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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O côvado e sua importância na geometria sagrada.

“Por fim Deus disse: Façamos o Homem à nossa imagem, como nossa semelhança.”
Gênese 1, 26.

“O homem é o modelo do mundo”
Leonardo da Vinci, manuscrito A, 55v.
 Como   explicado,  na  Antigüidade,  o  quadrado   (por   se   tratar   de   uma   figura  com quatro ângulos retos) era desenhado com o auxílio da “corda dos  druidas”.  A  corda  dos druidas era uma corda com treze nós, ou doze intervalos iguais, em  que  se  podia  estabelecer um ângulo reto a partir de um triângulo retângulo, conforme o  teorema  de  Pitágoras  (3,  4  e hipotenusa 5). Os intervalos entre os nós da corda  eram obtidos  a  partir  do  côvado,  medida baseada no comprimento do antebraço do homem – entre a ponta do dedo médio e o  cotovelo. 
 Não se sabe o momento nem o motivo que deu origem ao estabelecimento dessa medida (especula-se que foi determinada pela prática dos povos para vender tecidos) 1,  mas sua presença está marcada  em  inúmeros edifícios  religiosos  da  Antigüidade, bem  como em passagens de livros sagrados como a Bíblia, a Torá e o Alcorão.

             A unidade de uso diário do côvado no Egito era equivalente a 44,9 centímetros de comprimento. Como a maioria dos côvados no  Oriente  Médio,  ele  era  subdividido  em  seis palmos de comprimento, cada um medindo 7,5 centímetros. Anos mais tarde, os gregos instituíram uma medida chamada “pé”, que equivalia a 30 centímetros e conforme os textos clássicos era subdividido em quatro palmos. A convenção normal era que 1,5 pé equivalia a um côvado e, por isso, suspeita-se que o pé grego baseava-se no côvado curto  egípcio,  pois 1,5 pé é igual a 45 centímetros. 2
            Conforme os textos sagrados, o côvado utilizado para as edificações com caráter religioso tinha uma medida especial: “Eis as dimensões do altar, calculadas em côvado, constituídos de um côvado comum mais um palmo: a cercadura tinha um côvado de altura e  um côvado de largura.”   3 . Como um côvado equivalia a 44,9 centímetros, para o côvado sagrado ficou estabelecida a dimensão de 52,4 centímetros. Esta foi a medida utilizada no Tabernáculo, no Templo de Salomão, na Grande Pirâmide e em outros edifícios da Antigüidade, todos projetados com planta ou modulação de base quadrada. Posteriormente os Templários e Maçons resgataram essa medida utilizando-a em algumas igrejas da Idade Média, bem como a figura do quadrado, estabelecida nos textos sagrados.
 A relação entre o quadrado e o côvado está fundamentada no corpo humano. O corpo humano possui como medida 4 côvados na altura, por 4 côvados na largura. O esquema conhecido como Homem Vitruviano (estabelecido primeiro por Vitrúvio no século I ), ficou famoso com Leonardo da Vinci, que evidenciou as figuras do quadrado e do triângulo. A divisão de 4 côvados na altura se estabeleceu da seguinte forma: o primeiro côvado do pé ao joelho, o segundo côvado do joelho ao órgão genital, o terceiro côvado do órgão genital ao mamilo, e o quarto côvado do mamilo ao topo da cabeça. Na largura, dois côvados estão presentes nas pontas dos dedos médios até os cotovelos de cada braço, o terceiro côvado na largura dos ombros, e o quarto côvado pela somatória dos cotovelos até o ombro em cada um dos braços.
Homem vitruviano de Leonardo da Vinci.
Fonte: portaldascuriosidades.com
Quatro são os lados do quadrado, quatro são os côvados na altura do homem; altura igual a largura forma o quadrado, símbolo do material e da Terra. Esta analogia entre o homem e o quadrado determinou seu uso sempre que se pretendia apontar o conflito entre o físico e o etéreo, o céu e a terra, o sagrado e o profano.
 Fontes:
1. in Deuses, túmulos e sábios, C.W. Ceram.
2. in Thoth, o arquiteto do mundo: mapas neolíticos da terra, Ralph Ellis, c. IV e passim.
3. in Bíblia, Ezequiel, capítulo 43, versículo 13.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A arquitetura como representação da montanha sagrada - Parte I

“Moisés fez sair o povo para fora do acampamento, ao encontro de Deus, e eles se
                                               detiveram ao sopé da montanha. Ora, toda a montanha de Sinai fumegava, porque
                                               Javé tinha descido sobre ela no meio do fogo. (...) Javé desceu sobre a 
                                           montanha.  Javé chamou Moisés ao cume da montanha e Moisés subiu.”

                                               Bíblia, Êxodo 19, 17-18, 20.

           A busca por um contato íntimo com o Deus fez com que o homem classificasse alguns espaços naturais como sagrados. A montanha, por elevar-se para o céu era,  e ainda muitas vezes permanece sendo, uma mediadora entre o terreno e o divino, ligando os reinos da existência universal. Quando ela não era a própria morada dos deuses, poderia ser o lugar onde a divindade se manifestava, como a montanha nas Escrituras cristãs e judaicas. A montanha tinha que ser escalada, e a ascensão física correspondia à ascensão espiritual ou mística do homem. Por sua vez, a ascensão mística levava a união com o Cósmico, sendo o cume da montanha associado à iluminação. 
            A característica de estabilidade da base da montanha foi representada pelo uso da figura do quadrado, em edifícios que se erguiam do solo como representações artificiais de montanhas. Na categoria destes edifícios se encontram as pirâmides e os zigurates, todos edifícios de base quadrada.
Mastaba em Sakkara.
Fonte: reocities.com
            O volume do tetraedro repetiu-se ao longo da historia, inicialmente como um empilhamento de plataformas, comparável a escadarias em direção ao céu. As mastabas (3000 – 2650 a.C.), túmulos baixos de tijolos e pequenas pedras, podem ser considerados os primeiros “degraus” na evolução das pirâmides. Na seqüência, as mastabas foram sendo sobre-apoiadas, até configurarem a pirâmide escalonada de Djozer (cerca de 2500 a.C.), em Sakkara no Egito. Por ordem do faraó Djozer, o arquiteto Imhotep a construiu exclusivamente para cerimônias ritualísticas, sendo a estrutura de pedra mais antiga que sobreviveu ao tempo. Após a pirâmide de Djozer, deu-se a construção de inúmeras pirâmides egípcias (dentre elas a pirâmide vermelha e a pirâmide inclinada), todas orientadas rigorosamente em função dos pontos cardeais, a fim de criar a relação do edifício com o Divino através da incidência dos raios solares. O ápice destas edificações se deu com as três grandes pirâmides na esplanada de Gizé, Egito, cada uma nomeada com o nome de um personagem importante (todos da IV Dinastia) da época de construção do edifício: Kafre ou Quéfren, Menkaura ou Miquerinos, e Khufu ou Quéops, que é a maior de todas elas. 
As tres pirâmides.
Fonte: itm-rpg.forumeiros.com

           As três pirâmides serviram como um divisor de águas para a arquitetura egípcia, porque exigiram um grande esforço da civilização na sua construção. Após esse período – fim da IV Dinastia – entrou em declínio a arquitetura escalonada egípcia, em conseqüência ao grande custo da obra. Porém, na mesma época em que foram edificadas, aproximadamente outras 95 pirâmides em menor escala foram construídas ao longo do rio Nilo. 1
            Muito parecido com as pirâmides escalonadas egípcias, os zigurates da Mesopotâmia também eram edifícios destinados a atividades religiosas. Com a base na maioria das vezes retangular, estes edifícios se dividiam em vários pavimentos (o de Ur, datado de 2113 – 2096 a.C., tem sete),  interligados por escadarias externas, sendo o local para as cerimônias localizado na parte mais alta da construção. A torre de Babel  (1792 – 1750 a.C.) também se configurava como um zigurate, porém de base quadrada (aprox. 90 X 90 metros e 8 pavimentos). O material empregado para sua construção era o mesmo utilizado nos zigurates – alvenaria de tijolos secados ao sol – o que, de certa forma, impossibilitou a preservação deste edifício, constantemente atacado nas conquistas da Babilônia.
Zigurate.
Fonte: horahistoria.blogspot.com
Fontes:

1. ELLIS, Ralph. Thoth, o arquiteto do Universo:  mapas neolíticos da Terra./ tradução de Flávio Lubisco
Rio de Janeiro: Madras Editora Ltda, 2006. c.I.
  2. CERAM, C. W.. Deuses, túmulos e sábios. – São Paulo: Editora Melhoramentos, 21ª Edição, 2005.


quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

O círculo.

“... e assim animou o mundo, ser vivo único que contém em
 si todos os seres à Sua semelhança (...) e imprimindo-lhe um movimento giratório,
lhe deu forma esférica (...) em outras palavras,
lhe deu a forma mais perfeita de todas.”

Platão, Timeu 33b, 410 a.C. 1


             A geometria, do latim, medição de terra, desenvolveu a possibilidade de manipular a medida, uma habilidade humana que nos tempos primitivos era considerada um ramo da magia. Nesse tempo a magia, a ciência e a religião eram de fato inseparáveis, e faziam parte do conjunto de habilidades possuídas pelo sacerdócio; e os primeiros “sacerdotes” realizavam seus cultos nos lugares onde a natureza era abundante, em que se podia sentir mais forte a presença do Divino. 2
            Com a evolução do homem no que diz respeito à sua capacidade de simbolizar, outros espaços passaram a ser utilizados com fins religiosos. Nestes espaços, pedras foram arranjadas, constituindo os monumentos neolítico, satisfazendo a necessidade do contato com o Criador através da verticalidade. Não só por isso mas também pela implantação em formato circular, forma primeira a ser desenhada pela raça humana, tanto pela sua simplicidade quanto pela possibilidade de ser reconhecida diversas vezes na natureza.

Stonehenge.  Fonte: espiritualismo.hostmach.com.br

            Os monumentos neolíticos já existiam pela Europa ocidental desde 6500 a.C., porém o mais intrigante é Stonehenge localizado em Wilthire, Inglaterra. Datado de 3000 a.C., a disposição de suas pedras está em círculos concêntricos em volta de uma forma de ferradura, sendo que o Sol nasce exatamente no ápice (solstício de verão), mostrando o preciso conhecimento astronômico que seus construtores possuíam. Além destas relações com o Sol, a presença de uma pedra central - que provavelmente era utilizada como altar -, reforça ainda mais o suposto uso para atividades religiosas. Embora seja a construção mais elaborada da época em toda a extensão das Ilhas Britânicas foram encontrados mais de 900 círculos de pedra chamados cromlechs, o que comprova a importância do círculo para esses fins.
              Inovação na planta arquitetônica grega, os túmulos Tolos foram edificados tendo como base a forma circular.  Sua aparição se deu por volta de 1600 a.C. no Peloponeso, no princípio do período chamado Heládico Tardio I. A forma circular da base  subia  em  formato  cônico formando o telhado, sendo a entrada da câmara através de um declive criado na parte frontal da construção. Após um período de interrupção, a construção de tolos é retomada em Delfos por volta do ano de 375 a.C.. Neste edifício, a mesma base circular com telhado cônico é construída de forma mais aprimorada, iluminada por meio de janelas na parte mais alta das paredes, e envolvida por quatorze colunas encerradas por capitéis coríntios.
                Muito semelhante aos túmulos primitivos Tolos gregos, as Stupas localizadas em Sanchi, Índia, construídas de 273-276 a.C., são monumentos dedicados a Buda. Eram originalmente montes de terra que guardavam relíquias de Buda ou de seus seguidores, desprovidas de símbolos, pois naquele momento a religião não permitia imagens, restando o caráter religioso apenas na forma circular ascendente, e no local de implantação já considerado sagrado. Com o passar do tempo, as stupas se tornaram mais complexas arquitetonicamente, porém o seu volume permaneceu igual.

Stupa de Sanchi. Fonte: indialine.com
            Embora o círculo já fosse utilizado na planta de alguns espaços sagrados, foi com a cúpula do Panteão de Roma (18 a 128 d.C.) que ele se consagrou. Construído pelo imperador Adriano para substituir o templo de Agripa, o edifício inicialmente dedicado a todos os deuses, impressionava por ser o primeiro projeto onde a estrutura (semi-esférica) havia sido capaz de proporcionar um vão livre espacialmente equilibrado. O efeito luminoso produzido pelo óculo localizado no ápice da cúpula, proporcionava o passeio de um facho de luz solar por cada um dos nichos dos deuses e juntamente com os detalhes de ouro dos caixotes da cúpula, que sugeriam estrelas do céu, dava ao prédio todo um simbolismo cósmico, satisfazendo o propósito inicial da obra – “O projeto de um anjo, não de um homem”, diria Michelangelo.  Com o passar dos tempos o edifício passou a ser utilizado para outros fins, mas foi  resgatado  pelos arquitetos renascentistas por atingir plenamente suas intenções; dar ênfase  ao poderia do Império Romano  por intermédio do volume plástico.

Notas
1. ROOB, Alexander. Alquimia & Mística, el museo hermético – Madrid, Espanha: Taschen, 2005. p.35
2. PENNICK, Nigel.Geometria Sagrada. SP. Editora Martins Fontes, 1980. pág. 7 e passim.
3. WALKER, Paul Robert. A disputa que mudou a renascença: como Brunelleschi e Ghibert marcaram a história da arte. RJ. Editora Record. 2005. p. 285.

Homo Religiosus

                                    “Possuidor de um tesouro de signos que tem a faculdade de
                                                multiplicar infinitamente, o homem é capaz de assegurar a retenção
                                               de suas idéias eruditas, comunicá-las para outros homens e
                                               transmití-las para os seus descendentes
                                                                     como uma herança sempre crescente.”   
                                              
                                               Jacques Turgot, em “Plano para dois discursos sobre a história universal”, 1760. 1

                O surgimento do humano se deu através de um processo muito longo. Porém, a postura ereta foi determinante, e graças à capacidade de simbolizar, à criação de ferramentas e a um aprimoramento da linguagem (elementos do que pode se chamar cultura), o homem foi capaz de alcançar um convívio especifico com o meio ambiente.  Estabelecendo vínculos entre os indivíduos do grupo devido à dependência recíproca, criou defesa frente aos predadores muito mais fortes e velozes e, auxiliado principalmente por um sistema de comunicação, conseguiu preservar seus “filhotes” e estabelecer as primeiras comunidades. 2 Sobretudo a capacidade de simbolizar e estabelecer uma cultura possibilitou constituir uma extraordinária característica: pensar no que estava presente, diante dos olhos. E, neste sentido, “o homem sempre buscou explicações para fatos tão cruciais como a vida e a morte.” 3.
                Assim que os seres humanos saíram das cavernas para viver em cabanas, duas direções básicas – agressividade e religião – ditaram as formas da primeira arquitetura.  O homem, que já deixava suas marcas no meio ambiente, passou a perceber a existência de outros grupos, iniciando um período de lutas por melhores lugares que garantiriam a sua subsistência. Naquele momento, sua capacidade de sobrevivência não era apenas ameaçada pelas forças da natureza, mas também pelos conflitos surgidos no seio de uma mesma sociedade ou devido a rivalidades entre sociedades diferentes. Assim se deram as primeiras experiências no que diz respeito à agressividade – defesa.

No que diz respeito à religião, os acontecimentos naturais (como fenômenos climáticos, físicos, orgânicos) para os quais o homem não tinha explicação, eram entendidos como realizados por uma “Força Superior Divina”, a qual ele não conhecia. A necessidade de respostas e o medo levaram o homem a tentar estabelecer uma conexão com essa força divina, elaborando espaços sagrados – desagregados do sítio de uso comunitário – por intermédio de uma simbologia de destaque. E, nesses espaços sagrados, por meio da possível união com o Cósmico, o homem tentou garantir a exclusividade quanto à realização dos seus interesses pessoais.
 Importante ressaltar que a religião é manifestação própria do ser humano. Ela não está presente nos outros seres vivos, mas somente no homem, dando à história da humanidade marcas profundas, e inspirando as produções artística e literária de diversas épocas. Assim, como o homem é considerado sapiens, sociabilis, faber, é também considerado religiosus. O homem continua sendo sapiens, sociabilis e faber, mesmo opondo-se a pensar, viver em sociedade, e trabalhar; da mesma forma a religiosidade é uma constante na raça humana, mesmo que não seja cultivada por todos os indivíduos. 4
Das formas geométricas básicas utilizadas para o destaque desses espaços,  três são as principais, as quais o homem se apropriou para simbolizar sua vontade de conexão com o Cósmico: o círculo,  o quadrado e o triângulo. Cada uma delas é dotada de propriedades únicas e detém um simbolismo esotérico que transcendeu ao longo da história humana. A aplicação universal dos princípios idênticos dessa “geometria sagrada” em lugares separados no tempo, no espaço e por crenças diferentes, atesta essa natureza transcendental. Assim, a geometria sagrada foi aplicada nos templos pagãos do Sol, nos relicários de Isis, nos tabernáculo de Jeová, nos santuários de Marduk, nos santuários erigidos em honra dos santos cristãos, nas mesquitas islâmicas, e nos mausoléus reais e sagrados. 5   Em todos os casos, uma cadeia de princípios constantes – porém adaptáveis – conecta essas estruturas sagradas, comprovando que, conforme disse Confúcio, “a natureza dos homens é a mesma; são seus hábitos que os mantém separados.”
  NOTAS 
Imagem: Pintura rupestre do Pátio Nacional serra da Capivara em São Raimundo Nonato, PI, Brasil.
1. TURGOT, Jacques. Discurso sobre el progreso humano. Barcelona. Editora Tecnos.1999.p. 45
2. GUERRIERO, Silas. Antropos e Psique:o outro e a sua subjetividade. SP. editora Olhos d'água. 2000. c.1.
3. LARAIA. Roque de Barros. Cultura - um conceito antropológico. SP. Editora Jorge Zahar. 2004. p.89.
4. MONDIN, Battista. O homem, quem é ele?.SP. Paullus editora. 2004. p. 224.
5.LARAIA, Roque de Barros. Cultura - um conceito antropológico. SP. Editora Jorge Zahar. 2004. p.10.