo. 2  Seus projetos tinham como repertório os poucos intactos edifícios redondos da Antigüidade Romana, já que a maioria seguia a forma retangular. Porém seus estudos tinham origem também na obra de Vitrúvio, que no apêndice do seu Quarto Livro já destacava o círculo como uma das formas possíveis para os edifícios religiosos.  3  Além do círculo ficaram estabelecidas outras oito figuras geométricas para as construções religiosas; dentre elas o quadrado e os retângulos provenientes do quadrado e meio, quadrado mais um terço e quadrado duplo.
            O resgate da obra de Vitrúvio fez com que a geometria renascentista fosse clara (diferente das igrejas góticas, onde as formas só poderiam ser compreendidas pelos iniciados), e cada uma das partes do edifício estivesse intimamente ligada ao todo, por analogia, conforme os membros do corpo humano como no tratado de Vitrúvio. O mesmo arquiteto romano foi importante quando o resgate da figura do Homem Vitruviano sintetizou o conflito do círculo com o quadrado na modulação de várias construções da época, revelando o embate filosófico relacionado entre o Céu e a Terra, entre o Cósmico e  Humano, embate esse proporcionado pela nova forma de ver o homem no mundo – “Deus também criou o homem à sua própria imagem: pois como o mundo é a imagem de Deus, também o homem é a imagem do mundo.” 4
Tempietto de S. pedro, Bramante.
fonte: vam.ac.uk
            O Tempietto de São Pedro, de Donato Bramante, finaliza o uso do círculo como símbolo religioso durante o período Clássico. Construído em Montoro no ano de 1502 no local histórico do martírio de São Pedro, o edifício com planta circular teve seu destaque semelhante ao Panteão de Roma (no que diz respeito à utilização como repertório para arquitetos posteriores – Palladio, por exemplo),  porém suas dimensões são menores, por se tratar de uma construção dentro de um claustro. O interesse no estudo dessa construção se deve à harmonia perfeita alcançada por intermédio de um profundo conhecimento das soluções formais utilizadas, harmonia essa também alcançada nos antigos edifícios de mesma planta circular.
            Mesmo com simbolismo tão rico, as igrejas de planta circular foram construídas em curto período, já que a Igreja Católica não desistira facilmente de suas tradições. Com a influência desta igreja, a planta dos espaços sagrados voltou a ser a cruz latina, manifestação máxima do amor de Cristo pelo homem; porém o cubo permaneceu presente. Apenas no período Barroco, com a introdução das linhas orgânicas é que entra em declínio o uso do quadrado nas construções clássicas destinadas ao Sagrado. Auxiliado pela filosofia do século XVIII, o homem ocidental  modifica o sentido do Sagrado em sua vida, o que repercute diretamente na geometria e arquitetura, passando o círculo a ser utilizado sem intenções simbólicas, apenas plásticas.

Notas:

1.  HAUSER, Arnold. The Social History of Art. Routledge, 1999. Volume 1, pp. 210-215
2. BIERMANN, Verônica. Teoria da arquitectura: do Renascimento aos nossos dias. Lisboa- Portugal.
Taschen Editora. 2005.  p. 22 e passim.

3. PENNICK, Nigel. Geometria Sagrada. SP.Editora Pensamento. 1980. p.107.

4. ROOB, Alexander. Alquimia & Mística, el museo hermético – Madrid, Espanha: Taschen, 2005. p. 534 apud  Cornelius Agrippa, Filosofia Oculta, 1533.