Mostrando postagens com marcador Vesica Piscis. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Vesica Piscis. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

A influência das Ordens Secretas nas Igrejas Católicas Medievais - Parte 1

“A Ciência, única capaz de penetrar o mistério das coisas, 
o dos seres e de seu destino, 
pode dar ao homem asas para que se eleve ao conhecimento 
das mais altas verdades e chegue até Deus”.

Fulcanelli, escritor e alquimista do século XX  1.


      Além da influencia no plano urbano de algumas cidades, as Ordens Secretas conseguiram também inserir alguns símbolos – ou apenas criar especulações a respeito deles – em inúmeras igrejas católicas edificadas durante os anos de 1.200 a 1.500 a.C. Momento importante na história da disseminação do Catolicismo, boa parte das Ordens Secretas atuava de forma intensa nos canteiros de obras dessas construções e muitas vezes, sem a sua participação,  alguns avanços tecnológicos não seriam possíveis e a verticalização destes templos seria algo inviável.

     Do ponto de vista especulativo,  boa parte da estrutura principal destas complexas edificações certamente não foram usadas por uma simbologia anterior mas, a necessidade de se apropriar destes elementos fez com que surgissem lendas ou alusões de carga simbólica a estes elementos.  Acredita-se que abóbadas, arcos ogivais, arcobotantes e contrafortes já tinham sido experimentados em construções Românicas, mas a importância que estes elementos tiveram nas catedrais góticas fez criou inúmeros mitos a respeito de seu uso aliado aos estudos místicos de Ordens Secretas. A verticalidade destes templos sim tem sua conexão com princípios místicos, mas esta tipologia tão particular não teve sua repercussão no simbolismo dos Rosa-cruzes ou da Maçonaria, cuja arquitetura simbólica foi resgatada ou na Antiguidade Clássica.   2

Rosácea de catedral gótica.
Fonte: www.google.com.br

         Mesmo assim, ainda existem itens decorativos que possuem total conexão com as Ordens Secretas e, cuja elaboração não se justificava pela tecnologia como no casos dos elementos destacados acima. A luz do Sol não necessariamente precisaria adentrar a Igreja em datas específicas demonstrando o conhecimento dos arquitetos com os princípios de astrologia ou mesmo a preocupação com a mística astronômica;  os tijolos da alvenaria de fechamento das igrejas não precisava ser demarcado com linhas geométricas haja visto que seu papel era apenas a vedação;  a estatuária poderia aludir apenas aos santos católicos sem a necessidade de figuras antropomórficas em pináculos ou nas fachadas; os “ labirintos” desenhados nos transeptos poderiam ser substituídos por desenhos com linhas ortogonais já que a planta baixa das catedrais tinha a base quadrada e não circular; e por fim as “rosáceas” poderiam ser simplificadas em óculos  envidraçados.   3

        A planta baixa da maioria das Igrejas deste período baseia-se na cruz latina, com algumas divergências de acordo com a necessidade de naves laterais, o que acaba algumas vezes diluindo o desenho inicial. Do ponto de vista dos teóricos de arquitetura, a planta surge da evolução da planta basilical romana com algumas intervenções para a estabilidade do conjunto. Contudo, para alguns místicos a estrutura das catedrais góticas não parece resultado de “meros cálculos arquitetônicos”. De acordo com Fulcanelli, a cruz latina estendida no solo  é o símbolo do crisol, o ponto em que uma determinada matéria perde suas características iniciais para se transmutar em outra completamente diferente. Simbolicamente, a igreja teria então o objetivo “iniciático” de fazer com que o homem comum, ao penetrar nos seus mistérios, renascesse para uma nova forma de existência, mais espiritualizada.   4

Elevação e planta baixa com cruz latina - Catedral de Chartres.
Fonte: www.google.com.br

        Outro fator intrigante é a relação do Sol com a implantação destas catedrais, proporcionando um efeito muito interessante em dias de santos ou nos solstícios. Sabe-se que a linha mestra utilizada na locação destes edifícios era obtida pelo método da Vesica Piscis, contudo o conhecimento destes princípios certamente tem sua origem nas Ordens Iniciáticas ou mesmo na sabedoria adquirida pelos cavaleiros Templários.    5.  Sobre a luz solar que brinda os altares nos solstícios, os místicos acreditam que haja toda uma relação das datas religiosas com algumas datas já consagradas em calendários pagãos, de forma que a Igreja se apropriou da força simbólica destes dias para seu benefício.  6


(continua)

1. FULCANELLI. O Mistério das Catedrais. Editora Madras, São Paulo. 2007

2. Para os rosacruzes, os estudos iniciáticos tiveram sua origem nas Escolas de Mistérios do Egito, sendo a arquitetura deste período a mais resgatada para a construção das lojas. Já a Maçonaria, embora originada nos canteiros de obras das Igrejas Medievais, utiliza com carga simbólica as colunas das ordens gregas clássicas, bem como alguns detalhes decorativos existente nas residências ou palácios da antiguidade Greco-romana,
 caso do piso em xadrez preto e branco, por exemplo.

3. Óculo: designa um elemento de arquitetura, sendo uma abertura na fachada ou no interior que pode ser redonda ou de outras formas, localizada geralmente acima de uma abertura principal ou inclusa em frontões e frontispícios. Fonte: www.wikipedia.com.br. Embora teve seu uso mais marcante na arquitetura do Barroco, 
seu primeiro uso se deu no Panteão de Roma.

4. O autor - que também escreveu o livro “As Moradas dos Filósofos” - revela o significado oculto das imagens expostas nas catedrais góticas, como um tradutor da secreta “língua das pedras”. Segundo suas palavras, a catedral inteira não é mais que uma glorificação muda, mas gráfica  da antiga ciência de Hermes. Além da tipologia, o próprio termo “gótico” que designa as catedrais citadas, segundo Fulcanelli, seria uma deformação fonética de Argoth (ou Art Goth), uma linguagem restrita utilizada somente por Iniciados em Ocultismo. A arte gótica é, com efeito, a art got ou cot, a arte da Luz ou do Espírito. Ressalta que as catedrais não devem ser vistas unicamente como obras dedicadas à glória do Cristianismo, mas como uma vasta concreção de idéias, tendências e fé popular que motivou sua construção. Sobre o autor,  pouco se pode afirmar sobre Fulcanelli. Sua real identidade é cercada de mistérios; , sabe-se apenas que foi grande conhecedor de arquitetura, escultura, simbolismo, literatura clássica, arquivos e alquimia. FULCANELLI. O Mistério das Catedrais. Editora Madras, São Paulo. 2007.


6.  A 25 de Dezembro ocorre o solstício de inverno (no hemisfério norte) ou de verão (no hemisfério sul).  No 22º dia de Dezembro,  3 dias antes do ápice, o Sol se encontra nas redondezas da Constelação de Cruzeiro do Sul, Constelação de Crux ou Alpha Crucis. Depois deste período a 25 de Dezembro, o Sol move-se, criando a perspectiva de dias mais intensos. E assim se diz: que o Sol morreu na Cruz, (constelação de Crux), esteve morto por 3 dias, apenas para ressuscitar ou nascer uma vez mais. Esta é a razão, segundo os alquimistas, pela qual Jesus e muitos outros deuses do Sol partilham a ideia da crucificação, morte de 3 dias e o conceito da ressurreição. 

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Entendendo a simbologia das formas geométricas na prática.

                 " (...) Assim, uma palavra ou uma imagem é simbólica quando implica alguma coisa
 além do seu significado manifesto e imediato. (...) Quando a mente explora um símbolo,
é conduzida a idéias que estão fora do alcance de nossa razão. A imagem de uma roda pode levar nossos pensamentos ao
conceito de um sol " divino"mas, neste ponto, nossa razão vai confessar a sua incompetência:
o homem é incapaz de descrever um ser "divino". Quando, com toda limitação intelectual, chamamos alguma coisa de "divina",
 estamos dando-lhe apenas um nome, que poderá estar baseado em uma crença, mas nunca em uma
evidência concreta."
JUNG, Carl. O homem e seus símbolos. p.19.

               Sendo a geometria a atividade de medição da terra, o caráter símbólico que as formas geométrias assumiram ao longo do tempo teve sua raíz em experiências práticas durante medições ou mesmo tarefas práticas na construção dos primeiros espaços sagrados. Embora a postagem anterior explicava a importância da figura do círculo, não consigo justificar sua importância simbólica sem antes explicar como o homem traçava um quadrado no solo. 
              Não se sabe ao certo a data ou a civilização que criou o sistema de desenho do quadrado no solo, porém o método, denominado "cordagem", foi constantemente usado na antiguidade clássica, aparecendo também nos estudos matemáticos de Pitágoras. Consistia em uma corda com 13 nós - ou 12 intervalos iguais - onde se obtinha um quadrado perfeito criando 4 lados de 3 intervalos cada. Para obtenção de um ângulo reto,  seguia-se o teorema de Pitágoras construindo um triângulo retângulo de lados 3 e 4 e hipotenusa igual a 5 intervalos.  


Teorema de Pitágoras e sua representação através do sistema de cordagem.
Fonte:  anossaescola.com  e  marimath.blogspot.com
  
            Deste modo, a figura do quadrado dependia exclusivamente do trabalho do homem para ser construída e por isso ficou sendo a forma representativa da terra. E não somente por representar o Microcosmo e mundo terreno, por uma questão prática os templos antigos eram freqüentemente construídos tendo como base o quadrado: sendo uma figura única, podia ser dividido por dois ou múltiplos de dois, facilitando a modulação e o desenvolvimento do projeto. 
             A metodologia para o traçado do quadrado estava dominada. Contudo restava criar um método tão eficaz quanto este para desenhar o círculo no solo e, embora o homem já soubesse manusear os metais, não conseguia concluir uma ferramenta capaz de marcar um perfeito círculo no piso. Foi aí que entrou a ação "divina". O homem percebeu que a projeção da sombra de uma pedra  - ou mesmo uma estaca - no solo, possibilitava traçar um circulo através da incidência da luz solar conforme as horas passavam. O método, denominado vesica, foi o responsável pela determinação do simbolismo da divindade para a figura do círculo, que já estava como que determinada a este fim até mesmo pela sua presença na forma dos astros e planetas. As plantas circulares dos lugares sagrados da Antiguidade foram todas desenhadas com esta metodologia, que obrigava o homem a passar quase todo o dia riscando a sombra da estaca sob a influência direta da "luz divina", prostrado em atividade meditativa já no processo construtivo do espaço.

esquema construtivo da Vesica e o Sol.

Fonte: croquis e foto de acervo particular.

             Com o passar do tempo, a metodologia de traçado do círculo e do quadrado na terra mudou de tarefa imposta para opcional, redobrando a carga simbólica quando utilizada para principios religiosos.  Nos próximos tópicos veremos seu uso até os dias atuais, quando arquitetos resgataram estas formas geométricas não só pela simbologia intrinseca mas, principalmente, pela emoção teatral forçada que o uso da vesica e da cordagem aplicado a projetos contemporâneos pode proporcionar.