sexta-feira, 8 de agosto de 2014

A lenda do tesouro perdido, filme 2004

"A lenda do tesouro perdido" (titulo original National Treasure) é um filme de aventura americano, produzido e lançado pela Walt Disney Pictures no ano de 2004. Foi escrito por Jim Kouf, Ted Elliott, Terry Rossio, Cormac Wibberley e Marianne Wibberley, produzido por Jerry Bruckheimer e dirigido por Jon Turteltaub. É o primeiro filme da trilogia "National Treasure", estrelado por Nicolas Cage, Harvey Keitel, Jon Voight, Diane Kruger, Sean Bean, Justin Bartha e Christopher Plummer.


Nicolas Cage interpreta Benjamin Franklin Gates, um historiador e criptologista amador em busca de um tesouro perdido contendo metais preciosos, jóias, obras de arte, além de outros artefatos. Este tesouro faz parte de uma  coleção foi feita   por saqueadores e guerreiros ao longo de muitos milênios,  começando no Antigo Egito, mais tarde redescoberto pelos Cavaleiros Templários, e mais eventualmente escondido por maçons dos Estados Unidos durante a Guerra Revolucionária Americana. A busca segue a partir de um mapa codificado no verso da Declaração de Independência, que mostra os pontos para a localização do "tesouro nacional", mas Gates não está sozinho em sua busca. Quem pode roubar a Declaração e decodificá-lo encontrará o maior tesouro da história primeiro!

Até por se tratar da busca do suposto neto de um maçom, várias cenas apresentam conversas marcadas por simbolismo, desde o "olho" na cédula do dolar americano, até as passagens revelando o interior de edificações egípcias. Vale a pena estar atendo para encontrar os códigos secretos que permeiam o filme. Abaixo, o trailler oficial de National Treasure:


terça-feira, 5 de agosto de 2014

A ordem dos irmãos "pedreiros".

" Se dentro do Compasso ficares, decerto estarás,
livre de um problema que aos demais afligirá."
Mensagem maçônica. 1


           De todas as ordens secretas, talvez a de menor complexidade e maior facilidade de compreensão é a Maçonaria. Diferente das outras ordens cuja origem muitas vezes se perde no tempo ou mesmo na história, a ordem dos irmãos maçônicos se correlaciona com a evolução da arquitetura já que surgiu nos canteiros de obra das mais importantes edificações do período medieval. 2   Nasceu na Europa católica, quando a poderosa Igreja proibia reuniões de pessoas que pudessem questionar ou colocar em risco seu domínio. Assim, para fugir dos inquisidores, grupos da iniciante classe média (intelectuais, artesões e comerciantes) formaram uma espécie de associação secreta, que visava a busca da verdade através da razão e da ciência e não apenas através da fé. 

Ilustração de Rito Maçônico.
fonte: www.google.com

       Segundo estudiosos, a Maçonaria se inspirou na organização dos pedreiros que trabalharam na construção do Templo de Salomão 3 , originalmente erguido no estado de Israel. Para gerir um empreendimento monumental  numa época com poucos recursos tecnológicos ou sistemáticos, criou-se uma metodologia simples e funcional, e para fins de remuneração e obediência os pedreiros foram divididos em três classes: aprendiz, companheiro e mestre.  4   Cada classe tinha um conjunto de códigos e sinais para que se reconhecessem entre si e, para não ocorrer tumultos ou brigas, frequentemente  haviam reuniões onde os mestres conscientizavam a importância do respeito mútuo e ajuda ao próximo para que aquele empreendimento pudesse chegar ao fim.

           Embora não existam dúvidas quanto ao momento histórico que originou a Maçonaria, a simbologia que a ordem utiliza nos textos ou mesmo na decoração de seus edifícios  possui uma linguagem complexa e algumas vezes duvidosa  para os não-iniciados, se apropriando de figuras geométricas e sinais com conotação esotérica  5 , além de gestos e posturas com total coerência ás crenças originais. Das muitas figuras utilizadas pelos maçons, talvez a única figura cuja compreensão é universal é a do “triangulo” que já na Antiguidade Clássica estava ligado a Deus, ou como é mais conhecido pelos maçons, o Grande Arquiteto do Universo. 

Painél com simbolismo maçônico.
fonte: www.google.com

          Mesmo com certa tendência mística a maçonaria é uma organização não religiosa, cujos membros podem ser de qualquer credo, desde que acreditem num único Deus. Apesar de não possuir definição político ou religiosa, a maçonaria sempre procurou interferir no campo político-ideológico, o que faziam ora estar no poder, ora serem perseguidos. Perseguidos na Europa, começaram a chegar ao Brasil no século XVIII, durante o ciclo do ouro.


         No Brasil ou mesmo no exterior, a influência da ordem pode ser notada no panorama de inúmeras cidades, seja pela presença do monumento com a letra “G” em um ponto urbano importante, ou pela imponência do edifício de suas “lojas”.  Se na Europa os símbolos maçons tinham que ser discreto por causa das freqüentes perseguições, o mesmo não acontecia aqui pois desde a chegada dos primeiros maçons – estabelecidos na Bahia em 1807  –  houve total simpatia com a ordem secreta fazendo com que muitos padres participassem como afiliados apesar do mandamento contrário da Igreja – 6 – cujo exemplo urbano  pode ser observado no centro histórico de Paraty, em que os  sobrados cujos proprietários eram maçons possuem faixas repletas de desenhos geométricos de linguagem maçônica.


1. Mensagem maçônica.

2. Segundo o dicionário Michaelis, a palavra ma.çon. nm 1 pedreiro. 2 maçom.
Talvez daí venha a relação da Maçonaria com pedreiros, se apropriando de  alguns símbolos
 relacionados à essa atividade profissional e subvertendo seu papel primário 
para outro com sentido mais místico

3. A inspiração na arquitetura do antigo Templo de Salomão está presente tanto na própria 
decoração das lojas – onde duas colunas erguem-se em lugar de destaque com simbologia 
específica – ou mesmo na estrutura organizacional da ordem – caso do segundo grau, 
cujo painél possui a representação deste templo aludindo à frase bíblica
 “Não sabeis que vós sois o templo?”.  – segundo MacNulty, W. Kirk. A Maçonaria. Simbolos, segredos e significado. Editora Martins Fontes, São Paulo, 212.  p 166

4. Os três primeiros Graus da Maçonaria  - os de Aprendiz, Companheiro e Mestre – 
são os chamados Graus simbólicos e são o fundamento da Ordem Maçônica;
 juntos reúnem todo o ensinamento essencial da ordem.

5. Na Idade Média, a geometria era entendida como um atributo da Divindade.
 Vários manuscritos apresentam a figura de um homem portando um compasso ou
 alguma instrumento de desenho, simbolizando na maioria das vezes o 
Deus Maior projetando o Universo. Essas crenças estavam em sintonia com a concepção maçônica
 do “Grande Arquiteto do Universo”, o principio criativo que governa todas as coisas.  – MacNulty, W. Kirk. A Maçonaria. Simbolos, segredos e significado. Editora Martins Fontes, São Paulo, 212.

6 . O cenário favorável à Maçonaria no Brasil foi algo diferente do que houve em toda a Europa, 
onde a Igreja Católica perseguia os membros afiliados cumprindo a 
Bula Papal do Papa Clemente XII, do ano de 1738. 
MacNulty, W. Kirk. A Maçonaria. Simbolos, segredos e significado. 
Editora Martins Fontes, São Paulo, 212. p 128.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

As ordens iniciáticas e sua influência na arquitetura religiosa e civil.

“A realidade histórica pode ser considerada por dois aspectos.
 Um aspecto concernente a opinião geral – e esse torna-se mais tarde, a história, graças às pessoas que colocam por escrito as informações (...). 
O outro ao contrário, trata-se dos acontecimentos  que não se tornam públicos. 
É o mundo do comportamento das lojas secretas (...)”.
                                                                                  VAN HELSING, Jan. As sociedades secretas e seu poder no século XX.


        Ainda que o século XXI estabeleça outros interesses para a concepção de uma cidade, ou mesmo o sujeito contemporâneo implique em novos programas de necessidades para os edifícios religiosos, não existe como dissociar a importância de algumas ordens iniciáticas na paisagem das cidades modernas.  Embora o uso de algumas edificações datadas dos séculos XV e XVI seja adaptado para nossa sociedade, determinados prédios se sobressaem no panorama urbano, sendo impossível não notar algum traço simbólico em suas arquiteturas.

Detalhe da decoração da fachada de casa em Paraty, RJ
www.paraty.tur.br

           Além disso, embora não haja um interesse revelado da população para com os assuntos espirituais, a forma como o mundo segue sempre desperta na sociedade perguntas cujos “porquês”, algumas vezes, podem ser respondidos por intermédio dos estudos realizados nestas ordens ramificadas pelos antigos cavaleiros Templários, denominadas na modernidade como rosacruzes, maçons ou outras nomenclaturas cuja origem se deu neste primeiro momento de troca de informações entre o Oriente e o Ocidente. E mesmo existindo divergências sobre a criação destas ordens secretas, não há duvida quanto à contribuição que as viagens ao Oriente trouxeram na literatura básica destes movimentos, refletindo diretamente no simbolismo, espiritualidade e na arquitetura produzida sob orientação de seus adeptos. 2

Detalhe do piso da Catedral de Chartres, França
 http://www. forgottendm.blogspot.com

           Independente do caráter secreto destas ordens ou mesmo da fama negativa criada pela repulsa da Igreja Católica para com os membros iniciados, o intuito dos artigos apresentados nos próximos posts não é de traduzir os símbolos mas desmistifica-los, revelando seu uso mesmo que intrínseco em algumas igrejas com decoração emocionante, ou na arquitetura civil de algumas cidades. Neste período de quebra dos conceitos pré-estabelecidos pelas religiões fundamentalistas, algumas abordagens com caráter mais acadêmico e menos místico são importantes para analisarmos as edificações que nos “tocam”, entendendo a correlação entre todos os movimentos religiosos e principalmente que o progresso em muitos momentos só foi possível graças à liberdade intelectual que as ordens secretas proporcionava aos seus adeptos.


1 – Como responsável pelo “arqsagrado”  e estudioso de arquitetura religiosa, reforço a simpatia e o respeito por todas as religiões, e a preocupação em conhecer a maior parte da bibliografia criada com temas que estejam relacionados ao assunto principal deste blog.  Embora o autor alemão Jan Van Helsing seja algumas vezes considerado “xenofobista” em suas abordagens, o trecho foi reproduzido apenas porque era adequado à introdução deste artigo, não compactuando com qualquer citação do autor que soe preconceituosa.

2 – Sobre as origens da AMORC Rosa Cruz: “(...) Houve uma época em que se acreditava que a origem dos rosacruzes não fora anterior ao século 17, época em que a Ordem ressurgiu em um novo ciclo de atividades na Alemanha, e que seu nascimento tradicional se situava em algum período da era cristã. Documentos históricos, manuscritos e referencias autênticos, descobertos no século 19 recuaram a verdadeira origem e existência da Ordem até o chamado período tradicional: seu nobre nascimento remonta ao Antigo Egito, há mais de trinta séculos. Trechos desta fascinante história foram divulgados pela primeira vez na revista American Rosae Crucis, em 1916.”. 
Revista O RosaCruz, 4° Trimestre de 2008, por Clarice N.V. Pessoa. 
Sobre a Maçonaria: “ A origem da Maçonaria é sempre um dos maiores enigmas da histórica. O oficio operativo dos pedreiros medievias, os Cavaleiros Templários, os arquitetors e artesãos que construíram o Templo de Salomão, até os Mistérios do mundo antigo – todos foram apresentados como possíveis originadores da Ordem.
 Estudos mais recentes, porém, demonstraram que boa parte da fundamentação filosófica surgiu no Renascimento, 
quando a uma curiosa fusão de tradições místicas como as da Cabala e do
 Hermetismo veio sobrepor-se uma estrutura simbólica derivada das corporações de ofícios medievais.” 
NULTY, W. Kirk Mac. A Maçonaria, símbolos, segredos e significado. Editora Martis Fontes, São Paulo, 2012.


segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A arte sacra de Romolo Picoli Ronchetti


De família capixaba religiosa, foi preciso ingressar no seminário para reconhecer sua grande vocação no serviço à Igreja Católica! Em entrevista ao ARQSAGRADO, o artista sacro Romolo Picoli Ronchetti fala sobre o que pensa a Igreja Católica Contemporânea sobre a arte, e os novos rumos da estética religiosa do século XXI.
Romolo trabalhando no painél do altar da Igreja Paroquial N.S. de Sabara.
Dioces de Santo Amaro.
 
1 – Seu trabalho carrega traços que revelam seu grande conhecimento na doutrina cristã-católica. Como aconteceu essa aproximação com este tipo muito particular de arte?
 
A vida de quem se deixa conduzir por Deus toma muitas vezes rumos para muito além de nossa imaginação! Quando eu estava terminando o Ensino Médio numa pequena cidade da zona rural do Espírito Santo (Marilândia), meu objetivo era estudar Física ou Matemática no Ensino Superior, e eu estava me preparando para isso... Inesperadamente um padre com tradições monásticas muito fortes assume a paróquia, e ao visitar minha família, convida-me para passar alguns dias, juntamente com outros jovens, em retiro de oração e meditação. Essa experiência foi decisiva na minha vida, e ascendeu em meu interior um interesse muito grande pela espiritualidade: decidi entrar no seminário! Incentivado por dois amigos, que hoje são padres, vim parar em São Paulo com 16 anos, para cursar o primeiro ano de Filosofia na Diocese de Santo Amaro, onde fiquei até quase terminar a Teologia. Saí do seminário e fui morar com o Pe. Samuel Pereira Viana, que considero o grande incentivador do meu trabalho. (...) Intelectual de primeira grandeza, iniciou-me no mundo da arte colocando-me para pintar uma Virgem com o Menino. (...)  Daí por diante eu comecei a estudar História da Arte por conta própria e por incentivo desse padre comecei a arriscar algumas pinceladas! Nesse ponto todos os processos da minha vida fazem sentido: deixei as Exatas para dedicar-me às Humanas; entrei no seminário e tive contato com a Liturgia, Direito Canônico, Teologia; fui morar numa paróquia e comecei a pintar.  E aqui estou eu, usando os conhecimentos teológico-litúrgicos para servir à Igreja e melhorar a cada dia meu trabalho como artista sacro.

Detalhe do painél da Paroquia de Santa Luzia, onde o artista
imprimiu sua propria estética.
2 – Dentre todos os murais que você já desenvolveu, qual foi o mais importante e por quê?
Para todo artista o melhor trabalho que ele já realizou é sempre o último. Para não deixar a pergunta numa vazia curiosidade, cito como um trabalho muito importante pra mim o que realizei na Paróquia Santa Luzia, Diocese de Santo Amaro. Todo artista sempre começa como copista de outro, e assim também se deu comigo, e cito esse mural, pois nele eu arrisquei todas as minhas fichas elaborando um trabalho particularmente meu. Esse trabalho é muito querido porque foi nele que apresentei o meu estilo, meu traço, minhas cores ao mundo e onde consegui realizar o objetivo da arte sacra: a transcendência e a veneração. Essa igreja fica num bairro muito castigado pela desigualdade social, mas quando se entra na igreja a impressão que se tem é de estar em outro mundo.  A atmosfera é outra, todo o espaço convida à oração e ao encontro com o Sagrado. Ali não existem diferenças, existe Unidade, consigo mesmo, com o outro,e com o Sagrado.
 
Detalhe do painél da Paroquia de Santa Luzia, onde o artista
imprimiu sua propria estética.
 
3 – Quem são seus mestres? Onde você busca referencias ou inspiração para a elaboração de seus painéis?

O único artista que até hoje foi capaz de criar a partir do nada é Deus, todos os outros são produtos do meio, da época, do subjetivo! Meu trabalho não seria diferente. Sou profundo admirador de dois grandes artistas brasileiros e tenho muitas influencias deles na cor e no traço: Cláudio Pastro e Lázaro Aparecido Diogo. Eles são os verdadeiros pais da minha arte. Mas devo confessar a influência muito clara que tenho da Antiguidade Cristã, da iconografia clássica: todo o figurativo do meu trabalho é uma releitura, uma inspiração na imagem de tradição iconográfica. Faço assim por ter a convicção de que esta tradição representa muitíssimo bem o Humano no âmbito da arte sacra, estando bem posicionada entre o real e o ideal; não é uma abstração nem um realismo, esta exatamente entre o Céu (o Sagrado, o Espiritual, o desprovido de formas) e a Terra (o humano, o carnal). Na composição dos meus trabalhos, uso ainda estudos particulares de outros dois artistas que admiro: Van Gogh (nas cores e na força da pincelada, na ausência de medo e sem pretensão de agradar)  e Portinari ( na desconstrução do espaço, na geometrização, na expressividade).
Tendência à verticalidade na obra de Romolo P.Ronchetti.
Painél da Igreja N.S. do Sabara, na Diocese de Santo Amaro.
 
4 – As forma de arte que você desenvolve nos traz referencias na arte bizantina, pela longevidade dos rostos e tendência á verticalidade por intermédio das formas geométricas, sejam retângulos ou elipses. As primeiras representações deste tipo, aqui no Brasil, segundo meu conhecimento foram elaboradas para igrejas ou capelas de ordens jesuíticas. Algumas ordens são mais abertas a este novo tipo de pintura mural, outras mais fechadas. Isto é realidade ou um mito? A Igreja Católica por completo está aberta ao “novo”, no que diz respeito às novas tipologias arquitetônicas ou artísticas?
 
Em toda a História, a Igreja sempre foi a grande incentivadora das Artes e das Ciências, mas também nunca pôde pôr de lado a Moral e a Teologia. Hoje o mesmo se dá: a Igreja incentiva a arte contemporânea, mas nem tudo serve como arte sacra.(...) Assim como qualquer instituição séria, a Igreja possui princípios e normas, e no que diz respeito à arte eles não são nem um pouco rígidos,  e a partir deles dá para afirmar que todo artista sacro é um artista plástico, mas nem todo artista plástico é um artista sacro! Toda a Arte Sacra Cristã tem uma razão de ser, ela brota da Revelação e esta a serviço da Liturgia, portanto a forma não pode estar desprovida de conteúdo e o artista deve ter um conhecimento teológico, bíblico, para que seu trabalho não seja um corpo sem espírito. Existem sim, alas conservadoras que vivem da reprodução do passado artístico, mas de uma forma geral, a Igreja está aberta ao 'novo'. Contudo não podemos cair na ilusão de pensar que ele pode ser qualquer coisa, precisa ser condizente com o espírito da Instituição, com sua missão: se nas formas do 'novo' estiver o conteúdo da Revelação, a Teologia Cristã, o espírito Litúrgico, certamente haverá o reconhecimento, a Verdade, a presença do Invisível, a veneração; e aí certamente a Igreja irá acolher e incentivar como Arte Sacra.  Existem, evidentemente, escolas, faculdades, instituições que são de iniciativa de Ordens Religiosas Católicas que incentivam a produção da Arte contemporânea nos mais diversos setores (moda, arquitetura, artes plásticas, artes cênicas, arte digital...) mas nem tudo que é produzido serve para ser Arte Sacra.
 
Detalhe do painél na Igreja Paroquial do Sagrado Coração de
Jesus, em Boiçucanga.
 
 5 – Muitas vezes o trabalho mural pode ser encarado como mera decoração do interior de igrejas. Contudo, os novos projetos dos templos católicos são tão complexos que a referencia ao sagrado fica difícil de ser reconhecida se não pelo contato com a pintura ou arte decorativa. Em algumas igrejas, a estatuaria foi substituída por decorações nas paredes, bem à maneira das igrejas ortodoxas, ou mesmo de paredes islâmicas ou hindus. Como você entende a importância de sua arte neste período em que o interior das igrejas está sendo “desnudado”?
 
O trabalho mural nos templos cristãos sempre teve uma função pedagógica e catequética: por meio da imagem ensina-se algo da Revelação de Deus, ou da vida eclesial.  A falta do reconhecimento que você denuncia nessa questão esta justamente na ausência do conteúdo  como elemento primordial na arte autenticamente sacra. Algumas igrejas têm formas muito boas, complexas, mas carecem de conteúdo, não possuem referência ao sagrado, são apenas fruto de uma técnica muito rebuscada em que o objetivo é a autoafirmação de um ego idolátrico.
 
Quanto ao desnudamento no interior do espaço sagrado observado hoje, ele é fruto de uma busca do Centro. Com o passar do tempo os templos cristãos foram tornando-se palco de manifestação de uma religiosidade subjetiva, devocional; fiéis e clérigos piedosos –  bem intencionados, mas mal orientados e com gosto duvidoso – foram enchendo  as igrejas de imagens de santos, Madonas, anjos, rendinhas, paninhos, flores artificiais e a lista prossegue assustadoramente, tudo isso desordenadamente! Hoje o que vemos nas reformas e construções de novas igrejas, é a referência primeira que dá vida e força para uma autêntica vida eclesial, que dá sentido à vida espiritual. O mundo moderno é cheio de informações, imagens diversas; o templo deve ser o lugar da transcendência, o lugar do Encontro, do Reconhecimento, e nesse sentido o Vazio é visto como o lugar onde habita o Sagrado. No Espaço Sagrado tudo é meticulosamente planejado para não se perder justamente o Centro: Jesus Cristo, o centro e a plenitude da Revelação de Deus; o rosto humano pelo qual Deus se mostra ao Homem. A partir desse Centro que todos os elementos devem ser organizados . Agora, quando o 'desnudamento' não é seguido de uma nova 'roupagem', ou seja, quando a retirada das imagens tem por objetivo o Vazio por ele mesmo, não esta condizendo com os princípios cristãos da arte, pois a arte cristã tem seu centro no Deus que se fez Homem, e não no Deus invisível do Antigo Testamento. Por isso, a importância que vejo no meu trabalho nesse processo atual de 'desnudamento', é dar a 'roupa nova', é tirar o velho e pôr algo novo no seu lugar, é ressaltar o que realmente é o Centro, o Foco , no culto e na vida eclesial. Entendo que um templo vazio e carente de referências simbólicas, é como um homem diante de várias opções de caminhos: sem saber aonde quer chegar, qualquer lugar leva a lugar nenhum. Meu trabalho é mostrar o caminho, é convidar à oração, e facilitar a liturgia.
 
Mural na Paróquia de Nossa Senhora Aparecida, em São Carlos.
6 – Seu trabalho contribui muito para situar determinadas igrejas em um contexto arquitetônico mais contemporâneo, haja vista as intervenções em edificações de meados do século XX.  Você já foi alvo de criticas por parte de grupos mais tradicionalistas da igreja?

As críticas sempre existem, e muitas vezes nos fazem crescer. Sou constantemente alvo de duras críticas, mas todas elas são as chamadas 'críticas de gosto' ,  particulares, e não de grupos . Estão sempre no nível do subjetivo, do gosto sem justificativa: não gosto de vermelho, não entendi esse monte de quadrados, esse anjo tem asas muito grandes!  As críticas mais teóricas, feitas por pessoas que defendem no nível mais conceitual determinados estilos de arte ainda não chegaram ao meu conhecimento e quando chegarem certamente vou utiliza-las para o crescimento do trabalho que faço.
 
Painél da Comunidade de Santa Rita de Cassia.
 
 7 – Quais são seus novos desafios? Existe algum trabalho ou algum ícone religioso que você deseja pintar ou esculpir futuramente?

Trabalhar com Arte Sacra já é por si mesmo um grande desafio! Deixar de lado a autoafirmação para poder desenvolver um trabalho sólido, com conteúdo, guiado pelo Espírito Santo é sempre uma tarefa árdua! Podem considerar espiritual demais nessa afirmação – em alguns momentos até concordo que seja! –, mas se o artista sacro não tem intimidade com o objeto de sua arte, se ele não tem vida espiritual, dificilmente conseguirá desenvolver um trabalho que leve o espectador à experiência do sagrado. E aqui faço uma revelação em tom muito confessional: sabe qual é o grande desafio , diante do qual eu sempre tremo? Pintar o rosto de Cristo! Pra mim é sempre uma responsabilidade muito grande tornar visível o Rosto do Amor, o rosto diante do qual muitos vão derramar suas lágrimas pedindo ajuda, diante qual doentes vão pedir a cura para suas doenças, pessoas deprimidas vão buscar consolo, mães vão rezar pelos seus filhos! Confesso, sempre paro e fico muito tempo em silêncio , percebo  o quanto sou indigno de realizar essa tarefa, é onde acredito piamente na força do Espírito Santo, pois sem Ele meus Cristos estariam todos com o rosto em branco...

Cristo. Painél da Paróquia de São João Maria Vianney, Santo Amaro

8 – Finalizando, pediria a você um conselho para os leitores do blog que admiram sua arte e pretendem desenvolver um trabalho da mesma importância para trazer cada vez mais a religião católica aos tempos atuais.

O conselho que dou para quem quer desenvolver um trabalho autenticamente sacro é educar o olhar e preparar o espírito: estudar História da Arte Sacra Cristã, ver como a arte foi feita e como se desenvolveu na história, seus símbolos frequentes, como a forma e o conteúdo se harmonizam. Estudar liturgia, seus tempos, seus movimentos, seus gestos e símbolos. Ter contato com a Palavra de Deus e com a Teologia, sem elas não existe Arte Sacra ; cultivar uma vida de oração saudável, ela ajuda muito a técnica desenvolver-se. Colocar a Arte Sacra Cristã para dialogar com a cultura contemporânea não significa abandonar a Tradição, esquecer o passado, deixar de lado os próprios princípios e símbolos, mas sim, usar o que de melhor existe na contemporaneidade para melhor exprimir o Mistério de Deus, que está sempre para além dos conceitos, fórmulas, teorias, estruturas, mas sempre acessível pela Arte!

Projeto para a fachada externa da Paróquia de São Paulo, Diocese de Santo Amaro.

 Para saber mais sobre o trabalho de Romolo, clique aqui

sexta-feira, 23 de março de 2012

Santuário de Nossa Senhora Aparecida, Aparecida, SP.

Durante a semana o  ArqSagrado apresentou um projeto e uma entrevista do arquiteto e artista plástico Claudio Pastro, profissional super conceituado em nosso país no que se refere á arquitetura católica. Seguindo esta tendência, a dica do final de semana é um passeio ao Santuário de Nossa Senhora Aparecida, na cidade de Aparecida, distante 160 km de São Paulo.
Detalhe do interior da Basílica de N.S. de Aparecida
O projeto da grandiosa Igreja vinha sofrendo adaptações ao longo dos anos, a fim de criar a estrutura física ideal para comportar milhares de peregrino. Contudo, devido à urgência dos serviços de arquitetura, muitas vezes o simbolismo cristão-católico vinha se perdendo em tamanho gigantismo que a obra tornara-se. Foi aí que entrou em cena Claudio Pastro, enchendo as paredes com painéis simbólicos e organizando pontos estratégicos na Igreja, trazendo beleza ao lugar. Vale a pena ver de perto o trabalho deste grande arquiteto.

Detalhe do interior da Basílica de N.S. de Aparecida.
Agora, se voce não pode se deslocar até a cidade para ver de perto o Santuário de Aparecida, vale a pena assitir ao filme "Aparecida, o milagre", de 2010. Na história, um grave acidente coloca a vida de Lucas em perigo e leva Marcos (Murilo Rosa) a reviver traumas da infância, evocando a sua ruptura com Nossa Senhora Aparecida, a quem responsabiliza pela morte do pai. Desesperado diante da possibilidade de perder o filho, Marcos revive não só a sua história como também a história do surgimento de Nossa Senhora Aparecida, a Padroeira do Brasil. Além do roteiro emocionante, algumas cenas mostram o interior do Santuário, já com trechos restaurados pelo arquiteto que estamos abordando nestes dias.
Abaixo o trailler do filme. Bom fim de semana!

quarta-feira, 21 de março de 2012

Arquiteto e artista plástico pede responsabilidade dos bispos na promoção do "Belo".

 «A perda do sentido de beleza na Igreja Católica (ora romântica, ora muito racional,
 ora show popularesco) revela-nos a perda do sentido do Sagrado»,
afirma Cláudio Pastro.
 
Maior nome da arte sacra no Brasil e reconhecido mundialmente (responsável pelo projeto artístico de 300 igrejas, capelas e catedrais no país e no exterior, em 33 anos dedicados à arte sacra), o artista plástico e arquiteto natural de São Paulo conversou com a Agência Zenit sobre o lugar fundamental que a beleza ocupa na Igreja.
 
Cláudio Pastro lançará no próximo semestre o livro «O Deus da Beleza» (Ed. Paulinas), onde amplia as discussões sobre o assunto. A FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado) realizará em São Paulo, em 2009, uma grande exposição do trabalho do artista, intitulada «Arte sacra contemporânea».
«A beleza tem um sentido objetivo: “é ou não é”, e independe do meu (subjetivo) parecer, do meu gosto. Assim, podemos afirmar: “gosto não se discute, se educa”», comenta Pastro na entrevista.
Altar central na Basílica de Nossa Senhora de Aparecida, Aparecida. SP
Obra de Claudio Pastro.
--A arte e o cuidado com a beleza na liturgia e na composição dos espaços sagrados são muitas vezes tratados como algo acessório. Mas esses elementos são apenas isso?
--Cláudio Pastro: A arte é a linguagem fundamental de todas as religiões, pois a arte é a única palavra (imagem) universal a todos os homens. Tratar a beleza como algo acessório na liturgia e no espaço sagrado é desconhecer o que é beleza, liturgia e sagrado. Hoje, há uma crise na beleza porque a crise está na religião. A religião não dá pistas, não é referência para o homem contemporâneo, pois vive-se fora e dentro dela com os mesmos princípios e expressões.
“A Verdade, o Bem e a Beleza são três lâmpadas ardentes de fogo e uma não vive sem a outra” (Dionísio, o Areopagita, séc. V). No cristianismo, como no judaísmo e no islamismo, “Deus é a Beleza” entendida nessa trilogia, e a beleza (a verdadeira e justa) só aflora, só se manifesta a partir do ser mesmo de Deus. Considerar a arte e a beleza como supérfluos, decorativos, “a mais” é não ir ao fundo d’Aquele que dizemos contemplar. Luxo e moda nada têm a ver com religião.
Um exemplo a comentar: participei de uma Missa para comemorar os 15 anos de uma jovem. (Essa não é a função da Missa). O Altar mais parecia um bolo de noiva de tão enfeitado. (Pergunto: o que é o Altar?). Ainda mais, as músicas eram tiradas de “novelas” e a jovem vestia-se como donzela em busca do príncipe encantado. O presidente da celebração (o padre), muito perdido, referia-se exclusivamente à jovem como sendo ela “uma deusa” etc. etc. Sentia-me num programa de calouros de TV. O objeto, o centro da Divina Liturgia desaparece. Havia aí uma evidente mentira. Tudo estava fora de lugar. (Pergunto: o que é Liturgia? O que é o sagrado?). O que determina a beleza é o Único Belo, Aquele que faz a vida bela.
Em todas as religiões, o monaquismo, a vida “fechada” nos Mosteiros e sua Liturgia desinteressada têm sido um celeiro de beleza e louvor, uma antecipação da promessa de Paraíso (Eternidade) e, depois, saindo dessa celebração, o crente poderá enfrentar a Babilônia da sociedade. Hoje, sobretudo os Mosteiros cristão (mais os masculinos) estão em crise também.
Arte e religião são elementos gratuitos e celebrativos e não teatro, cenário, comércio... Aqui é bom lembrarmos Gogol (o literato russo): “o diabo também se traveste de beleza”.
--Há uma perda da sensibilidade para a beleza dentro da Igreja Católica e sua liturgia? Por quê? Como tentar revertê-la?
--Cláudio Pastro: Hoje, a perda do sentido de beleza na Igreja Católica (ora romântica, ora muito racional, ora show popularesco) revela-nos a perda do sentido do Sagrado, da identidade religiosa e de unidade (não uniformidade) dentro da próprio Igreja.
A sensibilidade estética e epidérmica na Igreja está ao serviço do Belo que tudo e a todos embeleza ou é apenas “beleza por beleza” com outros fins.
A beleza tem um sentido objetivo: “é ou não é”, e independe do meu (subjetivo) parecer, do meu gosto. Assim, podemos afirmar: “gosto não se discute, se educa”. O sentido de beleza está intimamente ligado ao sentido de Sagrado. Um não vive sem o outro. E o Sagrado como a beleza se impõem, não dependem da minha pobre sensibilidade psicológica e de meus arranjos.
Para o Sagrado se revelar em beleza (verdade, justiça, certeza, prazer, entusiasmo, admiração, estupor, amor... e consequentemente as pessoas desejarem frequentar a Igreja), há um preço inerente ao ser da religião: só a oração objetiva (cuidado com os devocionismos subjetivos), a ascese, a disciplina, a contemplação, a adoração, a escuta da Palavra, a vida batismal, eucarística e evangélica nos darão discernimento para revelarmos o que somos e fazemos (e isso não só na caridade mas no profissionalismo dos ministérios, na arquitetura, arte etc.).
Grande problema da Igreja Católica tem sido a desobriga: se faz por obrigação, por “direito canônico”, com tédio e marasmo.
Regra geral, hoje não se faz arte sacra (arte sacra não é arte religiosa). A arte sacra é apenas um nome. A fealdade, a mediocridade, a vulgaridade, o desgosto são hóspedes em muitas de nossas igrejas e capelas, quando aí deveria habitar “a Beleza”, referência para o mundo. A arte sacra como o Sagrado não se definem pelo comércio; arte sacra é o esplendor, a glória do Sagrado entre nós.
Quero citar aqui o grande artista cristão, monge dominicano, beatificado pelo Papa João Paulo II, Frá Angélico. Ele nos diz: “para fazermos as coisas do Cristo é preciso pertencer ao Cristo”. O olhar cristão é o olhar do Cristo ou...
--Qual é o papel dos bispos na promoção da beleza e do cuidado com a liturgia e os espaços sagrados?
--Cláudio Pastro: Recentemente eu traduzi e a Ed. Loyola publicou um belo documento da Igreja: a “Via Pulchritudinis” (O Caminho da Beleza). Esse documento é fruto da Assembléia Plenária dos Bispos no Vaticano em 2006. Nele percebemos que a Igreja começa, novamente, a despertar para as manifestações de beleza que ela própria ao longo dos séculos testemunhou pela arte, a beleza do ser cristão e do Cristo, “o mais belo dos filhos dos homens” (Sl 44, 3).
O papel dos bispos continua a ser o mesmo em dois mil anos de história: são pastores que zelam com amor pela “Esposa do Amado”. Que a formação do clero e dos fiéis não seja apenas livresca e pastoral, mas íntegra: “corpo, alma e espírito”. Percebo que os próprios bispos, advindos do clero, não são bem formados. Muitas vezes predomina nesse meio o jogo de poder, o carreirismo, os aplausos... mais que o próprio ministério, isto é, o serviço.
Em toda Igreja, hoje, sente-se a falta de espiritualidade (que não é devocionismo) que forma o ser cristão por inteiro. Assim, podemos afirmar, a beleza da liturgia e dos espaços sagrados não é acessório da última hora, para produzir efeitos, nem tão pouco fruto de especialistas em luz, som, técnica, arquitetura, arte simplesmente, e menos ainda de mercado e moda, mas o resultado da acolhida do Espírito da Beleza, o desabrochar de uma vida verdadeira.
Notas:
Trecho da entrevista dada a Alexandre Ribeiro, em 27 de julho de 2008.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Capela Beato José de Anchieta, exemplo de boa arquitetura católica contemporânea


Considerado um dos principais pontos históricos da cidade de São Paulo, o Pátio do Colégio – do latim Patteo do Collegio –  está aí para apresentar as origens desta metrópole,  cujas marcas estão claramente fixadas no encontro de raças e na expansão do cristianismo.

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Patteo do Collegio, março de 2012. Foto: Bruno Ribeiro.



Antecedentes históricos:
Sob os olhares curiosos dos Guainás e Tupiniquins, um grupo de treze padres da Companhia de Jesus, da qual faziam parte José de Anchieta e Manoel da Nóbrega, escalaram a Serra do Mar chegando ao planalto de Piratininga. Reuniram-se em torno de uma cabana construída pelo cacique Tibiriça, e ali celebraram a famosa missa de 25 de janeiro de 1554.
A humilde cabana de pau-a-pique, cujas paredes eram feitas com uma armação de paus e cipós preenchida de barro socado,  abrigava também um seminário e uma escola. Nela, José de Anchieta  iniciou seu trabalho como educador de nativos, mais conhecido como catequese. Em 1556, o padre Afonso Brás, precursor da arquitetura brasileira, foi o responsável pela ampliação da construção original,que recebeu oito cubículos para servir de residência aos jesuítas.
Tempos depois  um novo conjunto de colégio - onde foram instalados os primeiros cursos de filosofia, teologia e artes e uma biblioteca e capela - foi construído com a volta dos jesuítas em 1653 ocupando uma área de 1.1502,52 m2. Para essa construção foi utilizada uma técnica mais aprimorada, a taipa de pilão.  Mais uma ampliação, e o Colégio foi incorporado ao edifício principal em uma ala perpendicular na lateral direita, no ano de 1745. Os jesuítas foram expulsos novamente, por decreto do Marquês de Pombal em 1759, com repecurssão mundial que resultou na supressão da Companhia de Jesus, que só seria recobrada no ano de 1954. Isso provocou uma completa alteração em tudo que havia sido feito até então.
O governo então se apropriou dos bens da Companhia de Jesus e o antigo casarão colonial foi completamente descaracterizado por profundas reformas até se transformar no Palácio dos Governadores no período entre 1765 e 1908. Foi nessa época também que a igreja perde seu precioso patrimônio como consequência de um desmoronamento de causas desconhecidas.
Entre 1932 e 1953, o então Palácio do Governo foi  transformado na Secretaria da Educação o que de certa forma, deu ao edifício uma função mais próxima de sua vocação original. Finalmente, o ano de 1954 marcou a retomada do projeto original. A Companhia de Jesus recebeu de volta as instalações e deu-se início à reconstituição do Colégio, nos moldes da terceira construção , permanecendo remanescentes a Cripta, parte de uma parede em taipa de pilão e o antigo torreão.


Capela com as relíquias do Beato José de Anchieta, localizada dentro da Igreja. Foto: Bruno Ribeiro.
                                          
O restauro comprometido com a liturgia católica:
Em meados de 2009, foi realizada uma reforma no interior da Igreja do Beato José de Anchieta,  onde o artista sacro Cláudio Pastro realizou modificações que resgataram as linhas do barroco. As mudanças foram pensadas teologicamente para que a arte estivesse em função da liturgia. Após o término desta reforma, no dia 24 de Outubro de 2009, o Cardeal Dom Odilo Scherer  fez a dedicação do novo altar e abençoou a Igreja.
A primeira etapa da reforma foi realizada no presbitério. O altar de madeira folheado a ouro do século 19 foi substituído por uma peça maciça de granito vermelho de duas toneladas. O retábulo, um grande arco de seis metros, ganhou um painel de azulejos dourados. Na sua frente, suspenso por um cabo de aço, um crucifixo de madeira do século 17. 


Presbitério. Nota-se a preservação do madeiramento da abóbada do teto, bem como das aberturas que
faziam a comunicação com o claustro. Inovação no
retábulo e no mobiliário do altar. - Foto: Bruno Ribeiro.

                                                               "Fiz uma releitura do barroco na linguagem atual. Por conta disso, os azulejos, uma tradição das igrejas ibéricas, são dourados. Os retábulos das antigas igrejas barrocas eram de ouro", explicou o artista plástico Cláudio Pastro, autor do projeto.  
Presbitério: sédia e altar em granito vermelho. Foto: Bruno Ribeiro.
                                              
O piso de granito cinza foi substituído por granito vermelho. A sédia, onde o padre permanece sentado durante a liturgia, se restringiu a uma peça maciça de granito vermelho, de 1,5 tonelada. "O Concílio Vaticano II estabeleceu, na década de 60, que o mobiliário seja de pedra, como uma forma de voltar às origens. A capela ficou mais “clean”. “A estética é teologicamente pensada para que a arte esteja em função da liturgia", disse o padre da capela, Carlos Contieri, confirmando que as alterações do arquiteto estavam de acordo com as normas da Santa Sé.


Nave da Igreja. Nota-se das aberturas e o resgate de soluções que proporcionam o culto à maneira antiga, com a interação do sacerdote
no meio do povo. À esquerda está a pia batismal e à direita o ambão.
Foto: Bruno Ribeiro.

 A segunda etapa da reforma se realizou na nave, onde ficam os fiéis. As paredes laterais ganharam  painéis de azulejos brancos e azuis, que remetem ao estilo português, e contam a história do padre Anchieta. A pia batismal e o ambão (de onde são feitas as leituras da missa) também são de granito.  
Ambão em granito com acabamento flameado. Foto: Bruno Ribeiro.
                                               
Pia batismal. Nota-se a intenção emocional na concepção do formato da
pia batismal, como um poço com uma rocha em acabamento rústico
de onde jorra a água. Foto: Bruno Ribeiro.

 
Pia batismal: detalhe da fonte.Foto: Bruno Ribeiro.

 O projeto de restauro da capela foi algo de inúmeras criticas. No entanto é importante saber que a igreja atual, construída em 1979, é uma réplica da antiga, que foi demolida. "Como o imóvel não é tombado, ele não tem valor histórico e pode ser reformado", afirmaria  Percival Tirapeli, professor de Arte da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em artigo sobre o restauro. Já para o professor de História da Arquitetura da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), Benedito Lima de Toledo, a mudança descaracterizou a igreja. "Deveria ser mantido o estilo das igrejas jesuítas, que se caracterizavam pelo despojamento. A arquitetura paulista era simples porque São Paulo era pobre." 1. 


As naves laterais foram decoradas com azulejos que contam passagens bíblicas ou momentos da vida de José de Anchieta. Foto: Bruno Ribeiro.

Detalhe do Sacrário, também de autoria do arquiteto. Foto: Bruno Ribeiro.

Polêmicas a parte, visitar esta capela foi muito importante para mim nestes dias que escrevi sobre a Igreja Católica. Sou adepto da modernidade nas construções religiosas, mas creio que o simbolismo e algumas características importantes para o culto devem ser levados em conta, no momento do projeto, e foi isso que identifiquei no traço de Claudio Pastro. Fica aqui minha dica para que novos arquitetos conheçam esta obra, e que sejam inspirados pela boa arquitetura religiosa na hora de se aventurarem neste campo sagrado.

Notas: