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quarta-feira, 7 de março de 2012

Igrejas Católicas atuais: Sagradas ou Profanas?

Sagrado ou profano? Beleza ou feiúra? Abaixo uma seleção com fotos dos mais diversos projetos realizados para igrejas católicas em todo o mundo. Confira!











Em todas as religiões, a arquitetura é item de suma importância. Diferente do que acontece atualmente no Catolicismo, o papa se apropriou da arquitetura inclusive a fim de propagar a religião quando esta precisava se fazer presente no cenário histórico, econômico e social. Embora seja uma das religiões com mais números de adeptos no mundo, o que se constrói hoje como sagrado está muito longe do propósito religioso. Acredito que devemos seguir utilizando sistemas construtivos modernos, mas os símbolos que determinam o sagrado são os mesmos usados desde a antiguidade. Um arquiteto que conhece o homem e o Universo certamente saberá fazer uso das regras tradicionais de forma pioneira... A lição dos mestres está aí para ser seguida.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Igreja Católica: projetos de manisfetação da fé

“(...) cada linha, cada massa, cada detalhe deve ser concebido e disposto para exaltar o altar,
conduzir a ele.”
Ralph Adams Cram, arquiteto.1

O sujeito contemporâneo certamente questiona ou diverge dos dogmas católicos, sendo aceitável que as formas de culto sejam “modernizadas” a fim de se criar uma religião mais de acordo com o mundo globalizado. Mas o fazer arquitetura sagrada deveria seguir com o mesmo rigor das construções apresentada nos livros sagrados. Assim como o clero determinou que, a partir de um determinado concílio nada mais se mexia na Bíblia Sagrada, o código arquitetônico católico deveria ser preservado, resguardando uma arquitetura também genuína.

Já na implantação do edifício, a ordem cristã do famoso Sermão da Montanha deveria ser fundamental, localizando a igreja em terreno onde sua presença fosse marcante, assim como no período Gótico. 2.  Considerado um espaço sagrado, a igreja deve ter superioridade natural sobre os prédios profanos que a circundam. Uma praça, átrio ou mesmo um espaço de transição, seria fundamental, mantendo a implantação já determinada no Templo de Salomão. Esse destaque deveria ser audível também. Os sinos, que na liturgia católica recordam a presença do Mestre na Terra , assim como nas mesquitas, possuem a função primordial de convocar á oração.

Notre Dame de Paris. Fachada.

A fachada é o rosto de um prédio, e na função de edifício religioso, assim também deveria ser. Na Idade Média, bastava estudar o significado das inúmeras estátuas e cenas entalhadas na pedra, para compreender as verdades fundamentais daquela determinada fé, a história sagrada, etc. Quando possível, a presença de um vitral na fachada de uma Igreja Católica possui todo o caráter de “iluminação”, aspecto presente no Catolicismo e em diversas outras religiões. 3

O interior da Igreja também é cheio de simbolismo. O nártex (vestíbulo sob o coro) é o primeiro espaço sagrado destes templos. Também conhecido como galilé, era dali que partiam as procissão que, no início da Missa, dirigem-se até o altar, simbolizando a jornada de Cristo desde a Galiléia até Jerusalém, rumo ao sacrifício do Calvário. Ainda sobre este vestíbulo, a presença de água benta lembra o batismo, a necessidade do perdão dos pecados; na Idade Média utilizada como importante instrumento contra os demônios ou anjos maus.  A nave encarna a “Arca de Salvação”, a Barca de São Pedro. Ela é ainda imagem do Corpo Místico de Cristo. Um famoso diagrama coloca o Jesus Crucificado sobre a planta de uma igreja típica: seus pés posicionados na nave central, seus braços no transepto, sua cabeça na abside ou presbitério. Sobre a estrutura da edificação, as colunas da nave representam os Apóstolos, e as colunas do cruzeiro simbolizam os quatro Evangelhos: 12 colunas na nave e 4 colunas no transepto, geralmente coroado pela cúpula. Ao fundo, temos a abside ou o presbitério, cujo nível é mais alto que o da nave. A ele se destinam os mais ricos materiais e a arte mais elaborada. Desta forma, lembra-se ao fiel que a Igreja é hierárquica, composta de membros diferentes, sendo Jesus Cristo a cabeça, representado pelo Papa, bispos e sacerdotes, e com os religiosos e leigos cumprindo suas funções na Igreja militante.

Notre Dame de Paris. Interior.

A mobília também deve cumprir inúmeros pontos importantes do rito. Os genuflexórios servem para a posição corporal essencial do culto: a genuflexão, que é própria da adoração, necessária para se obter o perdão dos pecados.  4   O púlpito, de preferência hexagonal, encontra-se no lado norte da igreja, à direita de quem entra. Como no hemisfério setentrional o norte é o lado menos luminoso, simboliza as trevas e o erro, que os sermões devem dissipar, ou devem ser eliminados pela pregação destemida das verdades evangélicas. Também no lado norte deve situar-se a pia batismal, pois as crianças que ali chegam ainda não pertencem à Igreja. As igrejas devem apontar para o Oriente, pois de lá veio o Salvador, e por ali chegará em sua segunda vinda, segundo as escrituras. A mesa do presbitério faz referencia à “arca de salvação”, local do altar do sacrifício e do tabernáculo, que está dirigido para o Oriente. É o equivalente cristão ao Santo dos Santos dos hebreus, no deserto e no Templo de Salomão.

O Concílio de Trento dispôs que o coro e os instrumentos ficassem na galeria acima do nártex. Não é desejável que músicos e coristas sejam visíveis. Eles devem ir à igreja como fiéis, e não como artistas. As “vozes desencarnadas” do coro evocam o canto dos anjos, proveniente de cima para baixo e ressoando de modo belo nas abóbadas da igreja.

Os vitrais ocupam um lugar especial na arquitetura eclesiástica.  5  Toda outra forma artística no recinto sagrado, como pintura e escultura, está concebida para ser vista sob uma luz filtrada.  6 . Quando o sol se põe, através dos vitrais a luz projeta figuras multicolores no interior da igreja, criando uma sensação do além, uma pouco da beleza do Céu.

Coincidência ou não, todos estes itens estão presentes no projetos mais magníficos das Igrejas Católicas.  Cabe ao arquiteto contemporâneo refletir até que ponto a eliminação de símbolos criará uma arquitetura católica pioneira.

Notas:

*  A arquitetura eclesiástica católica deveria ser a materialização das doutrinas da fé. O arquiteto Michael S. Rose, em seus livros, exemplifica isso com a catedral Notre Dame de Paris. A arquitetura desta Igreja representa o Cristianismo na sua totalidade: através das nuances luminosas obtidas no conflito estrutura X aberturas, o peregrino percebe a luta entre o bem e o mal, entre o sagrado e o profano.



1 – ROSE, Michael S. Ugly as Sin — Why they changed our churches from sacred places to meeting spaces and how we can change them back again, Sophia Institute Press, Manchester, NH, 2001, P.84
2 - Para os construtores de igrejas, as palavras de Cristo são normativas. E o Divino Mestre ensinou no Sermão das Bem-aventuranças: “Não pode se esconder uma cidade que está situada sobre um monte. Nem os que acendem uma luzerna a metem debaixo do alqueire, mas põem-na sobre o candeeiro, a fim de que ela dê luz a todos que estão na casa” (Mt 5, 14-15). Por isso, a igreja não pode ficar dissimulada ou escondida.

3 - No centro da fachada da Igreja Notre Dame de Paris encontra-se a rosácea, que tem como significado a Santíssima Virgem. A rosa é emblema de Nossa Senhora, e seu uso nas construções religiosas da  Idade Média, se dá para antecipar, já na fachada, a qual Santa aquela catedral era dedicada. A rosácea é denominada “olho de Deus”, e representa também a perfeição, o equilíbrio e a harmonia da alma purificada, que se prepara para ingressar no Reino Celeste eternamente.
4 - São Carlos Borromeo recomendou que os confessionários sejam situados nas partes laterais da igreja; que o penitente nele esteja ajoelhado, separado do confessor por uma tela, numa posição onde possa ver o presbitério.
 
5 - O Abade Suger, na Idade Média, chamou-os "janelas radiantes que iluminam as mentes dos homens de maneira que, por meio da luz, possam chegar à percepção da luz divina”. Ele dizia serem “sermões que tocavam o coração, através dos olhos, ao invés de entrar pelo ouvido” 1 – ROSE, Michael S. Ugly as Sin — Why they changed our churches from sacred places to meeting spaces and how we can change them back again, Sophia Institute Press, Manchester, NH, 001, P77

6 – “O artista deve pintar com a luz de Deus”. Rose, Michael SUgly as Sin — Why they changed our churches from sacred places to meeting spaces and how we can change them back again, Sophia Institute Press, Manchester, NH, 001, P80.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Em tempos modernos, Igrejas Católicas modernas!

Ainda que entendamos a arquitetura como ofício de um artista, ele tem a liberdade da composição estética, mas deve seguir um programa de necessidades, idealizado pelo cliente.  Diferente dos complexos programas das igrejas antigas, nos modernos templos sagrados católicos a liberdade impera. Não há mais lugar sagrado, o presbitério não se distingue mais da nave, nem precisamos mais de transepto: a Igreja se reduziu a mais um local de reunião,e  cabe ao arquiteto concebê-lo da forma mais conveniente.

Quando existem exigências, elas fogem totalmente do que era o catolicismo originalmente. Nos anos 1980, por exemplo, o movimento progressista exaltou o batismo de imersão, exigindo a existência de uma banheira próxima ao altar. Na verdade, a pia batismal “desde o Vaticano II, tinha girado um pouco por toda a igreja.” 1   De início, os litúrgicos julgavam fundamental que ela ficasse bem visível, mas naquele momento, o consenso era que a visibilidade era o menos importante.

Nos anos 1990, tornou-se moda incluir obras de arte temporárias de “símbolos universalmente reconhecíveis”, sejam eles pagãos, gnósticos ou políticos. Para a nova composição visual, a ambientação e o mobiliário também tiveram que ser revisitados. As cadeiras agora circundariam o altar. Não haveria genuflexórios, e as poltronas – extremamente confortáveis – seriam convites a posturas mais relaxadas como cruzada de pernas, pois posturas informais calhavam bem com a atmosfera criada pela nova decoração. Como não haveria um ponto monárquico – já que o altar poderia estar mais baixo e o sacerdote, quando sentado desapareceria – o silencio sacramental não tinha porque existir também: no lugar dele, burburinho e bate-papo entre os fiéis. Uns procuram amigos e parentes com o olhar, e trocam “tchauzinhos”. Se alguém estava lendo, só se ficaria sabendo por causa das caixas de som.

No altar, nenhuma referência ao sacrifício, assemelhando-se a uma mesa de jantar. Não há iconografia sacrifical, e poucas vezes um Crucifixo destacado — as igrejas modernas evitam os símbolos católicos como o Crucifixo ou a cruz latina, e quando elas existem estarão como um signo a ser decifrado. Na hora da comunhão, muitos leigos distribuindo as hóstias, se colocando nos mais diversos lugares do salão. Ainda sobre o presbitério, nas últimas décadas o Santíssimo Sacramento foi levado para uma sala à parte. O tabernáculo do novo estilo pode assemelhar-se a uma gaiola de passarinhos ou até a um totem. Outros são cilíndricos ou cônicos, conhecidos como “torres do sacramento”. O ambiente em torno nada tem de sacral, acolhedor, nobre ou elevado, e não convida à adoração.

Seguindo esta tendência, no ano 2000, três projetos visaram marcar a arquitetura católica do novo milênio. O primeiro foi a Igreja do Jubileu 2000, em Roma, projeto do arquiteto Richard Meier.  Reúne uma “série de paredes de concreto retilíneas e curvilíneas recheadas com vidro, todas num plano horizontal, como se o prédio pudesse ser arrancado qualquer dia e transportado a alguma outra superfície”  2.  Embora seu projeto seja fantástico do ponto de vista estrutural, para os críticos está longe da tradição católica, se assemelhando a Opera de Sydney ou uma sala protestante.

Igreja do Jubileu, Roma.

O segundo projeto foi o da Catedral de Nossa Senhora dos Anjos, em Los Angeles, EUA. Teve-se em vista uma catedral que “com o seu aspecto grosseiramente volumoso, contrastes agudos, estrutura assimétrica desprovida de ângulos retos, rompesse deliberadamente com a continuidade histórica de dois milênios de arquitetura católica para as igrejas. Mas paga tributo aos últimos cinqüenta anos de estruturas para escritório, banais e sem inspiração, que têm poluído a paisagem do centro de Los Angeles e da maioria das outras cidades americanas” . 3  O interior tem a monumentalidade das construções tradicionais católicas, mas a complexidade de ângulos tira a atenção do fiel,  impossibilitando a reflexão ou espiritualidade que o projeto de uma Igreja deve despertar.


Catedral Nossa Senhora dos Anjos, Los Angeles, E.U.A.

A terceira tentativa projetual foi a Catedral Cristo da Luz, em Oakland, Califórnia. O projeto vencedor do escritório Skidmore, Owings & Meril L.P., propôs “uma concha gigante semi-aberta, uma caixa torácica ou pança de uma baleia. Foi a primeira catedral que iria ter um teto retrátil. [...] "The San Francisco Chronicle" descreveu a proposta como ‘uma estrutura de costelas de aço pintado, vidro e concreto, que parece tão futurista como os restos de um esqueleto de uma criatura pré-histórica corcunda’4. O edifício não passa despercebido, e tem a força plástica das maiores Igrejas Católica além de um interior muito harmonioso, contudo a simbologia religiosa não fica evidente nem no interior, nem no exterior da edificação.



Igreja Crista da Luz, Califórnia. E.U.A.

Notas:

 105.
1. Conforme escreveu a consultora de desenho litúrgico Christine Reinhard. 1. ROSE, Michael S., Ugly as Sin — Why they changed our churches from sacred places to meeting spaces and how we can change them back again, Sophia Institute Press, Manchester, NH, 2001. P.
2. ROSE, Michael S. Tiers of Glory: the Organic Development of Catholic Church Architecture Through the Ages, Mesa Folio Editions, 2004. P.104.

3. ROSE, Michael S. Tiers of Glory: the Organic Development of Catholic Church Architecture Through the Ages, Mesa Folio Editions, 2004.

4. ROSE, Michael S. Tiers of Glory: the Organic Development of Catholic Church Architecture Through the Ages, Mesa Folio Editions, 2004. P.106 e passim.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A origem das Igrejas Católicas Modernas.

“(...) o então bispo Dom Jaime Luiz Coelho, inspirado pelo pioneiro foguete Sputnik, revoluciona a arquitetura eclesiástica e constrói a nova Catedral Nossa Senhora da Glória com uma forma cônica,com o vértice apontado para o céu, querendo que esta fosse um convite a toda a população, que sempre estivesse voltada para o céu, para Deus”.
Selson Garutti.1. 
Diferente do Catolicismo, o Protestantismo, se ateve às questões dogmáticas, não gerando uma tipologia arquitetônica própria.  Seus fundadores preferiram edificações livres de ornamentos: adaptações simplórias das antigas igrejas católicas, utilizadas para dar maior credibilidade à nova doutrina. No Brasil, os Protestantes – posteriormente denominados evangélicos –, construíram os primeiros templos com inspiração neogótica. Ainda que em meados do século XIX, um movimento interno no protestantismo reivindicou prédios mais compatíveis com as diretrizes da nova Igreja, esses templos foram construídos focalizando leitura e reunião, e não o sacrifício do altar. O projeto destes se assemelhava a anfiteatros e auditórios, uma arquitetura “deliberadamente não-eclesiástica, sem altar, sem tabernáculo e sem presbitério” 2.

Igreja Anglicana de São Paulo. RJ.
foto: Leo Mendes. www.flickr.com

A nova doutrina ameaçou a Igreja Católica, iniciando um movimento arquitetônico  moderno. “Após a II Guerra Mundial, os católicos começaram a experimentar novas formas e configurações. [...] Algumas destas experiências foram inspiradas pelo movimento liturgicista católico, e dirigidas por líderes da arte e da arquitetura modernista [...]. A estatuária foi evitada, a estrutura de basílica foi descartada e o sagrado não foi mais diferenciado do profano. Utilizando linhas retas e geometrias abstratas, arquitetos como Rudolph Schwartz e Dominikus Bohm criaram ‘espaços de culto’ frios e secos muito antes que estas experiências atingissem o seu auge nas décadas que seguiram o Concílio Vaticano II” 3 . Nessas “experiências”, os sentimentos de a piedade e unção sobrenatural desapareceram.

Os novos edifícios católicos continuavam nascendo, e alguns são exemplos bem claros do que o novo programa de necessidades impunha. Independente do adjetivo que cada espectador deu, as Igrejas projetadas a partir de 1950 são edificações que sempre nos despertarão algum sentimento: amor ou ódio.  O arquiteto suíço Le Corbusier criou dois exemplos típicos da nova arquitetura em sintonia com a nova teologia, sendo a Notre Dame du Haut (1950-1954) em Ronchamp, França, o exemplo mais claro de uma igreja desenhada como uma escultura abstrata.  A capela está implantada em platô no topo de uma colina, sobre as ruínas de um santuário datado da Idade Média e dedicado à Virgem Maria, destruído pelos bombardeios em setembro de 1944. A edificação possui paredes grossas e curvilíneas, que apoiam a cobertura em concreto de formato escultural. Nestas paredes pequenas vãos permitem o acesso da luz, em janelas irregulares e vindas das três torres claras. A luz é naturalmente controlada, realçando o interior sem ofuscar o usuário.

Notre Dame du Haut, Le Corbusier. Interior.
Notre dame du haut, Le Corbusier. Fachada.

 "A cobertura foi posta sobre paredes grossas. Dentro delas entretanto estão as colunas do concreto reforçado. O telhado descansará nestas colunas mas não tocará na parede. Uma fenda horizontal de luz com dez centímetros de altura surpreenderá."— Le Corbusier. 4.

Convento Dominicano de La Tourette, Le Corbusier. Interior.

Outro edificio projetado pelo mesmo arquiteto é o do Mosteiro Dominicano de La Tourette (1951). Em suas teses, Le Corbusier sustentava que a casa é uma “máquina para morar”, portanto máquina e não a figura humana, seria o paradigma para a arquitetura. Este critério foi aplicado na arquitetura eclesiástica católica dos anos 1960, e apoiado pela Igreja que, em seu novo movimento litúrgico, acreditava que o  espaço sagrado deveria explorar os materiais e os métodos modernos. Assim, a maioria das obras desta época foram construidas com aço, vidro e concreto, desenhadas como grosseiras massas, obedecendo à forma de conchas, navios, arcas e outros temas náuticos; zigurates, naves espaciais, colméias, toldos de índio, artefatos para pouso lunar, e vários tipos de origami. 5.

Convento Dominicano de La Tourette, Le Corbusier. Fachada.

Catedral de Maringá, José Augusto Belucci. Interior.

No Brasil, seguindo a tendência modernista católica, estavam sendo projetadas a Catedral Metropolitana de São Sebastião, RJ, edificação cônica que lembra ela os templos babilônicos, dos quais o maior foi a Torre de Babel, a Catedral de Brasília, comparada por autores à reservatórios de água, e a Catedral de Maringá, cuja forma cônica reporta-se ao satélite soviético Sputnik, lançado em 1957. 6

Catedral de Maringá, José Augusto Belucci. Fachada.

Notas:
1. GARUTTI, Selson. ANAIS DO II ENCONTRO NACIONAL DO GT HISTÓRIA DAS RELIGIÕES E DAS RELIGIOSIDADES.  Revista Brasileira de História das Religiões – ANPUH Maringá (PR) v. 1, n. 3, 2009. ISSN 1983-2859.  Disponível em http://www.dhi.uem.br/gtreligiao/pub.html .
2. ROSE, Michael S. In Tiers of Glory: the Organic Development of Catholic Church Architecture Through the Ages, Mesa Folio Editions, 2004, P. 99.
3. ROSE, Michael S. In Tiers of Glory: the Organic Development of Catholic Church Architecture Through the Ages, Mesa Folio Editions, 2004, P. 100 e passim.

4. Aos 63 anos, Le Corbusier inicia a reconstrução da capela Notre-Dame-du-Haut a Ronchamp. Seria seu primeiro projeto de um edifício religioso, apesar de ter trabalhado em 1929 nas plantas da igreja de Tremblay. Em um primeiro momento, Le Corbusier declina o projeto, mas desta vez além de um excelente local para implantar a capela, Le Corbusier tem carta branca da Igreja para desenvolver sua liberdade criativa. Lírico, sobre a beleza do terreno, ele disse : “ Eu nunca havia feito algo religioso, mas quando eu me vi diante destes quatro horizontes, não pude hesitar”. A arquitetura fina e curvilínea da capela é surpreendente pelo que se via de Le Corbusier, um arquiteto racionalista que acreditava apenas no ângulo reto. A capela é repleta de contradições arquitetônicas, ao mesmo tempo quadrada e redonda, alongada e contida, baixa e alta. Segundo Christophe Cousin, o diretor do Museu de arte e história de Belfort,: “ Ela possui uma planta muito simples, mas quando estamos no local, não é nem um pouco evidente”. Vasta e aberta sobre o exterior, ela se torna um local pequeno de recolhimento. Com o branco brilhante de seus muros externos, parece definir seu criador, para o qual: “ a emoção arquitetural é o jogo sábio, correto e magnífico dos volumes sobre a luz”.  
Por esta contradição à arquitetura de linhas retas de Corbusier e ao fato de este ser ateu, a capela de Ronchamp foi uma das obras que causaram mais polêmica e dificuldade de assimilação pela crítica, tanto por parte dos arquitetos , quanto pelo público. Segundo Charles Jencks a capela representa um momento irônico de Le Corbusier, o desenho da capela parte de um sistema ortogonal: o cubo. No entanto este é distorcido, empurrado para dentro em três das faces, distorcido em direção ao sul e rebaixado em seu teto em direção à nave. Assim, o sentimento no interior é o oposto das igrejas de então, onde as grandes alturas das naves evidenciam a distância entre o mortal e a divindade.[4] O crítico americano Mumford e outros, viram em Ronchamp um regresso ao passado e à plasticidade, o inglês James Stirling considerou a obra como um indício da crise do racionalismo. Fonte: www.wikipedia.org.br
5. “[...] com seus espaços áridos e opressivos, (o Mosteiro Dominicano de le Corbusier) foi um fracasso monumental” ROSE, Michael S. In Tiers of Glory: the Organic Development of Catholic Church Architecture Through the Ages, Mesa Folio Editions, 2004, P. 100 e passim.
6. ROSE, Michael S. In Tiers of Glory: the Organic Development of Catholic Church Architecture Through the Ages, Mesa Folio Editions, 2004, P. 100 e passim

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Templos Católicos: feiura do pecado X antecâmaras do céu

“ As igrejas modernas criam um ambiente que leva à perda da fé.
Em sentido contrário, as igrejas antigas, fiéis à tradição, estimulam a fé e a piedade,
tornam atraente a virtude e alimentam o desejo do céu.”
Luis Dufaur, escritor.

Há tempos vinha buscando uma referência bibliográfica que estivesse de encontro com o que penso sobre a produção arquitetônica católica atual. Diferente do que acontece com os livros de outras religiões, o que constantemente eu achava era um caderninho repleto de anotações ligadas aos “encontros místicos particulares”, em que a análise formal da edificação ficava abafada ou por “momentos de sublime espiritualidade”, ou por medo de ser tachado como “herege”, seguindo de um processo de expulsão da paróquia, ou um dolorido “puxão de orelha” do padre.

Contudo, cada vez que me deparava com mais um novo projeto para Igreja Católica, não me conformava com o rumo que a arquitetura desta religião ia seguindo. A vivência de um  curto – mas profundo - período como católico, me permitia entender que, em parte, as mudanças estruturais ocorridas nos Concílios do século XX na tentativa de atrair mais fiéis, acabavam eliminando o que mais interessante os templos católicos possuíam. A emoção que esta arquitetura específica despertava nos seus adeptos ia sendo destruída, causando, ao meu ver, o efeito contrário: a expulsão cada vez maior dos jovens fiéis. Claro que este fenômeno não pode ser analisado somente do ponto de vista arquitetônico,  mas, como neste blog comento especificamente de Arquitetura Sagrada, devo apresentar apenas este aspecto.

A certeza que tinha de que o empobrecimento da arquitetura das Igrejas repercutia diretamente na quantidade de fiéis católicos, foi reforçada quando encontrei dois livros do arquiteto Michael S. Rose, doutor em Belas Artes da Brown University, nos Estados Unidos. Em suas publicações – “Ugly us sin” de 2009 e “In tiers of glory” de 2004, - Michael analisa o projeto de diversas Igrejas Católicas contemporâneas, confrontando o partido adotado pelo arquiteto autor do projeto com edificações antigas, cujos programas de necessidades estavam de acordo com a ritualística e a simbologia católica tradicional – ainda em uso na época da construção.

Os próximos edifícios religiosos a serem estudados neste blog serão Igrejas Católicas. Em se tratando de uma religião dominante no nosso país, e certo de que grande parte dos visitantes do blog tenham a possibilidade de vivenciar esta religião de perto, pularei explicações mais detalhadas da história do Cristianismo e me aprofundarei em análises das igrejas, tentando resgatar traços da geometria sagrada existente. Utilizarei alguns pontos identificados pelo arquiteto Michael S.Rose, confrontando-os com questões abordadas em  livros que falam sobre os novos rumos de ser católico no século XXI. Como se trata de um tema bastante presente no nosso dia-a-dia, ficarei muito feliz de receber comentários a respeito do projetos. Inicio este tema provocando a seguinte reflexão: Até que ponto os projetos destas igrejas nos emocionam?

Catedral Metropolitana de São Sebastião, RJ.
Projeto do arquiteto Edgar de Oliveira da Fonseca. 1979

Catedral de Nossa Senhora Aparecida, DF
Projeto do arquiteto Oscar Niemeyer, 1958.
Catedral Metropolitana de Nossa Senhora da Assunçao, SP.
Projeto do arquiteto Maximilian Emil Hehl, 1954

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Arquitetura Baha'i, a síntese de uma religião - Filmes

Por se tratar de uma religião viva, que luta pela Unidade em um terreno dominado por religiões fundamentalistas, grande parte da produção cinematográfica criada acaba sendo destruida antes mesmo da finalização. E as poucas que conseguem ser finalizadas, apresentam demasiadamente as dispustas politico-religiosas, dando pouca ênfase ao simbolismo e a Arquitetura Sagrada, pontos que são discutidos neste blog.

Sendo assim, após dias pesquisando referências no cinema, minha busca se deu por concluida ao encontrar na internet alguns filmes onde o tema principal é a Arquitetura Sagrada. Os três selecionados seguem abaixo. Embora sejam imagens brilhantes, ainda acredito que esta arquitetura tão significativa mereça trabalhos cinematográficos mais interessantes... Fica minha sugestão aos que atuam neste campo.





Contudo, espero que as imagens apresentadas sejam capazes de despertar a emoção que os arquitetos certamente buscaram ao projetarem. Bom fim de semana!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Arquitetura simbólica Bahá’i

“Diz o Grande Ser: Ó bem-amados! Ergueu-se o tabernáculo da unidade; não vos considereis uns aos outros como estranhos. Sois os frutos de uma só árvore e as folhas do mesmo ramo. “
Ensinamento Bahá’i. 1

Na contemporaneidade, a decadência das religiões fundamentalistas gerou a dessacralização dos símbolos considerados divinos na arquitetura. Em tempos de conflitos e divergências nos dogmas das religiões, os novos programas de necessidade exigem o minimalismo e a escassez de simbologia na arquitetura religiosa, a fim de não mais confundir os fiéis. Neste cenário  a-religioso, os edificios mais magníficos cujo projeto partiu do uso de números ou geometrias  sagradas são projetados para usos profanos, em geral complexos edificios com volumes rigorosamente diagramados para vencer alturas inimagináveis, como as Torres Petronas, na Malásia. 2
Torres Petrona, Malásia. 2
fonte: http://www.wikipedia.com/
 Na contramão da simplista produção arquitetônica religiosa estão os templos da Fé Bahá'í. Na simbologia Bahá'í, a geometria adorada é a mais complexa existente, estrelas e polígonos obtidos a partir dos números 8 e 9,  constantemente   representados já na planta arquitetônica de seus edifícios.
A estrela de oito pontas é utilizada com sua simbologia original, diferente de seu siginifcado no projeto das Torres Petrona. Ainda que apenas nos detalhes decorativos do Centro Mundial de Haifa, no Monte Carmelo, o resgate desta intrincada geometria neste projeto foi suficiente para propagar seu uso em outros edificios religiosos atuais, recordando principalmente a cultura e a arquitetura do islamismo.
O número nove representa para muitos o número da perfeição. Diferente do significado da estrela de oito pontas, a  estrela de nove pontas, não representa apenas uma, mas as nove religiões monoteístas, classificadas segundo os ensinamentos Bahá’i. 3.  Além deste significado, o número  nove se torna importante por ser o número de anos do intervalo entre a revelação do Báb (1844) e a de Bahá'u'lláh (1853), e  também  pelo valor numérico da palavra Bahá` em Árabe.
Templo Baha'i de Chicago, EUA.
fonte: http://www.bahai.org.br/
 Embora sejam um único prédio coroado por um domo imponente  , os templos Bahá'ís têm todos nove entradas  4. Assim conhecidos como “Casas de Adoração” pelos bahá'ís, esses templos são construídos unicamente para a realização de orações. Não havendo nenhuma espécie de culto, é permitido a livre entrada de pessoas de todas as religiões. Atualmente, todas as Casas de Adoração possuem apenas uma sala sem divisão sob o domo, e os assentos do auditório são voltados para o Santuário de Bahá'u'lláh em Akka, Israel. Lá, cada indivíduo é incentivado a recitar as palavras reveladas por seu Deus, sejam estas de Krishna, Moisés, Zoroastro, Buda, Cristo, Maomé, Báb ou Bahá'u'lláh.
Templo Baha'i, India.
fonte: http://www.google.com/
Além do carater simbólico da planta, outro aspecto marcante na arquitetura destes templos é o resgate do desenho, técnicas construtivas ou mesmo do emprego de materiais  próprios da cultura local onde o edifício está instalado. E ao redor destes templos, os jardins serão ornamentados apenas com plantas e árvores específicas do lugar.
Templo Baha'i, Panamá.
Importante notar o uso de técnicas construtivas locais na arquitetura do edifício.
http://www.bahai.org.br/


 Para ver um pouco mais sobre arquitetura Baha'i, clique no video abaixo:


Notas:

1. Ensinamento Baha'i. Epístolas de Bahá'u'lláh

2 .Torres Petrona  são dois arranha-céus edificados na cidade de Kuala Lumpur, Malásia, cuja base a partir da estrela de 8 pontas recorda os motivos encontrados na arte religiosa islâmica. As torres de aço e vidro foram projetadas pelo arquiteto Cesar Pelli. Concluído em 1998, tem 88 andares e atualmente é o terceiro edifício mais alto do mundo (pronto), com 452 metros.
3. A religião Bahá'í considera nove as religiões monoteístas : Sabeismo, Hinduísmo, Judaísmo, Zoroastrismo, Budismo, Cristianismo, Islamismo, Fé Babí e Fé Bahá'í. Contudo, essas não foram as únicas religiões reveladas, vindo a existir muitas outras anteriores, mas são as que ainda existem.
4. Os Escritos da Fé Bahá'i relativos à estrutura dos templos Bahá'ís, definem que estes devem possuir duas características básicas: possuir nove entradas e coroadas por um domo central no topo. Por simbolizarem a Unidade de Deus, Unidade de todos os Seus profetas e a Unidade da Humanidade, a edificação deve dar a impressão de um único bloco arquitetônico.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Havdalá


"Penso 99 vezes e nada descubro.
Deixo de pensar, mergulho no silêncio, e a verdade me é revelada."
Albert Einstein. 1879-1955

Após um período sabático, o ArqSagrado retorna com sua missão de provocar discussões sobre a Religião e a Arquitetura Sagrada. Os estudos que antecederam este retorno seguiram em ordem cronológica, de acordo com a história da humanidade, e seguindo o índice estabelecido em meu trabalho acadêmico denominado Biblioteca Antropo-Teológica, do ano de 2007.
Percebi durante este primeiro ano os assuntos mais procurados e os temas que ainda não havia abordado naquele trabalho acadêmico, ou por impossibilidade de tratá-lo na Universidade Católica ou mesmo porque não estavam de acordo com o rumo que aquele  trabalho seguia. Estes assuntos serão tratados nos próximos posts, sempre tendo como referência uma bibliografia consistente, estudando as mais diversas manifestações de religiosidade desprovido de qualquer preconceito, característica marcante deste blog.
Uma vez que as postagens são elaboradas após um processo de experimentação da arquitetura religiosa, o tempo entre elas não será homogêneo, já que alguns temas requerem um trabalho de pesquisa mais intenso, e a busca de livros que realmente apresentem o tema de forma clara, livre da emoção que a experiência mística oferece. Contudo, prometo sempre preencher estas lacunas com sugestões de filmes, visitas a lugares, livros interessantes ou mesmo imagens que possam contribuir para o estudo da Geometria Sagrada.
Iniciando o ano de forma diferente, não olharemos para o passado, mas para o presente: a religião “Fé Bahá'í”, o mais interessante fenômeno religioso da atualidade, cujas edificações fazem parte da melhor produção arquitetônica religiosa contemporânea. Para quem gosta de boa arquitetura, vale a pena colocar as nove cidades nos roteiros de viagem deste ano. O vídeo abaixo refere-se ao Templo em fase de construção na cidade de Colina, a norte de Santiago, no  Chile. Aproveite para espiar um pouco do que vamos estudar em breve.

Nos vemos!

Fabricio Forg, arquiteto.
 

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Arquitetura Sagrada para Orações Modernas. 1

“A necessidade do arquiteto é criar aquele uníssono de
                                                               partes e detalhes que nas melhores edificações de todos os
                                               tempos remontou miraculosamente os processos imaginativos
                                                               a quantidades matemáticas e a contextos geométricos.”

           Erich Mendelson, 1887-1953. 1
Catedral de Brasilia - Oscar Niemeyer .
exemplo de simplificação da forma em arquitetura destinada ao Sagrado.
fonte:http://pt.urbarama.com/project/catedral-de-brasilia 

            Durante metade do século XX, os arquitetos acharam que uma nova tipologia finalmente daria um rumo à desordem proporcionada pela liberdade projetual da arquitetura iluminista: o movimento chamava-se Modernismo. Na década de 50 alguns jovens arquitetos com o Team X iniciaram a crítica aos preceitos dos CIAM (Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna), principalmente em relação ao urbanismo, ao contestar a famosa Carta de Atenas redigida por Le Corbusier, dentre eles Rykwert Peter Smithson e Aldo Van Eyc. 2   No entanto, as primeiras reações à excessiva dogmatização que a arquitetura moderna propôs surgiram, de uma forma rigorosa, por volta da década de 1970, tendo em nomes como Aldo Rossi e Robert Venturi seus principais expoentes.  
          A partir dos anos 70, preferiu-se a imagem ao original;  era o mundo do simulacro ocupando o espaço do real. O simulacro embelezava, intensificava, tendo encontrado na televisão o meio ideal para ser explorado, tornando tudo um espetáculo. A partir da queda do Muro de Berlim na década de 80, a quebra do bloqueio aos países do leste europeu proporcionou o processo de “liquidação” das ideologias. A informação espalhou-se em todos os cantos do planeta.  O homem foi globalizado mas, intelectualmente, estandardizado, acompanhando a produção em série das mercadorias, advinda da necessidade de otimização econômica. A serialidade foi uma forma de controle social e nas artes passou a ser um contraponto para muitos que consideravam a obra de arte como sendo única, original, irrepetível –  “(...) no momento em que o critério da autenticidade deixa de aplicar-se à produção artística, toda a função social da arte se transforma. Em vez de fundar-se no ritual, ela passa a fundar-se em outra práxis: a política(...)” 3
             A época contemporânea, caracterizada na cultura arquitetônica pelo abandono de todas as formas de ordem, de simetria e a chegada do desarmônico e do assimétrico, não se limita em suas considerações negativas. O momento contemporâneo é essencialmente cibernético, informático e informacional, aprofundando todo tipo de estudo e pesquisa.
Sabe-se de todo o processo teórico que os idealizadores do movimento moderno percorreram, porém a arquitetura em si propunha a simplificação e a concentração das formas, das linhas e do espaço, reduzindo-os à essência e ao serviço da funcionalidade. Em contraposição a essas características, o pensamento arquitetônico contemporâneo explora a incompatibilidade de estilos, formas e texturas. Em seus elementos estruturais relacionam contrastes como ordem dórica de colunas com sobriedade, impessoalidade com racionalidade, incorporando o ornamento como fundamental. Os projetos recuperam estilos, resgatando a história em um só conjunto. Os valores simbólicos também são retomados em comum com estilos antigos como o Barroco. Opõem-se as retas às curvas num ecletismo de formas; na união do ornamento barroco com o vidro fumé, por exemplo, cria-se um desequilíbrio de movimentos e fantasias. 4
Os arquitetos contemporâneos instigam o sagrado na ordem temporal utilizando o vocabulário arquitetônico das antigas construções religiosas. Isso se dá porque a sociedade ocidental do século XXI é herdeira do pensamento racionalista do Iluminismo, fundado na separação das esferas política e religiosa. E como herdeira deste período histórico tão importante, a arquitetura conseqüentemente, retorna em alguns momentos, a buscar a metodologia utilizada pelos arquitetos daquela época para as produções contemporâneas. Nos novos projetos, “profanam-se” algumas regras arquitetônicas sagradas, utilizando-as de forma a desaparecer a definição funcional dos edifícios, transformando-os em templos modernos dos novos deuses leigos. 5   

Notas:


Orações Modernas: termo criado pelos arquitetos Salwa e Selma Mikou, para matéria  sobre arquitetura
religiosa na edição nº 356 da  revista L’architecture d’aujord’hui, de jan/fev. 2005.

1. PENNICK, Nigel. Geometria Sagrada. SP. Editora Pensamento. 1980. p.68.

2. O Team X propôs, ainda nos anos 1950, recolocar nos projetos o homem real das ruas no lugar do Modulor, homem ideal, de Le Corbusier e da “velha guarda” dos CIAM.  As questões das diferenças individuais passaram a ser estudadas
no lugar do coletivo ideal. A idéia principal era de devolver a cidade a seus habitantes.
O grupo era heterogêneo e eclético, mas tinha a convicção comum de ir contra a doutrina da Carta de Atenas. Joseph Rykwert continua até hoje seguindo esta linhagem teórica, ao insistentemente buscar alternativas ao modernismo
 ao longo de toda sua obra. Pode-se notar uma influência direta de Van Eyck,
sobretudo temática, ligada ao estudo da mitologia e dos rituais, ou seja, ao resgate de um simbolismo primitivos
 claramente ausente do racionalismo do pensamento moderno.
http://www.vitruvius.com.br/resenhas/textos/resenha106.asp., acessado em  22 de maio de 2007, as 14h30.

3. QUEIROZ, Silvia de Souza. Brasilianas Neobarrocas na cena da contemporaneidade. http://www.arte.unb.br/anpap/queiroz.htm. 1996. apud BENJAMIN, Walter.
A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, in Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo. Editora Brasiliense, 1985.

4. QUEIROZ, Silvia de Souza. Brasilianas Neobarrocas na cena da contemporaneidade. http://www.arte.unb.br/anpap/queiroz.htm. 1996.


5. MIKOU, Selma. Revista L’architecture d’aujord’hui, jan/fev. 2005 – edição nº 356. artigo “Orações Modernas”, de Salwa e Selma Mikou.