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segunda-feira, 25 de abril de 2016

Santiago de Compostela: a evolução da arquitetura através do estudo de suas fachadas.

“(...) Decorada com mais de cem imagens esculpidas grande parte delas em  mármore branco polido, 
a parte das peças puramente ornamentadas, aos raios de Sol refletiam esplendorosamente 
a glória daquele Apóstolo que ali aparecia contemplando o inenarrável de seu excelso Mestre. 
E os peregrinos ao admirarem tanta grandiosidade e  tanta beleza, proclamavam cheios de emoção e entusiasmo, 
como fazia o Autor do Livro V  do Códice Calixtino, que verdadeiramente era gloriosa
 a Tumba do Evangelizador da Espanha.”  1

A Catedral de Santiago foi modificada em numerosas ocasiões desde a sua construção, com diversas obras e ampliações que foram alterando substancialmente a planta em cruz latina original. Atualmente é um edifício complexo, do qual dificilmente o visitante consegue ter uma percepção clara da sua arquitetura e distribuição dos diversos espaços e estruturas. 2

Planta baixa original da Catedral.
Fonte: www.google.com

O “Guia do Peregrino” escrito por Aymeric Picaud entre 1135 e 1140, integrado no Códice Calixtino, constitui a primeira descrição detalhada do que era a cidade de Santiago e a sua catedral no século XII, dedicando a este tema todo o capítulo IX. Picaud descreve as dimensões da basílica: 53 "alturas de homem" (em latim: status hominis) de comprimento por 39 de largura e 14 de altura interior. 3  Descreve detalhadamente as três portas principais: a setentrional ou Francígena, a meridional, que posteriormente ficaria conhecida como Porta das Pratarias e a porta ocidental. Desta última há muito menos detalhes, mas menciona a imagem e cenas da Transfiguração. O certo é que quando visitou a catedral, ainda não estavam terminados os últimos tramos da nave nem podia ainda existir tal porta, pelo que se supõe que o que descrevia era o projeto que nunca chegou a ser realizado e que Mateus redesenhou anos depois. 4

Fachada do Obradoiro, atualmente com predominância da tipologia barroca
Fonte: www.google.com

Na atualidade, cada uma das fachadas forma com as respectivas praças conjuntos urbanísticos magníficos. Fachada do Obradoiro é o nome dado à fachada ocidental da catedral, pela qual se entra na nave principal. Dá para a praça homônima, a mais emblemática da cidade, em tipologia barroca. O seu nome é uma alusão ao estaleiro ou oficina (obradoiro) de canteiros que funcionava na praça durante a construção da catedral.  Para proteger o Pórtico da Glória da deterioração que sofria devido às inclemências meteorológicas, esta fachada e as suas torres sofreram várias reformas desde o século XVI, preservando o projeto românico concluído pelo Mestre Mateus em 1.188. Em 1738 o cabido decidiu construir a atual fachada barroca devido “à ruína de que padecia o espelho (rosácea) e à falta que faz a torre pela igualdade com a outra”, para o que contratou Fernando de Casas Novoa, discípulo de Domingo de Andrade. A fachada desenhada por aquele arquiteto dispõe de grandes janelas envidraçadas que permitem iluminar o interior e situa-se entre as torres das Campás (à direita ou ao sul) e da Carraca (à esquerda ou ao norte). Para a sua construção começou por derrubar-se o que então restava da fachada medieval. Neste novo projeto, designou-se a meio do corpo central a figura de Santiago Apóstolo e num nível mais abaixo os seus dois discípulos Atanásio e Teodoro, todos vestidos de peregrinos. Também encontram-se uma urna, representando o sepulcro encontrado no século IX e a estrela que representa as luzes avistadas pelo eremita Pelágio, de acordo com a lenda sobre o local, entre anjos e nuvens. Na torre da direita (sul) está Maria Salomé, mãe de Santiago, e na torre da esquerda o seu pai Zebedeu. Sobre a balaustrada da parte esquerda pode ver-se Santa Susana e São João e na da direita Santa Bárbara e Santiago Menor.

Palacio Farnese e sua escada de acesso.
Fonte: www.google.com

Detalhe da escada de acesso à catedral a partir da Praça do Obradoiro
Fonte: www.vigoenfoto.com
A porta da catedral está num nível bastante mais elevado do que o da Praça do Obradoiro, pelo que para subir até à entrada há uma escadaria, construída em 1606 por Ginés Martínez em estilo renascentista, inspirada na que Giacomo Vignola desenhou para o Palácio Farnese em Roma, em forma de losango, com dois lanços que rodeiam a entrada para a antiga cripta românica do Mestre Mateus, denominada popularmente "Catedral Velha".Entre o plano da fachada do Obradoiro e o antigo portal românico (o Pórtico da Glória) há um nártex coberto. Esta fachada tornou-se um símbolo da catedral e da cidade de Santiago de Compostela, o que é atestado, por exemplo, pelo fato de aparecer no reverso das moedas de um, dois e cinco cêntimos de euro de Espanha.

Entrada Porta das Pratarias.

Pormenor da porta da Fachada das Pratarias
Fonte: www.google.com
A porta de Acibechería é também barroca; foi iniciada por Lucas Ferro Caaveiro e Clemente Fernández Sarela e terminada por Lois Monteagudo. A única fachada medieval que ainda subsiste, ainda que também com modificações, é a das Pratarias, construída pelo Mestre Estevo, que é a fachada do lado sul do cruzeiro da catedral.  Embora tenha sido edificada entre 1103 e 1117, durante os séculos posteriores foram-lhe sendo adicionados outros elementos provenientes de outras partes da catedral, como o Pórtico do Paraíso ou o Coro Pétreo.  Outras modificações substanciais foram a construção da Torre do Relógio no século XIV e da Fachada do Tesouro. A Praça das Pratarias é delimitada pela catedral e pelo seu claustro em dois dos seus lados, tendo em frente à ela a Casa do Cabido. Ao que tudo indica, o nome das Pratarias deve-se ao fato da praça ser o local da cidade onde se concentravam as oficinas e lojas de ourives de prata. 

Tímpano da porta: Cristo sendo tentado pelo demônio.

Tímpano da porta: a vida e paixão de Cristo.
Fonte: www.google.com

Consta de duas portas de entrada com arquivoltas e tímpanos intensamente decorados. As arquivoltas assentam sobre onze colunas adossadas; a central e a dos extremos são de mármore branco e as restantes são de granito. Na do centro aparecem as figuras de doze profetas e nas laterais estão representados os apóstolos. Sobre os tímpanos há um grande friso que está separado do corpo superior por uma franja sustentada por cachorros grotescos; neste nível encontram-se duas janelas decoradas com arquivoltas românicas.  No friso central encontra-se a figura de Cristo, com várias outras personagens e diversas cenas; à sua direita há seis pequenas figuras de meninos cantores que pertenceram ao Coro Pétreo do Mestre Mateus e que foram colocados neste pórtico em finais do século XIX.  A disposição original dos elementos iconográficos foi desvirtuada desde que no século XVIII foram introduzidas numerosas imagens da antiga fachada da Acibechería então desmantelada. Num medalhão central aparece o Pai Eterno (ou Transfiguração de Jesus) com as mãos abertas e sobre os arcos do extradorso figuram quatro anjos com trombetas que anunciam o Juízo Final.

No tímpano da porta esquerda aparece Cristo tentado por um grupo de demônios. À direita aparece uma mulher meio despida com uma caveira nas mãos, que pode ser Eva ou a mulher adúltera, sentada sobre dois leões. Nas jambas estão representados Santo André e Moisés. No contraforte esquerdo o rei bíblico David sentado no seu trono com as pernas cruzadas, translúcidas através do fino tecido da sua roupa, e tocando uma viola, personifica o triunfo sobre o mal e é uma obra destacada do românico, esculpida pelo Mestre Estevo, conhecido como o Mestre de Pratarias.  No mesmo contraforte há também uma imagem da criação de Adão e de um Cristo bendizendo. Muitas destas figuras procedem da fachada românica norte, ou do Paraíso, substituída pela atual fachada da Acibechería e foram colocadas no século XVIII.

No tímpano da porta direita há várias cenas da Paixão de Cristo e da Adoração dos Reis Magos. Numa das jambas pode ver-se a inscrição que comemora a colocação da primeira pedra: ERA / IC / XVI / V IDUS / JULLII. A inscrição segue o calendário romano e segundo a contagem da chamada Era Hispânica corresponde a 11 de julho de 1078. Uma imagem, não identificada, com uma raposa que devora uma lebre e outra, frente a esta, com uma mulher mal vestida com um animal no colo, procedem de outro lugar. Na parede da Torre Berenguela, há outras imagens que representam a criação de Eva, Cristo num trono e o sacrifício de Isaac.

Acesso principal da Porta Santa.
Fonte: acervo pessoal.
Ainda há uma última porta emblemática, que vale ser destacada tanto pela beleza arquitetônica quanto pela importância religiosa. A porta santa localiza-se em uma das fachadas da catedral, sendo aberta apenas em anos jacobeus ou compostelanos, 5  vindo a abrir novamente em 2021. Foi construída, ou aberta, no século XVII perfurando a velha parede românica de forma a criar um acesso direto desde a Praça até à cripta, estando a porta ao fundo. É este o "Pórtico de Perdón": é como um painel de pedra que recebe o peregrino, mas não a porta em si que o faz. É chamada popularmente "Puerta de los veintisiete sabios" (Porta dos Vinte e Sete Sábios). Estes vinte e sete sábios são Santiago, os seus discípulos e os vinte e quatro anciães do Apocalipse. A cerimônia de abertura da porta é seguida de uma procissão religiosa conduzida pelo Arcebispo e pelas autoridades políticas, por vezes, o Rei, que se aproxima da porta e pedem ao Apóstolo licença para entrar. O ritual consiste em bater à porta com um grande martelo de prata, que permanece no tesouro da catedral, três vezes, perguntando: "Podem os pecadores entrar na Casa de Deus?".  A porta atual foi oferecida por um grupo de empresários e negociantes de Compostela, feita em bronze, substituindo a parede de pedras que bloqueava o acesso e que era demolida todos os Anos Santos. Como agora se tem uma nova porta, não se sabe como isso vai afetará o velho ritual. O que se sabe é que a decisão de mudar o velho muro por estas suntuosas portas ficou a dever-se a razões estéticas.

Porta Santa vista a partir do interior da catedral.
Fonte: turgalicia.com

Notas:

1. FERREIRO, Antonio López. Historia de la Santa A. M. Iglesia de Compostela. Tomo III. Libro Segundo. Los Tres Primeros Siglos de La Iglesia Compostelana. Parte Segunda. Pág 112. Santiago, Espanha, 1900.

2. De acordo com o Códice Calixtino, o projeto completo contempla 9  naves, sendo 6 pequenas e 3 grandes, 9 torres, 29 colunas, 63 janelas, 3 pórticos principais e 7 pequenos.

3. Ou seja, respectivamente, 90, 66 e 24 metros segundo a conclusão de alguns estudiosos, ou mais especificamente  97, 65 e 22 metros segundo a correção do historiador Lopez Ferreiro. Segundo o arquiteto norte-americano Kenneth John Conant (1894–1984), cuja tese de doutoramento se intitulou “The Early Architectural History of the Cathedral of Santiago de Compostela” ("A história arquitetural primitiva da Catedral de Santiago de Compostela"), esta medida de um status hominis equivale a 1,70 m. Para mais informações a respeito do uso da escala humana em edificações de cunho religioso, ver a tag  COVADO

4. “A ambigüidade com que o Códice Calixtino descreve uma suposta fachada ocidental da catedral anterior à obra de Mateus, assim como a ausência de vestígios arqueológicos ou arquitetônicos dela, levam a concluir que, ainda que seja possível que existisse um projeto, e mesmo uma oficina onde se trabalhasse em peças destinadas a essa porta, a catedral não foi terminada até à construção da fachada exterior do Pórtico da Glória.” Yzquierdo Peiró, 2011.

 5 . Veja as datas dos anos jacobeus: Dia do Apóstolo_Ano Jacobeo no site
http://sant-iagodecompostela.blogspot.com





sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Os dez mandamentos - filme 1956.


            Um filme brilhante. Poucos filmes podem ser igualados à refilmagem de Cecil B. Demille, realizada em 1950, do épico "Os dez mandamentos". Filmado no Egito e no monte Sinai, em um dos maiores cenários construídos para um filme, esta versão conta história da vida de Moisés (Clarlton Heston), favorito na corte do faraó (Yul Brynner), que deu as costas a uma vida privilegiada para liderar seu povo em busca da liberdade.  A vida de Moisés é retratada neste longa,  desde de seu nascimento, quando é colocado em um cesto nas águas do rio Nilo, até quando a princesa egípicia Bithiah o encontra e resolve criá-lo como príncipe. Quando Moisés descobre tudo sobre sua origem, ele dedicará sua vida a libertar escravos e conduzí-los à terra prometida.  


           Todas as passagens bíblicas escritas no livro bíblico do Êxodo são retratadas com primor neste épico, desde o encontro com o Deus Javé no alto do Monte Sinai, passando pelas mágicas advindas do cajado, terminando no ápice da abertura do mar Vermelho "onde os hebreus passaram a pé enxuto".  Da mesma forma, todos os temas estudados nesta semana estarão presentes neste filme clássico, que retrata principalmente a presença do povo hebreu como escravo no Egito, comprovando que determinados conhecimentos certamente os acompanharam quando ganharam a liberdade e passaram a viver na Terra Prometida. 
            A serguir o trecho mais importante do filme: a abertura do mar Vermelho... Bom final de semana.


quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A vara: transmissão de um sistema de medidas através das civilizações.


“ Javé dirigiu-se a Moisés dizendo-lhe: ‘ Fala aos filhos de Israel: que te seja dada um bastão,
                               da parte de cada tribo, ou seja, doze bastões, uma de cada um dos chefes, tribo por tribo.
                               Escreve o nome de cada um, sobre o próprio bastão.  Mas, sobre o bastão de Levi, escreve
                               o nome de Aarão, porque haverá um bastão especial para os chefes da família de Levi.”

                               Bíblia, Números 17, 16-18.

            A figura de Thoth, ou Hermes é representada com um bastão à mão, conhecido como bastão de Argos – na mitologia grega, o bastão que adormeceu o gigante de cem olhos, e libertou a bela Io. 1 O bastão de Thoth tem o formato do bastão egípcio, assim como o bastão do Papa – báculo. Por se tratar de um acessório representativo do Divino, o bastão (também chamado de vara ou cajado em alguns textos sagrados) era o símbolo do comando, e era oficialmente levado pelos chefes no exercício da autoridade.  2
            Sendo um acessório exclusivo das autoridades, era a partir do bastão que se estabeleciam as medidas adequadas aos projetos dos Templos, de forma a preservá-la e manter seu conhecimento exclusivamente aos religiosos e governantes. A unidade de medidas era o côvado, e o bastão utilizado para transpor as medidas na obra tinha um número pré-determinado de côvados, sendo este número aproximadamente de 5,5 côvados.   3   Este número provinha do valor de Pi (p), já conhecido pelos filósofos e matemáticos da época, expresso pela fração 22/7 - os números irracionais eram representados em forma de fração, e foram conhecidos a partir de estudos da diagonal do quadrado - .  Do valor de Pi dividido por 4  (o número de lados do quadrado)  obteve-se a  proporção  5,5, usada na vara sagrada.  Sendo assim, a vara tinha aproximadamente 288,20 centimetros de comprimento, e esta foi a medida utilizada por muito tempo na modulação básica dos edifícios religiosos.
Moisés e sua vara.
Fonte: gift15.blogspot.com
            Com a vara, além do exercício de autoridade, transmitia-se a unidade de medidas dos edifícios sagrados  egípcios.   Do ponto de vista bíblico/histórico,  levando  consigo  o  bastão,  Moisés  (que  viveu  durante  muito  tempo junto ao Faraó)   levou também as medidas sagradas. Posteriormente, o bastão sendo distribuído entre os chefes das doze tribos de Judá,  4  possibilitou o uso desse sistema de medidas na construção do Tabernáculo e do Templo de Salomão embora, nestes casos, a quantidade de côvados fosse diferente da vara egípcia.  5. Ainda com base nos textos da Bíblia, acredita-se que José de Arimatéia depois de cumprir sua missão em Jerusalém  (doando o sepulcro a Jesus Cristo), se dirigiu a região da Gália (nome romano da região hoje conhecida como França), e juntamente com alguns cristãos, edificava igrejas a partir do côvado.
            Dessa forma, o único sistema de medidas conhecido como sagrado (por estar presente nas Escrituras)  ia  sendo utilizado para a construção de edifícios religiosos, permanecendo válido até meados do século XVIII, quando Napoleão, ajudado pela Academia de Ciências da França propõe o uso do metro como referência para as construções da época.

Fontes:

1.  KURY, Mario da Gama. Dicionário da Mitologia Grega e Romana
7ª edição – São Paulo: Editora Jorge Zahar, 2003.2. Bíblia, Êxodo 4, 1-5. 
3. ELLIS, Ralph. Thoth, o arquiteto do Universo: mapas neolíticos da Terra./
tradução de Flávio Lubisco – Rio de Janeiro: Madras Editora Ltda, 2006. c. IV e passim.
4.  Bíblia, Números 17, 16 – 26. 
5. Bíblia, Êxodo 37. Construção do Tabernáculo, I Reis 6 – 8. Construção do Templo de Salomão.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O côvado e sua importância na geometria sagrada.

“Por fim Deus disse: Façamos o Homem à nossa imagem, como nossa semelhança.”
Gênese 1, 26.

“O homem é o modelo do mundo”
Leonardo da Vinci, manuscrito A, 55v.
 Como   explicado,  na  Antigüidade,  o  quadrado   (por   se   tratar   de   uma   figura  com quatro ângulos retos) era desenhado com o auxílio da “corda dos  druidas”.  A  corda  dos druidas era uma corda com treze nós, ou doze intervalos iguais, em  que  se  podia  estabelecer um ângulo reto a partir de um triângulo retângulo, conforme o  teorema  de  Pitágoras  (3,  4  e hipotenusa 5). Os intervalos entre os nós da corda  eram obtidos  a  partir  do  côvado,  medida baseada no comprimento do antebraço do homem – entre a ponta do dedo médio e o  cotovelo. 
 Não se sabe o momento nem o motivo que deu origem ao estabelecimento dessa medida (especula-se que foi determinada pela prática dos povos para vender tecidos) 1,  mas sua presença está marcada  em  inúmeros edifícios  religiosos  da  Antigüidade, bem  como em passagens de livros sagrados como a Bíblia, a Torá e o Alcorão.

             A unidade de uso diário do côvado no Egito era equivalente a 44,9 centímetros de comprimento. Como a maioria dos côvados no  Oriente  Médio,  ele  era  subdividido  em  seis palmos de comprimento, cada um medindo 7,5 centímetros. Anos mais tarde, os gregos instituíram uma medida chamada “pé”, que equivalia a 30 centímetros e conforme os textos clássicos era subdividido em quatro palmos. A convenção normal era que 1,5 pé equivalia a um côvado e, por isso, suspeita-se que o pé grego baseava-se no côvado curto  egípcio,  pois 1,5 pé é igual a 45 centímetros. 2
            Conforme os textos sagrados, o côvado utilizado para as edificações com caráter religioso tinha uma medida especial: “Eis as dimensões do altar, calculadas em côvado, constituídos de um côvado comum mais um palmo: a cercadura tinha um côvado de altura e  um côvado de largura.”   3 . Como um côvado equivalia a 44,9 centímetros, para o côvado sagrado ficou estabelecida a dimensão de 52,4 centímetros. Esta foi a medida utilizada no Tabernáculo, no Templo de Salomão, na Grande Pirâmide e em outros edifícios da Antigüidade, todos projetados com planta ou modulação de base quadrada. Posteriormente os Templários e Maçons resgataram essa medida utilizando-a em algumas igrejas da Idade Média, bem como a figura do quadrado, estabelecida nos textos sagrados.
 A relação entre o quadrado e o côvado está fundamentada no corpo humano. O corpo humano possui como medida 4 côvados na altura, por 4 côvados na largura. O esquema conhecido como Homem Vitruviano (estabelecido primeiro por Vitrúvio no século I ), ficou famoso com Leonardo da Vinci, que evidenciou as figuras do quadrado e do triângulo. A divisão de 4 côvados na altura se estabeleceu da seguinte forma: o primeiro côvado do pé ao joelho, o segundo côvado do joelho ao órgão genital, o terceiro côvado do órgão genital ao mamilo, e o quarto côvado do mamilo ao topo da cabeça. Na largura, dois côvados estão presentes nas pontas dos dedos médios até os cotovelos de cada braço, o terceiro côvado na largura dos ombros, e o quarto côvado pela somatória dos cotovelos até o ombro em cada um dos braços.
Homem vitruviano de Leonardo da Vinci.
Fonte: portaldascuriosidades.com
Quatro são os lados do quadrado, quatro são os côvados na altura do homem; altura igual a largura forma o quadrado, símbolo do material e da Terra. Esta analogia entre o homem e o quadrado determinou seu uso sempre que se pretendia apontar o conflito entre o físico e o etéreo, o céu e a terra, o sagrado e o profano.
 Fontes:
1. in Deuses, túmulos e sábios, C.W. Ceram.
2. in Thoth, o arquiteto do mundo: mapas neolíticos da terra, Ralph Ellis, c. IV e passim.
3. in Bíblia, Ezequiel, capítulo 43, versículo 13.