quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Arquitetura simbólica Bahá’i

“Diz o Grande Ser: Ó bem-amados! Ergueu-se o tabernáculo da unidade; não vos considereis uns aos outros como estranhos. Sois os frutos de uma só árvore e as folhas do mesmo ramo. “
Ensinamento Bahá’i. 1

Na contemporaneidade, a decadência das religiões fundamentalistas gerou a dessacralização dos símbolos considerados divinos na arquitetura. Em tempos de conflitos e divergências nos dogmas das religiões, os novos programas de necessidade exigem o minimalismo e a escassez de simbologia na arquitetura religiosa, a fim de não mais confundir os fiéis. Neste cenário  a-religioso, os edificios mais magníficos cujo projeto partiu do uso de números ou geometrias  sagradas são projetados para usos profanos, em geral complexos edificios com volumes rigorosamente diagramados para vencer alturas inimagináveis, como as Torres Petronas, na Malásia. 2
Torres Petrona, Malásia. 2
fonte: http://www.wikipedia.com/
 Na contramão da simplista produção arquitetônica religiosa estão os templos da Fé Bahá'í. Na simbologia Bahá'í, a geometria adorada é a mais complexa existente, estrelas e polígonos obtidos a partir dos números 8 e 9,  constantemente   representados já na planta arquitetônica de seus edifícios.
A estrela de oito pontas é utilizada com sua simbologia original, diferente de seu siginifcado no projeto das Torres Petrona. Ainda que apenas nos detalhes decorativos do Centro Mundial de Haifa, no Monte Carmelo, o resgate desta intrincada geometria neste projeto foi suficiente para propagar seu uso em outros edificios religiosos atuais, recordando principalmente a cultura e a arquitetura do islamismo.
O número nove representa para muitos o número da perfeição. Diferente do significado da estrela de oito pontas, a  estrela de nove pontas, não representa apenas uma, mas as nove religiões monoteístas, classificadas segundo os ensinamentos Bahá’i. 3.  Além deste significado, o número  nove se torna importante por ser o número de anos do intervalo entre a revelação do Báb (1844) e a de Bahá'u'lláh (1853), e  também  pelo valor numérico da palavra Bahá` em Árabe.
Templo Baha'i de Chicago, EUA.
fonte: http://www.bahai.org.br/
 Embora sejam um único prédio coroado por um domo imponente  , os templos Bahá'ís têm todos nove entradas  4. Assim conhecidos como “Casas de Adoração” pelos bahá'ís, esses templos são construídos unicamente para a realização de orações. Não havendo nenhuma espécie de culto, é permitido a livre entrada de pessoas de todas as religiões. Atualmente, todas as Casas de Adoração possuem apenas uma sala sem divisão sob o domo, e os assentos do auditório são voltados para o Santuário de Bahá'u'lláh em Akka, Israel. Lá, cada indivíduo é incentivado a recitar as palavras reveladas por seu Deus, sejam estas de Krishna, Moisés, Zoroastro, Buda, Cristo, Maomé, Báb ou Bahá'u'lláh.
Templo Baha'i, India.
fonte: http://www.google.com/
Além do carater simbólico da planta, outro aspecto marcante na arquitetura destes templos é o resgate do desenho, técnicas construtivas ou mesmo do emprego de materiais  próprios da cultura local onde o edifício está instalado. E ao redor destes templos, os jardins serão ornamentados apenas com plantas e árvores específicas do lugar.
Templo Baha'i, Panamá.
Importante notar o uso de técnicas construtivas locais na arquitetura do edifício.
http://www.bahai.org.br/


 Para ver um pouco mais sobre arquitetura Baha'i, clique no video abaixo:


Notas:

1. Ensinamento Baha'i. Epístolas de Bahá'u'lláh

2 .Torres Petrona  são dois arranha-céus edificados na cidade de Kuala Lumpur, Malásia, cuja base a partir da estrela de 8 pontas recorda os motivos encontrados na arte religiosa islâmica. As torres de aço e vidro foram projetadas pelo arquiteto Cesar Pelli. Concluído em 1998, tem 88 andares e atualmente é o terceiro edifício mais alto do mundo (pronto), com 452 metros.
3. A religião Bahá'í considera nove as religiões monoteístas : Sabeismo, Hinduísmo, Judaísmo, Zoroastrismo, Budismo, Cristianismo, Islamismo, Fé Babí e Fé Bahá'í. Contudo, essas não foram as únicas religiões reveladas, vindo a existir muitas outras anteriores, mas são as que ainda existem.
4. Os Escritos da Fé Bahá'i relativos à estrutura dos templos Bahá'ís, definem que estes devem possuir duas características básicas: possuir nove entradas e coroadas por um domo central no topo. Por simbolizarem a Unidade de Deus, Unidade de todos os Seus profetas e a Unidade da Humanidade, a edificação deve dar a impressão de um único bloco arquitetônico.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Bahá'í, a religião da Unidade

“ Não se vanglorie o Homem em amar a sua pátria,
antes tenha ele glória em amar a sua espécie.
 A terra é um só país e os seres humanos são seus cidadãos.”
Ensinamento Bahá'í. 1
Mirzá Husayn Ali (1817-1892), o Bahá' u' lláh.

A palavra Bahá'í pode ser usada para referir a fé Bahá'í ou os seguidores desta religião particular. Esta palavra deriva do termo árabe "Bahá" (بهاء) que significa glória ou esplendor.
A religião Bahá'i foi fundada por Mirzá Husayn Ali (1817-1892) na antiga Pérsia, atual Irã, em 1844. Nascido em Teerã,  Mirzá proclamou-se Bahá' u' lláh, “Glória de Deus”,  e deu início a uma nova fé que defendia a união de todas as religiões e a crença de que somos todos parte de um mesma unidade universal.
Por enfatizar a unidade espiritual da humanidade, a Fé Bahá'í permaneceu monoteísta. Trata-se de uma religião independente que possui as suas próprias leis, escrituras sagradas, administração e calendário, mas não possui dogmas, clero, nem sacerdócio.
Os fiéis acreditam que os fundadores das grandes religiões monoteístas foram igualmente “Mensageiros do Divino”, fazendo parte de um plano maior divino de educação dos seres humanos. Eles combatem qualquer tipo de preconceito, seja por raça, religião ou classe social, e defendem a igualdade de direitos entre homens e mulheres.

Os ensinamentos Bahá'ís atribuem grande importância ao conceito de unidade das religiões. A história religiosa da humanidade é vista como um processo de desenvolvimento gradual, em que surgem diversos Mensageiros Divinos com ensinamentos adequados às necessidades de cada momento e à maturidade de cada povo. Esses mensageiros incluem Krishna, Abraão, Buda, Jesus, Maomé e, mais recentemente, O Báb e Bahá'u'lláh. Segundo os ensinamentos Bahá'ís, a humanidade encontra-se num processo de evolução coletiva a caminho de uma civilização mundial, e as suas necessidade atuais centram-se, essencialmente, no estabelecimento gradual da paz, justiça e unidade a uma escala global.

O principal templo Bahá'i fica em Acre, próximo a Haifa, em Israel, onde  Bahá' u' lláh ficou preso durante seus últimos anos de vida. No santuário encontra-se o corpo de Bab, O Profeta, visto pelos seguidores da fé Bahá'i como o “Mensageiro de Deus”, pois foi ele que no século XIX previu o nascimento desta religião.
A Fé Bahá'í é a segunda religião mais espalhada entre as religiões independentes, estabelecida em 247 países e territórios; representando cerca de 2.100 grupos étnicos, raciais e tribais; as escrituras bahá'ís foram traduzidas para aproximadamente 800 línguas, possuindo 7 milhões de adeptos no mundo.  O país que possui maior concentração de Bahá'ís é a Índia, com 2,2 milhões de seguidores. O segundo é o Irã com cerca de 1 milhão de Bahá'ís.   No Brasil estima-se 57 mil membros, e o Centro Nacional Bahá'i fica em Brasília.
O vídeo abaixo apresenta uma entrevista com Luis Henrique, arquiteto e representante da Fé Bahá'í no 3° Encontro da Nova Cosnciência. Vídeo de 1994.



Notas:

1. Seleção dos Escritos de 'Abdu'l-Bahá

2. Dados da Enciclopédia Britânica de 1992, levando em consideração o número de países alcançados, confirmado através do site http://www.britannica.com/, em 30 de janeiro de 2012.

Mais informações: http://www.bahai.org.br/

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Havdalá


"Penso 99 vezes e nada descubro.
Deixo de pensar, mergulho no silêncio, e a verdade me é revelada."
Albert Einstein. 1879-1955

Após um período sabático, o ArqSagrado retorna com sua missão de provocar discussões sobre a Religião e a Arquitetura Sagrada. Os estudos que antecederam este retorno seguiram em ordem cronológica, de acordo com a história da humanidade, e seguindo o índice estabelecido em meu trabalho acadêmico denominado Biblioteca Antropo-Teológica, do ano de 2007.
Percebi durante este primeiro ano os assuntos mais procurados e os temas que ainda não havia abordado naquele trabalho acadêmico, ou por impossibilidade de tratá-lo na Universidade Católica ou mesmo porque não estavam de acordo com o rumo que aquele  trabalho seguia. Estes assuntos serão tratados nos próximos posts, sempre tendo como referência uma bibliografia consistente, estudando as mais diversas manifestações de religiosidade desprovido de qualquer preconceito, característica marcante deste blog.
Uma vez que as postagens são elaboradas após um processo de experimentação da arquitetura religiosa, o tempo entre elas não será homogêneo, já que alguns temas requerem um trabalho de pesquisa mais intenso, e a busca de livros que realmente apresentem o tema de forma clara, livre da emoção que a experiência mística oferece. Contudo, prometo sempre preencher estas lacunas com sugestões de filmes, visitas a lugares, livros interessantes ou mesmo imagens que possam contribuir para o estudo da Geometria Sagrada.
Iniciando o ano de forma diferente, não olharemos para o passado, mas para o presente: a religião “Fé Bahá'í”, o mais interessante fenômeno religioso da atualidade, cujas edificações fazem parte da melhor produção arquitetônica religiosa contemporânea. Para quem gosta de boa arquitetura, vale a pena colocar as nove cidades nos roteiros de viagem deste ano. O vídeo abaixo refere-se ao Templo em fase de construção na cidade de Colina, a norte de Santiago, no  Chile. Aproveite para espiar um pouco do que vamos estudar em breve.

Nos vemos!

Fabricio Forg, arquiteto.
 

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Arquitetura Sagrada para Orações Modernas - final.

"Contrariamente às predições dos sociólogos da religião das décadas de 50 e 60,
 que apostaram num processo de decadência da religião, fruto do avanço da técnica e da Modernidade,
parece que assistimos a uma revitalização religiosa através de fenômenos, como o avanço do fundamentalismo,
a difusão do pluralismo religioso e a fragilidade das instituições religiosas (Igrejas),
como únicas portadoras de certezas existenciais."
Brenda Carranza, 1998. 1

              A produção e a experiência da arquitetura – como a de qualquer outra arte – constituem sempre atos crítico-históricos, envolvendo o que o arquiteto e o espectador aprenderam a distinguir e a imaginar através de suas próprias relações com a vida e com as coisas.  Segue- se  portanto  que  a   força   e   o   valor   de   nosso   contato   com   a   arte  e  arquitetura  dependerão da qualidade de nosso conhecimento histórico.
Não existe maneira de separar a forma do significado; uma coisa não pode existir sem a outra. O que pode haver são  apenas  diferentes  avaliações  críticas  dos  principais  métodos mediante os quais a forma transmite significado ao espectador. A memória é o agente operante pertinente neste processo de resgate. Tanto a empatia quanto a identificação de sinais são respostas aprendidas,  resultado de experiências culturais específicas. 2
O resgate de um vocabulário arquitetônico anterior já havia sido praticado por inúmeros arquitetos, dentre eles Michelangelo, por exemplo, que “tendo raramente adotado um tema [em sua arquitetura] sem lhe dar uma nova forma ou um novo significado (...) reteve invariavelmente características essenciais de antigos modelos para forçar o observador a recordar a fonte ao mesmo tempo em que desfrutava das inovações.” 3  Os arquitetos contemporâneos acreditam que “quando hoje reexamina-se – ou descobre-se – este ou aquele aspecto da produção de construções de outros tempos, não é com a idéia de repetir suas formas; é, antes, na expectativa de alimentar mais amplamente novas sensibilidades que são inteiramente fruto do presente.” 4  ; e uma citação da década de 1960 do arquiteto Robert Venturi também serve como complemento ao pensamento acima “os elementos convencionais em arquitetura representam um estágio no desenvolvimento evolutivo e contém, na alteração de seu uso e expressão, parte de seu significado passado, assim como de seu novo significado . (...) isso é o resultado de uma combinação mais ou menos ambígua do antigo significado, convocado por associações, com um novo significado, criado pela função modificada ou nova, estrutural ou programática, e pelo novo contexto (...) o elemento vestigial desencoraja a clareza de significado e promove, em seu lugar, a riqueza de significado.” 5.  A arquitetura contemporânea produzida a partir do resgate de formas simbólicas passadas capacita antigos lugares-comuns com novos contextos, ricos em significados ambiguamente velhos e novos, banais e brilhantes. 6

Templo Bahai - India.
http://www.google.com.br/
Independente do vocabulário arquitetônico escolhido para determinado projeto, o arquiteto deve se adaptar as exigências da massa pós-moderna (consumista e descompromissada), composta por vários tipos de indivíduos. Sem ideais sólidos, o homem contemporâneo dedica-se a causas periféricas, e as religiões são substituídas por esoterismo ou outras filosofias, não menosprezando o valor de cada uma delas. Pensa mais em expandir a mente do que na salvação da alma. As novas práticas são libertadoras e a religião continua culpabilizante. “As religiões se marginalizaram. Elas se afastaram das experiências concretas das pessoas (...) As religiões como muitos hoje já tem convicção, não fazem mais apelo à arte. Elas se puseram fora de combate.” diria James Turrel quando questionado sobre o distanciamento das artes da religião. 7
 Para os poucos homens religiosos do século XXI, o espaço ainda continua heterogêneo; ele apresenta roturas, quebras, existindo porções de espaço qualitativamente diferente das outras. Em contrapartida, para a experiência do sujeito contemporâneo, o espaço é homogêneo e neutro: nenhuma rotura diferencia as diversas partes de sua massa. Por vezes, o homem não-religioso segrega locais privilegiados, mas estes são qualitativamente diferentes dos outros: a paisagem natal, ou os sítios dos primeiros amores, ou certos lugares na cidade estrangeira visitada na juventude. São lugares com uma qualidade excepcional, única, são os lugares sagrados do seu universo privado, como se neles um ser não-religioso tivesse tido a revelação de uma outra realidade, diferente daquela de que participa em sua existência cotidiana. 8

Notas:

1. CARRANZA, Brenda. in http://www.pime.org.br/mundoemissao/religgeralseculo.htm, texto sobre a religião no século XXI
2. SCULLY,Vicent. apud  VENTURI, Robert. Complexidade e contradição em arquitetura. Sp. Editora Martins fontes. 2004.  nota à segunda edição.

3. ACKERMAN, James. apud VENTURI, Robert. Complexidade e contradição em arquitetura. SP. Editora Martins fontes. 2004.  p. 50.

4. HITCHCOCK, Henry Russel. apud VENTURI, Robert. Complexidade e contradição em arquitetura. SP. Editora Martins fontes. 2004. citação no prefácio XXV.

5.VENTURI, Robert. Complexidade e contradição em arquitetura. SP. Editora Martins Fontes. 2004. p.46.

6.  Ibid, p. 40.

7. TURRELL, James. Revista L’architecture d’aujord’hui, jan/fev. 2005 – edição nº 356. Entrevista concedida em Paris, no mês de outubro de 2004.

8. ELIADE, Mircea. O Sagrado e o profano. SP. Editora Martins Fontes. 1992. p.28.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Arquitetura Sagrada para Orações Modernas. 1

“A necessidade do arquiteto é criar aquele uníssono de
                                                               partes e detalhes que nas melhores edificações de todos os
                                               tempos remontou miraculosamente os processos imaginativos
                                                               a quantidades matemáticas e a contextos geométricos.”

           Erich Mendelson, 1887-1953. 1
Catedral de Brasilia - Oscar Niemeyer .
exemplo de simplificação da forma em arquitetura destinada ao Sagrado.
fonte:http://pt.urbarama.com/project/catedral-de-brasilia 

            Durante metade do século XX, os arquitetos acharam que uma nova tipologia finalmente daria um rumo à desordem proporcionada pela liberdade projetual da arquitetura iluminista: o movimento chamava-se Modernismo. Na década de 50 alguns jovens arquitetos com o Team X iniciaram a crítica aos preceitos dos CIAM (Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna), principalmente em relação ao urbanismo, ao contestar a famosa Carta de Atenas redigida por Le Corbusier, dentre eles Rykwert Peter Smithson e Aldo Van Eyc. 2   No entanto, as primeiras reações à excessiva dogmatização que a arquitetura moderna propôs surgiram, de uma forma rigorosa, por volta da década de 1970, tendo em nomes como Aldo Rossi e Robert Venturi seus principais expoentes.  
          A partir dos anos 70, preferiu-se a imagem ao original;  era o mundo do simulacro ocupando o espaço do real. O simulacro embelezava, intensificava, tendo encontrado na televisão o meio ideal para ser explorado, tornando tudo um espetáculo. A partir da queda do Muro de Berlim na década de 80, a quebra do bloqueio aos países do leste europeu proporcionou o processo de “liquidação” das ideologias. A informação espalhou-se em todos os cantos do planeta.  O homem foi globalizado mas, intelectualmente, estandardizado, acompanhando a produção em série das mercadorias, advinda da necessidade de otimização econômica. A serialidade foi uma forma de controle social e nas artes passou a ser um contraponto para muitos que consideravam a obra de arte como sendo única, original, irrepetível –  “(...) no momento em que o critério da autenticidade deixa de aplicar-se à produção artística, toda a função social da arte se transforma. Em vez de fundar-se no ritual, ela passa a fundar-se em outra práxis: a política(...)” 3
             A época contemporânea, caracterizada na cultura arquitetônica pelo abandono de todas as formas de ordem, de simetria e a chegada do desarmônico e do assimétrico, não se limita em suas considerações negativas. O momento contemporâneo é essencialmente cibernético, informático e informacional, aprofundando todo tipo de estudo e pesquisa.
Sabe-se de todo o processo teórico que os idealizadores do movimento moderno percorreram, porém a arquitetura em si propunha a simplificação e a concentração das formas, das linhas e do espaço, reduzindo-os à essência e ao serviço da funcionalidade. Em contraposição a essas características, o pensamento arquitetônico contemporâneo explora a incompatibilidade de estilos, formas e texturas. Em seus elementos estruturais relacionam contrastes como ordem dórica de colunas com sobriedade, impessoalidade com racionalidade, incorporando o ornamento como fundamental. Os projetos recuperam estilos, resgatando a história em um só conjunto. Os valores simbólicos também são retomados em comum com estilos antigos como o Barroco. Opõem-se as retas às curvas num ecletismo de formas; na união do ornamento barroco com o vidro fumé, por exemplo, cria-se um desequilíbrio de movimentos e fantasias. 4
Os arquitetos contemporâneos instigam o sagrado na ordem temporal utilizando o vocabulário arquitetônico das antigas construções religiosas. Isso se dá porque a sociedade ocidental do século XXI é herdeira do pensamento racionalista do Iluminismo, fundado na separação das esferas política e religiosa. E como herdeira deste período histórico tão importante, a arquitetura conseqüentemente, retorna em alguns momentos, a buscar a metodologia utilizada pelos arquitetos daquela época para as produções contemporâneas. Nos novos projetos, “profanam-se” algumas regras arquitetônicas sagradas, utilizando-as de forma a desaparecer a definição funcional dos edifícios, transformando-os em templos modernos dos novos deuses leigos. 5   

Notas:


Orações Modernas: termo criado pelos arquitetos Salwa e Selma Mikou, para matéria  sobre arquitetura
religiosa na edição nº 356 da  revista L’architecture d’aujord’hui, de jan/fev. 2005.

1. PENNICK, Nigel. Geometria Sagrada. SP. Editora Pensamento. 1980. p.68.

2. O Team X propôs, ainda nos anos 1950, recolocar nos projetos o homem real das ruas no lugar do Modulor, homem ideal, de Le Corbusier e da “velha guarda” dos CIAM.  As questões das diferenças individuais passaram a ser estudadas
no lugar do coletivo ideal. A idéia principal era de devolver a cidade a seus habitantes.
O grupo era heterogêneo e eclético, mas tinha a convicção comum de ir contra a doutrina da Carta de Atenas. Joseph Rykwert continua até hoje seguindo esta linhagem teórica, ao insistentemente buscar alternativas ao modernismo
 ao longo de toda sua obra. Pode-se notar uma influência direta de Van Eyck,
sobretudo temática, ligada ao estudo da mitologia e dos rituais, ou seja, ao resgate de um simbolismo primitivos
 claramente ausente do racionalismo do pensamento moderno.
http://www.vitruvius.com.br/resenhas/textos/resenha106.asp., acessado em  22 de maio de 2007, as 14h30.

3. QUEIROZ, Silvia de Souza. Brasilianas Neobarrocas na cena da contemporaneidade. http://www.arte.unb.br/anpap/queiroz.htm. 1996. apud BENJAMIN, Walter.
A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, in Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo. Editora Brasiliense, 1985.

4. QUEIROZ, Silvia de Souza. Brasilianas Neobarrocas na cena da contemporaneidade. http://www.arte.unb.br/anpap/queiroz.htm. 1996.


5. MIKOU, Selma. Revista L’architecture d’aujord’hui, jan/fev. 2005 – edição nº 356. artigo “Orações Modernas”, de Salwa e Selma Mikou.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Portão de Bradenburgo. 1788, Carl Gotthard Langhans.

     O Portão deBradenburgo (em alemão "Brandenburger Tor"), simbolo da cidade de Berlim, se assemelha simbolicamente ao Arco do Triunfo, porém sem a figura arquitetônica de um arco. Na realidade, é o único remanescente de uma série de outras entradas para a capital alemã, constituindo a terminação monumental da "Unter den Linden", uma das principais avenidas da cidade, que dava acesso à residência real. Sua construção foi ordenada pelo rei prussiano Friedrich Wilhelm II e executada pelo arquiteto Carl Gotthard Langhans.
Portão de Bradenburgo. vista geral.
     Construído em tipologia neoclássica,  possui doze colunas dóricas de estilo grego, seis de cada lado, criando cinco vãos centrais por onde passam cinco estradas. Sobre o entablamento está a estátua da deusa grega Eirene, deusa da paz, em uma biga puxada por quatro cavalos. Originalmente a quadriga estava com sua frente voltada para a parte oeste de Berlim, de costas para a "Pariser Platz", mas os soviéticos fizeram a inversão, ficando sua face voltada para leste, que era a parte oriental de Berlim. Suas dimensões são: 26 m de altura, 11 m de profundidade e 65 m de largura.

     Poucas são as pessoas que sabem, mas na realidade as portas de Brandenburgo foram construídas sobre outras portas. Uma década após o fim da guerra dos trinta anos, a partir de 1658, Berlim começou a expandir-se como uma fortaleza, cercada por altos muros. Onde atualmente existe o Portão foi construída um primeiro portal, para servir como uma das entradas para a cidade. Na segunda metade do século XVIII, a burguesia ganhava força e o rei da Prússia, iniciou um plano de reestruturação da cidade, dando a ela mais esplendor, e esse projeto previa a construção de novas portas. Mas o projeto sofreu constantes atrasos e somente em 1788 as antigas portas foram demolidas.

     As obras foram iniciadas no ano de 1789 e duraram até 1791, seguindo o desenho do arquiteto Carl Gotthard Langhans (1732–1808). Embora foi concebido pelo arquiteto com os elementos em que se encontra hoje, quando o Portão de Bradenburgo foi aberto ao trânsito ainda faltavam as esculturas de Johann Gottfried Schadow (1764–1850), e a quadriga. Entre as seis colunas dóricas passavam cinco estradas em que apenas duas mais extremas de cada lado estavam abertas ao livre trânsito civil. A rua principal , do meio, apenas podia ser percorrida pela comitiva real. Não houve, no momento da inauguração, qualquer tipo de cerimonia que contemplasse o marco da construção, assim, sem nenhum tipo de solenidade foi aberto ao trânsito no dia 6 de Agosto de 1791, propiciando ao rei acesso direto do palácio real até ao seu jardim na parte externa da cidade.

     Historicamente, o Portão também foi sempre um marco arquitetônico para fatos importantes  As tropas francesas de Napoleão Bonaparte quando em 1806 invadiram Berlim, atravessaram as portas de Brandenburgo, e para simbolizar a momentânea dominação francesa, Bonaparte mandou a quadriga para Paris, retornando a Berlim em 1814, após a guerra da libertação. Na ocasião, Frederico Guilherme III, incorporou uma cruz de ferro e uma águia prussiana, significando a vitória.

     Em 1868, uma nova reformulação política  pôs abaixo o velho muro de proteção da cidade, que circundava Berlim, e acrescentou às extremidades do Portão dois pequenos pavilhões sobre colunas, projetados por Johann Heinrich Stack, com aproximadamente a metade da altura das portas.

Detalhe da Quadriga no entablamento do Portão.
     Passado muito tempo, a quadriga foi retirada mais uma vez, em 1950, pelas autoridades soviéticas, e praticamente destruída. Foi tema de discussão a refundição da escultura ou a colocação de um novo símbolo nas portas, e decidiu-se pela primeira.  Ambos, Portão  e quadriga, que haviam sido danificados, foram reestruturados em conjunto, ficando a reforma das portas sob a responsabilidade de Berlim oriental e a refundição da quadriga para Berlim ocidental. Em 1958 a reforma estava encerrada, e a quadriga,  que havia sido fundida em partes, foi remontada na praça "Pariser Platz" do lado soviético. Durante muito tempo os elementos decorativos da parte superior do Portão foram alvo de lutas políticas, vindo a ser instalado no seu lugar de origem somente no final do ano de 1958, entretanto, tendo sua direção invertida: os cavalos que antes galopavam em direção a Berlim ocidental foram postos ao contrário, gerando vários atritos entre ambos os lados.  As decisões unilaterais soviéticas sobre as portas chegaram ao fim em 1961, quando Berlim Oriental fechou suas fronteiras com os setores britânico, americano e francês, as portas foram isoladas e o muro de Berlim foi construído.

     O Portão  ficou completamente interrompido para o tráfego de pedestres e automóveis por quase 30 anos, sendo reaberto com a queda do muro de Berlim - na noite de 9 para 10 de Novembro de 1989. Atualmente tanto a área ao redor quanto o Portão estão reestruturados, e as portas unem o centro histórico da cidade ao “Tiergarten”, a sede do parlamento e a nova praça “Potsdamer Platz”. Os automóveis podem atravessar as portas desde 7 de Março de 1998 no sentido de leste para oeste.  A cruz de ferro e a águia prussiana foram reincorporadas à quadriga em 1991, mas os cavalos ainda galopam em direção a "Pariser Platz". O Portão que passou por tantos momentos difíceis hoje é um  símbolo da prosperidade e unificação alemã.

Fonte:

segunda-feira, 30 de maio de 2011

O Panteão de Paris. 1755. Jacques-Germain Soufflot.

     As construções importantes para o estudo de geometria sagrada na era Moderna não são tão conhecidas como as dos periodos anteriores ou mesmo as contemporâneas. Isso porque muitas descobertas aconteceram com o fim do período medieval, e a produção arquitetônica que se seguiu teve como ponto principal a reprodução de vários elementos do repertório anterior, sendo a escolha fundamentada mais em um gosto estético e menos em argumentos mais profundos. No entanto, ainda no meio de um panorama tão confuso podemos destacar alguns edificios importantes para o estudo de geometria sagrada, e são algumas destas edificações os temas dos próximos artigos deste blog, começando pelo emblemático edificio do Panteão Francês.
Panteão de Paris. Fachada frontal.
     O Panteão de Paris é uma edificação com tipologia neoclássica situado no monte de Santa Genoveva, no 5.º arrondissement de Paris. À sua volta estãolocalizados outros prédios importantes como a igreja de Saint-Étienne-du-Mont, a Biblioteca de Santa Genoveva, a Universidade de Paris-I (Panthéon-Sorbonne), a prefeitura do 5.º arrondissement e o Liceu Henrique IV. 
     Em 1744, sofrendo de uma doença considerada grave, Luís XV rei da França fez o voto de criar uma igreja em honra de Santa Genoveva, caso sobrevivesse. Restabelecido, encarregou o marquês de Marigny, diretor geral dos edifícios reais, de erigir um igreja no local da antiga abadia da santa, então em ruínas. Em 1755, o marquês confiou a responsabilidade do projeto ao arquiteto Jacques-Germain Soufflot.
     A igreja tem 110 metros de comprimento e 84 metros de largura. O edifício, em forma de cruz grega, é coroado por uma cúpula de 83 metros de altura, com um lanternim no topo.  A estrutura do edifício tenta reproduzir a  pureza e magnitude das construções gregas. Além da arquitetura grega, Soufflot buscou outras referências para este projeto: o Panteão romano para o erguimento do pórtico, que está na fachada principal, decorada com 22 colunas de estilo coríntio que apoiam um frontão triangular de autoria de David d'Angers e a Catedral inglesa de São Paulo e o Dôme des Invalides para a elaboração da cúpula. A maneira como reproduziu os detalhes clássicos em um novo contexto é o que caracterizou a construção como neoclássica, costume muito comum aos arquitetos da época. 
     As fundações começaram a ser escavadas em 1758 mas, devido a dificuldades financeiras e à morte de Soufflot em 1780, a sua construção foi retardada. Foi finalmente retomada por um associado de Soufflot, Jean-Baptiste Rondelet, em 1791, sendo laicizado pelos movimentos revolucionários burgueses, transformando-o em Panteão nacional. A Assembleia Nacional decidiu, entretanto, que o edifício deveria servir de necrópole para as mais grandiosas individualidades de França. O edifício foi modificado neste sentido, e o frontão contém a seguinte inscrição: “Aux grands hommes, la patrie reconnaissante.”, que quer dizer “Aos grandes homens, a pátria reconhecida”, despertando a vocação da edificação para acontecimentos históricos marcantes para a França e, porque não, para o mundo - hoje, na cripta, 70 célebres personagens da história francesa estão enterrados, dentre eles Alexandre Dumas, André Malraux, Émile Zola, Jean-Jacques Rousseau, Marie Curie, Victor Hugo, Voltaire entre outros.
Vista interior do Panteão de Paris.
     Em 1851, o astrônomo Jean Bernard Léon Foucault realizou aí uma experiência científica destinada a provar que a Terra roda em torno de um eixo (pêndulo de Foucault). Já no século XX, a 21 de Maio de 1981, a tomada de posse do septenato de François Mitterrand foi marcada por uma cerimônia no Panteão durante a qual prestou homenagem a Jean Jaurès, Jean Moulin e Victor Schœlcher, pousando uma rosa vermelha junto às suas sepulturas.

Notas: