sábado, 16 de agosto de 2014

Basílica Nossa Senhora da Penha, Recife.

     Construída pelos frades capuchinhos franceses, foi concluída em 1882. Entre o início da construção (1656) e a conclusão de suas obras, passaram-se mais de 200 anos, em decorrência da expulsão dos calvinistas franceses do Recife, por determinação da corte portuguesa. Única do Recife em estilo coríntio, possui na sua nave colunas em mármore que vieram inteiras da região de Carrara na Itália e que não conseguindo os escravos arrastarem as mesmas do porto até a construção, retornaram a Carrara para serem serradas em partes menores e então serem transportadas até o interior da edificação. Um dos altares do interior é o túmulo de Dom Vital,  e na sacristia está o seu museu, que abriga objetos de uso pessoal do bispo. Segundo o historiador Carlos Alberto Campelo, possui os únicos verdadeiros afrescos da América latina, pintados pelo artista Murillo La Greca.

     Abaixo algumas imagens da Igreja:










      A Basílica Nossa Senhora da Penha está localizada à Praça Dom Vital, S/N , bairro de São José, Recife – PE.  Telefone de contato:  (81) 3424-8500
  

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Questão religiosa brasileira: a crise entre a Igreja Católica e as Ordens secretas no séc. XIX

“Até 1872, a Maçonaria no Brasil respeitou a religião católica. 
Introduziu-se no clero, nos conventos, nos cabidos, nas confrarias. 
Mas quando teve um Grão-Mestre à frente do Governo nacional, julgou oportuno atacar a Igreja”

Antônio Carlos Villaça. 1

         Historicamente a presença da Maçonaria no Brasil não despertou nenhuma oposição durante muitos anos, encontrando nesta terra terreno fértil para criar raízes e estabelecer importantes parcerias com objetivos políticos ou mesmo sociais. Diferente da regra canônica que imperava em outros países – cuja bula Papal condenava quem se associasse à Ordem –, a  força da Ordem impulsionava posições de destaque inclusive em importantes cidades como por exemplo no Rio de Janeiro, capital brasileira na época.  2 .

Foto de D. Vital como frei capuchinho.
Fonte: www.google.com

        A tensão entre a Igreja Católica e a Ordem dos irmãos pedreiros teve como cenário a cidade de Olinda, e como principal personagem Dom Vital   3 , nomeado Bispo aos 27 anos.  Em março de 1872, houve uma festa da Maçonaria que comemorava a Lei do Ventre Livre,  4   obtida pelo então principal Ministro do Imperador, Presidente do Conselho  o Visconde de Rio Branco. Consta que um dos oradores da festa foi inclusive um padre, chamado Almeida Martins. O bispo do Rio de Janeiro, D. Pedro Maria de Lacerda, surpreso com tal atitude, chamou o padre em particular para ponderar-lhe que ele não podia ser padre e maçom ao mesmo tempo. O padre recusou atender a qualquer ponderação e o bispo suspendeu-o de ordens. A Maçonaria considerou-se atingida com tal ato e em assembleia, decidiram iniciar uma campanha coletando fundos e criando publicações para divulgar os interesses da Ordem em todas as capitais do país.  

          Assim, quando D. Vital chegou ao Recife, já encontrou  os jornais maçons  em circulação, divulgando também determinados eventos realizados inclusive nos edifícios das próprias igrejas católicas. Primeiro anunciaram que iria haver uma missa em ação de graças numa loja. Diante da proibição sigilosa do bispo, nenhum padre ousou celebrá-la. Depois, pediram missas por maçons falecidos e mais uma vez houve a recusa dos padres. Por fim o jornal "A Verdade" publicou uma série de artigos entendidos como ofensas pelas diretrizes católicas da época, e em resposta,  o bispo D. Vital publicou  um protesto contra estes textos específicos, motivando a população a protestar também, e  reforçando ainda tais posições  em um sermão público na catedral da cidade. À revelia, dias depois o jornal “A Verdade”, publicou lista de padres e cônegos, presidentes, secretários e tesoureiros de irmandades que também pertenciam às lojas, e o bispo chamando-os um por um, em particular, exigiu retração publica e o desligamento das lojas.  

Foto do Visconde do Rio Branco.
Fonte: www.google.com

        Enquanto uma onda de insegurança reinava em Olinda, também o bispo de Belém do Pará, D. Antônio Macedo Costa, resolveu combater  a Maçonaria. As notícias a respeito, chegaram ao Rio de Janeiro, e provocaram no Governo uma resposta aos dirigentes da Igreja Católica. Depois de inúmeras trocas de cartas envolvendo desde o Imperador até o Papa da época, o Governo mandou processar e prender D. Vital trazendo-o ao Rio de Janeiro para ser julgado pelo Supremo Tribunal. D. Vital foi condenado a 4 anos de prisão com trabalhos forçados, mesma punição do bispo de Belém. Mesmo preso, D. Vital escreveu e mandou publicar uma carta, "A Maçonaria e os Jesuítas", com 139 páginas, em que defendia a estes e atacava a Ordem.    Por razões políticas, caiu o gabinete do Visconde do Rio Branco e o Duque de Caxias foi chamado para sucedê-lo, concedendo anistia aos bispos.

      Os ânimos se acalmaram e a convivência, ao menos em território nacional se manteve pacífica. Contudo, a posição da Igreja Católica permaneceu igual, enumerando os princípios considerados incompatíveis com a Doutrina Católica Romana.  6    Em todos os estudos realizados com base acadêmica, em nenhum momento notam-se  sentimentos anticlericais, anti-Igreja ou anticristãos por parte dos membros da Ordem. Contudo, o desgaste ocasionado por conflitos históricos em disputas de poder geraram “ranços” que criam preconceitos contra essa ou outras Ordens Secretas. O cenário do século XXI dissocia a Religião, a Ciência e a Magia, criando barreiras intransponíveis mesmo em um território pacifico como o brasileiro. No momento de pluralidade religiosa, outras correntes se tornam mais ameaçadoras e ao menos por enquanto, o simbolismo das Ordens Secretas pode ser admirado e estudado com maior tranquilidade.
  
  
1 – VILAÇA, Antonio Carlos. História da Questão Religiosa no Brasil. 
Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1974. P. 7.

2 – Visconde do Rio Branco, José Maria da Silva Paranhos 
(* 16 .03. 1819 Salvador BA. + 0.111.1880, RJ). Seu pai era o português e tio coronel de
 engenheiros foi estudar no Rio de Janeiro onde ingressou no curso de Engenharia na Escola Militar. 
Afiliou-se membro da Maçonaria por volta de 1840, chegando a publicar um folheto a respeito da "Constituição Maçônica". 
Importante político da época, tornou-se Grão-Mestre da Loja da rua do Lavradio,  
cooperando com a publicação de vários jornais anticlericais editados pela maçonaria, 
entre eles no Rio, o jornal A Família; em São Paulo, o Correio Paulistano; 
em Porto Alegre, O Maçom; no Pará, o Pelicano; no Ceará, A Fraternidade; 
no Rio Grande do Norte, A Luz; em Alagoas, 
O Labarum e em Recife, dois, A Família Universal e A Verdade. 
Foi um dos ministérios mais duradouros do período imperial, com participação 
de políticos de ambos os partidos. Coube a Paranhos sancionar a Lei do Ventre Livre 
(28 de setembro de 1871) e enfrentar a questão epíscopo-maçônica nos anos de 1873/1874. 

3 - D. Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira (* 27.11.1844 PE, + 1878, Paris.FR)  
com nome civil foi Antônio Júnior. Estudou no Seminário de Olinda, 
e depois em S. Sulpice em Paris, se tornando capuchinho. 
Posteriormente passou por outros dois seminários europeus antes de retornar ao Brasil, 
em 1868, vindo a integrar o corpo docente no Convento dos franciscanos em São Paulo. 
Em março de 1872 foi sagrado bispo por indicação do Governo do Império do Brasil, 
e nomeado bispo de Olinda e Recife e tomou posse de seu cargo em 24 de Maio de 1872. 
D. Vital,  morrreu aos 33 anos de idade, em Paris. Seu corpo foi enterrado na cripta dos 
franciscanos em Versalhes, de onde, mais tarde, foi trasladado para o Recife. 
Está enterrado na Basílica de N. Sra. da Penha, em Recife. 
OLIOVOLA O.F.M, Frei Feliz de. D. Vital -- Um Grande Brasileiro.
 Edição da Imprensa Universitária, Recife, 1967.

4 - A Lei do Ventre Livre, também conhecida como “Lei Rio Branco” foi uma 
lei abolicionista, promulgada em 28 de setembro de 1871 (assinada pela Princesa Isabel). 
Esta lei considerava livre todos os filhos de mulher escravas nascidos a partir da data da lei.
 Tinha por objetivo principal possibilitar a transição, lenta e gradual, no Brasil do
 sistema de escravidão para o de mão-de-obra livre. Vale lembrar que o Brasil, 
desde meados do século XIX, vinha sofrendo fortes pressões da Inglaterra para abolir a escravidão. 
  Junto com a Lei dos Sexagenários, A Lei do Ventre Livre (1887), 
a Lei do ventre Livre serviu também para dar uma resposta, embora fraca, 
aos anseios do movimento abolicionista.

 5 – Voce pode acessar o livro através deste link:

6 - O último documento da Igreja sobre o assunto foi produzido pela Sagrada 
Congregação para a Doutrina da Fé, em 26/11/1983, e assinado pelo 
Cardeal Joseph Ratizinger, que os maçons consideram como seu inimigo figadal.  
A Declaração afirma: “Permanece imutável o parecer negativo da Igreja a respeito
 das associações maçônicas, pois os seus princípios foram sempre considerados
 inconciliáveis com a doutrina da Igreja, e por isso permanece proibida a inscrição nelas. 
  Os fiéis que pertencem às associações maçônicas, pois os seus princípios foram sempre 
considerados inconciliáveis com a doutrina da Igreja, e por isso permanece proibida a inscrição nelas.  
Os fiéis que pertencem às associações maçônicas estão em estado de pecado grave, e não podem aproximar-se da Sagrada Comunhão”. http://www.presbiteros.com.br/site/maconaria-um-pouco-de-historia/



terça-feira, 12 de agosto de 2014

A influência das ordens secretas no plano urbano da cidade de Paraty.

“ A relação entre a Maçonaria e a sociedade em geral sempre foi dúbia. 
Por um lado, as boas obras e as significativas contribuições dos maçons foram largamente aplaudidas; 
por outro, o segredo que envolve a Ordem foi objeto de incompreensão, suspeita e temor.”
W. Kirk MacNulty  1


         Atualmente, a Maçonaria se justifica por sua vocação filantrópica fundamentada em princípios  filosóficos - 2.  Apesar de não possuir definição político ou religiosa, historicamente a Ordem sempre se manifestou no campo ideológico, o que ocasionava certa alternância em aliados do poder ou inimigos destes. Perseguidos na Europa começaram a chegar ao Brasil no século XVIII, durante o ciclo do ouro, muitos se estabelecendo na cidade de Paraty, que na época era o ponto intermediário entre a capital e as minas.

Vista de rua em Paraty - RJ. Decoração simbólica nas fachadas.
Fonte: www.google.com.br

         O Porto Principal de Paraty , atual Cais,   foi construído em 1722, mesmo período emq eu a Vila recebeu uma trincheira para protegê-la , hoje a Praça da Bandeira.  Todas essas obras foram realizadas devido ao aumento no fluxo comercial ocasionado pelo escoamento do ouro, gerando uma melhora na economia na cidade,  permitindo o empenho para novas construções e benfeitorias não só relativas à segurança, mas também relacionadas ao transporte. Com relação ás edificações residenciais  a  Vila de Paraty tornava-se promissora,  ostentando 400 casas construídas com paredes de pedra e cal ou na técnica de pau-a-pique, sendo que dentre todas essas casas, 40 eram grandes sobrados. As casas comerciais somavam um total de 60 estabelecimentos que comercializavam principalmente aguardente, secos e molhados, e outras mercadorias trazidas de Minas Gerais, região de São Paulo e até mesmo da Europa. Todo esse fluxo comercial justificou o título de segundo porto da Colônia Portuguesa, no ano de 1750.  3

Mapa do centro histórico de Paraty - RJ.
Fonte: www.google.com

         Com o progresso econômico a Maçonaria buscou demarcar a Vila de Paraty com sinais característicos de sua simbologia tendo em vista fazer-se reconhecer frente aos outros afiliados vindo de todos os lugares – 4 – e a  influência da ordem pode ser notada em vários detalhes da arquitetura da cidade até hoje.  Nessa época, a cidade já possuia um “arruador”    5,  que chamava-se Antônio Fernandes da Silva.  Embora o mesmo justificou esse traçado para evitar o vento encanado nas casas e distribuir equitativamente o sol nas residências, tal desenho contribuiu para a criação de três cunhais de pedra nas casas das esquinas,  formando um triângulo imaginário que, decorados com figuras geometrias e intrincados esquemas compositivos que geram desenhos complexos, contribuiu de forma positiva para “marcar” a presença dos maçons da cidade.  6.   Outra contribuição do arruador foi o plano urbano do centro de Paraty  construído com 33 quarteirões. Mesmo as plantas das casas foram feitas na escala 1:33.   7

           Sobre a decoração das fachadas das casas, especula-se que a cor azul-hortência presente nas janelas e portas tenha alguma relação com a Ordem Maçônica , a exemplo da cidade portuguesa de  Óbidos,  cuja ordem também teve importante influencia.  Outra questão apresentada como especulativa é o fato do primeiro padroeiro da cidade ser São Tiago de Compostela, santo cuja história se aproxima da mística da ordem.   8

Decoração dos "cunhais" das casas de Paraty.
Fonte: www.google.com.br

           Em uma cidade com arquitetura tão interessante como Paraty, a beleza da decoração arquitetônica facilita que o espectador se perca tentando decifrar estes intrincados códigos. Além disso, as lacunas dos documentos históricos impedem uma definição sobre os interesses que existiam ao se planejar esta vila tão importante do ponto de vista econômico e político no século XVIII. Independente de qualquer documento, podemos ainda barrar no sigilo da Maçonaria, ordem que prima pelo segredo. O labirinto é enorme, e este artigo assim como outros escritos sobre a cidade ou sobre a Maçonaria quer apenas revelar a importância e Paraty ou mesmo da ordem, eliminando qualquer preconceito no intuito de valorizar o trabalho dos “irmãos pedreiros” e sua parcela de importância no progresso da humanidade.

           “A Maçonaria oculta os seus segredos de todos, à exceção dos seus seguidores e sábios, ou os Eleitos, e utiliza falsas explicações e falsas interpretações dos seus símbolos para induzir a erro aqueles que merecem ser induzidos em erro; para ocultar a Verdade destes e para a manter afastada dos mesmos.”  General Albert Pike.


1 – MACNULTY, W. Kirk. A Maçonaria: símbolos, segredos , significado. 
Editora Martins Fontes, São Paulo, 2012. P 216.

2 - Até o final dos anos de 1600 os maçons ditos “operativos” tiravam seu sustento da arte de construir. 
Depois desta data as características do ofício começaram a mudar e até a metade do século XVIII 
as Lojas perderam o interesse pelo comércio e passaram a exercer atividades 
de cunho social e beneficente, abrindo espaço para cavalheiros e negociantes sem nenhum contato 
com a “Arte de Construir” – antigo ofício de pedreiro –, que consolidaram os ensinamentos e princípios especulativos da Maçonaria Moderna. 
CARR, Harry. O Ofício do Maçom. Editora Madras. São Paulo, 2007


4 – Em 1833 fundaram na cidade a Loja Maçônica “União e Beleza”
 (na esquina da rua do Comércio com a rua da Cadeia), certamente os mais responsáveis pela
 influencia da ordem na  arquitetura da cidade. 
Um dos fundadores desta loja maçônica foi o vereador José Campos do Amaral, 
que convenceu a Câmara a formular neste ano  o código de postura e obras de Paraty, 
obedecendo alguns critérios maçons. Graças a esse código e ao isolamento geográfico ocorrido entre 1870 e 1950 a cidade manteve preservadas suas características arquitetônicas.
 Quando do fechamento da Loja União e Beleza alguns móveis com símbolos maçons foram doados à Câmara dos Vereadores, onde se encontram até hoje.

5 – No período colonial o arruador era  a pessoa encarregada de
 organizar as construções das ruas, das casas, das praças planejando o traçado das cidades.

6 – Diferente do que acontecia na Europa em que os símbolos maçons tinham que ser discreto 
por causa das frequentes perseguições, o mesmo não acontecia em Paraty onde os 
sobrados cujos proprietários eram maçons possuíam faixas repletas de desenhos geométricos de linguagem Maçônica, preservados até hoje no centro histórico da cidade. 
Em alguns casos, através dessa simbologia, o iniciado poderia até saber o grau do maçom de cada residência.

7 –  O 33 é um número de elevada importância para a Maçonaria que, segundo a interpretação ortodoxa da Bíblia, 
seria a duração em anos da vida de Cristo. 
Derivando desse número, o triângulo isósceles é o símbolo maçom por excelência, presente em toda a representação da ordem seja na decoração de seus edifícios ou mesmo em publicações de seu editorial.


8 – Tais informações não foram encontradas em livros acadêmicos. 

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

A lenda do tesouro perdido, filme 2004

"A lenda do tesouro perdido" (titulo original National Treasure) é um filme de aventura americano, produzido e lançado pela Walt Disney Pictures no ano de 2004. Foi escrito por Jim Kouf, Ted Elliott, Terry Rossio, Cormac Wibberley e Marianne Wibberley, produzido por Jerry Bruckheimer e dirigido por Jon Turteltaub. É o primeiro filme da trilogia "National Treasure", estrelado por Nicolas Cage, Harvey Keitel, Jon Voight, Diane Kruger, Sean Bean, Justin Bartha e Christopher Plummer.


Nicolas Cage interpreta Benjamin Franklin Gates, um historiador e criptologista amador em busca de um tesouro perdido contendo metais preciosos, jóias, obras de arte, além de outros artefatos. Este tesouro faz parte de uma  coleção foi feita   por saqueadores e guerreiros ao longo de muitos milênios,  começando no Antigo Egito, mais tarde redescoberto pelos Cavaleiros Templários, e mais eventualmente escondido por maçons dos Estados Unidos durante a Guerra Revolucionária Americana. A busca segue a partir de um mapa codificado no verso da Declaração de Independência, que mostra os pontos para a localização do "tesouro nacional", mas Gates não está sozinho em sua busca. Quem pode roubar a Declaração e decodificá-lo encontrará o maior tesouro da história primeiro!

Até por se tratar da busca do suposto neto de um maçom, várias cenas apresentam conversas marcadas por simbolismo, desde o "olho" na cédula do dolar americano, até as passagens revelando o interior de edificações egípcias. Vale a pena estar atendo para encontrar os códigos secretos que permeiam o filme. Abaixo, o trailler oficial de National Treasure:


terça-feira, 5 de agosto de 2014

A ordem dos irmãos "pedreiros".

" Se dentro do Compasso ficares, decerto estarás,
livre de um problema que aos demais afligirá."
Mensagem maçônica. 1


           De todas as ordens secretas, talvez a de menor complexidade e maior facilidade de compreensão é a Maçonaria. Diferente das outras ordens cuja origem muitas vezes se perde no tempo ou mesmo na história, a ordem dos irmãos maçônicos se correlaciona com a evolução da arquitetura já que surgiu nos canteiros de obra das mais importantes edificações do período medieval. 2   Nasceu na Europa católica, quando a poderosa Igreja proibia reuniões de pessoas que pudessem questionar ou colocar em risco seu domínio. Assim, para fugir dos inquisidores, grupos da iniciante classe média (intelectuais, artesões e comerciantes) formaram uma espécie de associação secreta, que visava a busca da verdade através da razão e da ciência e não apenas através da fé. 

Ilustração de Rito Maçônico.
fonte: www.google.com

       Segundo estudiosos, a Maçonaria se inspirou na organização dos pedreiros que trabalharam na construção do Templo de Salomão 3 , originalmente erguido no estado de Israel. Para gerir um empreendimento monumental  numa época com poucos recursos tecnológicos ou sistemáticos, criou-se uma metodologia simples e funcional, e para fins de remuneração e obediência os pedreiros foram divididos em três classes: aprendiz, companheiro e mestre.  4   Cada classe tinha um conjunto de códigos e sinais para que se reconhecessem entre si e, para não ocorrer tumultos ou brigas, frequentemente  haviam reuniões onde os mestres conscientizavam a importância do respeito mútuo e ajuda ao próximo para que aquele empreendimento pudesse chegar ao fim.

           Embora não existam dúvidas quanto ao momento histórico que originou a Maçonaria, a simbologia que a ordem utiliza nos textos ou mesmo na decoração de seus edifícios  possui uma linguagem complexa e algumas vezes duvidosa  para os não-iniciados, se apropriando de figuras geométricas e sinais com conotação esotérica  5 , além de gestos e posturas com total coerência ás crenças originais. Das muitas figuras utilizadas pelos maçons, talvez a única figura cuja compreensão é universal é a do “triangulo” que já na Antiguidade Clássica estava ligado a Deus, ou como é mais conhecido pelos maçons, o Grande Arquiteto do Universo. 

Painél com simbolismo maçônico.
fonte: www.google.com

          Mesmo com certa tendência mística a maçonaria é uma organização não religiosa, cujos membros podem ser de qualquer credo, desde que acreditem num único Deus. Apesar de não possuir definição político ou religiosa, a maçonaria sempre procurou interferir no campo político-ideológico, o que faziam ora estar no poder, ora serem perseguidos. Perseguidos na Europa, começaram a chegar ao Brasil no século XVIII, durante o ciclo do ouro.


         No Brasil ou mesmo no exterior, a influência da ordem pode ser notada no panorama de inúmeras cidades, seja pela presença do monumento com a letra “G” em um ponto urbano importante, ou pela imponência do edifício de suas “lojas”.  Se na Europa os símbolos maçons tinham que ser discreto por causa das freqüentes perseguições, o mesmo não acontecia aqui pois desde a chegada dos primeiros maçons – estabelecidos na Bahia em 1807  –  houve total simpatia com a ordem secreta fazendo com que muitos padres participassem como afiliados apesar do mandamento contrário da Igreja – 6 – cujo exemplo urbano  pode ser observado no centro histórico de Paraty, em que os  sobrados cujos proprietários eram maçons possuem faixas repletas de desenhos geométricos de linguagem maçônica.


1. Mensagem maçônica.

2. Segundo o dicionário Michaelis, a palavra ma.çon. nm 1 pedreiro. 2 maçom.
Talvez daí venha a relação da Maçonaria com pedreiros, se apropriando de  alguns símbolos
 relacionados à essa atividade profissional e subvertendo seu papel primário 
para outro com sentido mais místico

3. A inspiração na arquitetura do antigo Templo de Salomão está presente tanto na própria 
decoração das lojas – onde duas colunas erguem-se em lugar de destaque com simbologia 
específica – ou mesmo na estrutura organizacional da ordem – caso do segundo grau, 
cujo painél possui a representação deste templo aludindo à frase bíblica
 “Não sabeis que vós sois o templo?”.  – segundo MacNulty, W. Kirk. A Maçonaria. Simbolos, segredos e significado. Editora Martins Fontes, São Paulo, 212.  p 166

4. Os três primeiros Graus da Maçonaria  - os de Aprendiz, Companheiro e Mestre – 
são os chamados Graus simbólicos e são o fundamento da Ordem Maçônica;
 juntos reúnem todo o ensinamento essencial da ordem.

5. Na Idade Média, a geometria era entendida como um atributo da Divindade.
 Vários manuscritos apresentam a figura de um homem portando um compasso ou
 alguma instrumento de desenho, simbolizando na maioria das vezes o 
Deus Maior projetando o Universo. Essas crenças estavam em sintonia com a concepção maçônica
 do “Grande Arquiteto do Universo”, o principio criativo que governa todas as coisas.  – MacNulty, W. Kirk. A Maçonaria. Simbolos, segredos e significado. Editora Martins Fontes, São Paulo, 212.

6 . O cenário favorável à Maçonaria no Brasil foi algo diferente do que houve em toda a Europa, 
onde a Igreja Católica perseguia os membros afiliados cumprindo a 
Bula Papal do Papa Clemente XII, do ano de 1738. 
MacNulty, W. Kirk. A Maçonaria. Simbolos, segredos e significado. 
Editora Martins Fontes, São Paulo, 212. p 128.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

As ordens iniciáticas e sua influência na arquitetura religiosa e civil.

“A realidade histórica pode ser considerada por dois aspectos.
 Um aspecto concernente a opinião geral – e esse torna-se mais tarde, a história, graças às pessoas que colocam por escrito as informações (...). 
O outro ao contrário, trata-se dos acontecimentos  que não se tornam públicos. 
É o mundo do comportamento das lojas secretas (...)”.
                                                                                  VAN HELSING, Jan. As sociedades secretas e seu poder no século XX.


        Ainda que o século XXI estabeleça outros interesses para a concepção de uma cidade, ou mesmo o sujeito contemporâneo implique em novos programas de necessidades para os edifícios religiosos, não existe como dissociar a importância de algumas ordens iniciáticas na paisagem das cidades modernas.  Embora o uso de algumas edificações datadas dos séculos XV e XVI seja adaptado para nossa sociedade, determinados prédios se sobressaem no panorama urbano, sendo impossível não notar algum traço simbólico em suas arquiteturas.

Detalhe da decoração da fachada de casa em Paraty, RJ
www.paraty.tur.br

           Além disso, embora não haja um interesse revelado da população para com os assuntos espirituais, a forma como o mundo segue sempre desperta na sociedade perguntas cujos “porquês”, algumas vezes, podem ser respondidos por intermédio dos estudos realizados nestas ordens ramificadas pelos antigos cavaleiros Templários, denominadas na modernidade como rosacruzes, maçons ou outras nomenclaturas cuja origem se deu neste primeiro momento de troca de informações entre o Oriente e o Ocidente. E mesmo existindo divergências sobre a criação destas ordens secretas, não há duvida quanto à contribuição que as viagens ao Oriente trouxeram na literatura básica destes movimentos, refletindo diretamente no simbolismo, espiritualidade e na arquitetura produzida sob orientação de seus adeptos. 2

Detalhe do piso da Catedral de Chartres, França
 http://www. forgottendm.blogspot.com

           Independente do caráter secreto destas ordens ou mesmo da fama negativa criada pela repulsa da Igreja Católica para com os membros iniciados, o intuito dos artigos apresentados nos próximos posts não é de traduzir os símbolos mas desmistifica-los, revelando seu uso mesmo que intrínseco em algumas igrejas com decoração emocionante, ou na arquitetura civil de algumas cidades. Neste período de quebra dos conceitos pré-estabelecidos pelas religiões fundamentalistas, algumas abordagens com caráter mais acadêmico e menos místico são importantes para analisarmos as edificações que nos “tocam”, entendendo a correlação entre todos os movimentos religiosos e principalmente que o progresso em muitos momentos só foi possível graças à liberdade intelectual que as ordens secretas proporcionava aos seus adeptos.


1 – Como responsável pelo “arqsagrado”  e estudioso de arquitetura religiosa, reforço a simpatia e o respeito por todas as religiões, e a preocupação em conhecer a maior parte da bibliografia criada com temas que estejam relacionados ao assunto principal deste blog.  Embora o autor alemão Jan Van Helsing seja algumas vezes considerado “xenofobista” em suas abordagens, o trecho foi reproduzido apenas porque era adequado à introdução deste artigo, não compactuando com qualquer citação do autor que soe preconceituosa.

2 – Sobre as origens da AMORC Rosa Cruz: “(...) Houve uma época em que se acreditava que a origem dos rosacruzes não fora anterior ao século 17, época em que a Ordem ressurgiu em um novo ciclo de atividades na Alemanha, e que seu nascimento tradicional se situava em algum período da era cristã. Documentos históricos, manuscritos e referencias autênticos, descobertos no século 19 recuaram a verdadeira origem e existência da Ordem até o chamado período tradicional: seu nobre nascimento remonta ao Antigo Egito, há mais de trinta séculos. Trechos desta fascinante história foram divulgados pela primeira vez na revista American Rosae Crucis, em 1916.”. 
Revista O RosaCruz, 4° Trimestre de 2008, por Clarice N.V. Pessoa. 
Sobre a Maçonaria: “ A origem da Maçonaria é sempre um dos maiores enigmas da histórica. O oficio operativo dos pedreiros medievias, os Cavaleiros Templários, os arquitetors e artesãos que construíram o Templo de Salomão, até os Mistérios do mundo antigo – todos foram apresentados como possíveis originadores da Ordem.
 Estudos mais recentes, porém, demonstraram que boa parte da fundamentação filosófica surgiu no Renascimento, 
quando a uma curiosa fusão de tradições místicas como as da Cabala e do
 Hermetismo veio sobrepor-se uma estrutura simbólica derivada das corporações de ofícios medievais.” 
NULTY, W. Kirk Mac. A Maçonaria, símbolos, segredos e significado. Editora Martis Fontes, São Paulo, 2012.


segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A arte sacra de Romolo Picoli Ronchetti


De família capixaba religiosa, foi preciso ingressar no seminário para reconhecer sua grande vocação no serviço à Igreja Católica! Em entrevista ao ARQSAGRADO, o artista sacro Romolo Picoli Ronchetti fala sobre o que pensa a Igreja Católica Contemporânea sobre a arte, e os novos rumos da estética religiosa do século XXI.
Romolo trabalhando no painél do altar da Igreja Paroquial N.S. de Sabara.
Dioces de Santo Amaro.
 
1 – Seu trabalho carrega traços que revelam seu grande conhecimento na doutrina cristã-católica. Como aconteceu essa aproximação com este tipo muito particular de arte?
 
A vida de quem se deixa conduzir por Deus toma muitas vezes rumos para muito além de nossa imaginação! Quando eu estava terminando o Ensino Médio numa pequena cidade da zona rural do Espírito Santo (Marilândia), meu objetivo era estudar Física ou Matemática no Ensino Superior, e eu estava me preparando para isso... Inesperadamente um padre com tradições monásticas muito fortes assume a paróquia, e ao visitar minha família, convida-me para passar alguns dias, juntamente com outros jovens, em retiro de oração e meditação. Essa experiência foi decisiva na minha vida, e ascendeu em meu interior um interesse muito grande pela espiritualidade: decidi entrar no seminário! Incentivado por dois amigos, que hoje são padres, vim parar em São Paulo com 16 anos, para cursar o primeiro ano de Filosofia na Diocese de Santo Amaro, onde fiquei até quase terminar a Teologia. Saí do seminário e fui morar com o Pe. Samuel Pereira Viana, que considero o grande incentivador do meu trabalho. (...) Intelectual de primeira grandeza, iniciou-me no mundo da arte colocando-me para pintar uma Virgem com o Menino. (...)  Daí por diante eu comecei a estudar História da Arte por conta própria e por incentivo desse padre comecei a arriscar algumas pinceladas! Nesse ponto todos os processos da minha vida fazem sentido: deixei as Exatas para dedicar-me às Humanas; entrei no seminário e tive contato com a Liturgia, Direito Canônico, Teologia; fui morar numa paróquia e comecei a pintar.  E aqui estou eu, usando os conhecimentos teológico-litúrgicos para servir à Igreja e melhorar a cada dia meu trabalho como artista sacro.

Detalhe do painél da Paroquia de Santa Luzia, onde o artista
imprimiu sua propria estética.
2 – Dentre todos os murais que você já desenvolveu, qual foi o mais importante e por quê?
Para todo artista o melhor trabalho que ele já realizou é sempre o último. Para não deixar a pergunta numa vazia curiosidade, cito como um trabalho muito importante pra mim o que realizei na Paróquia Santa Luzia, Diocese de Santo Amaro. Todo artista sempre começa como copista de outro, e assim também se deu comigo, e cito esse mural, pois nele eu arrisquei todas as minhas fichas elaborando um trabalho particularmente meu. Esse trabalho é muito querido porque foi nele que apresentei o meu estilo, meu traço, minhas cores ao mundo e onde consegui realizar o objetivo da arte sacra: a transcendência e a veneração. Essa igreja fica num bairro muito castigado pela desigualdade social, mas quando se entra na igreja a impressão que se tem é de estar em outro mundo.  A atmosfera é outra, todo o espaço convida à oração e ao encontro com o Sagrado. Ali não existem diferenças, existe Unidade, consigo mesmo, com o outro,e com o Sagrado.
 
Detalhe do painél da Paroquia de Santa Luzia, onde o artista
imprimiu sua propria estética.
 
3 – Quem são seus mestres? Onde você busca referencias ou inspiração para a elaboração de seus painéis?

O único artista que até hoje foi capaz de criar a partir do nada é Deus, todos os outros são produtos do meio, da época, do subjetivo! Meu trabalho não seria diferente. Sou profundo admirador de dois grandes artistas brasileiros e tenho muitas influencias deles na cor e no traço: Cláudio Pastro e Lázaro Aparecido Diogo. Eles são os verdadeiros pais da minha arte. Mas devo confessar a influência muito clara que tenho da Antiguidade Cristã, da iconografia clássica: todo o figurativo do meu trabalho é uma releitura, uma inspiração na imagem de tradição iconográfica. Faço assim por ter a convicção de que esta tradição representa muitíssimo bem o Humano no âmbito da arte sacra, estando bem posicionada entre o real e o ideal; não é uma abstração nem um realismo, esta exatamente entre o Céu (o Sagrado, o Espiritual, o desprovido de formas) e a Terra (o humano, o carnal). Na composição dos meus trabalhos, uso ainda estudos particulares de outros dois artistas que admiro: Van Gogh (nas cores e na força da pincelada, na ausência de medo e sem pretensão de agradar)  e Portinari ( na desconstrução do espaço, na geometrização, na expressividade).
Tendência à verticalidade na obra de Romolo P.Ronchetti.
Painél da Igreja N.S. do Sabara, na Diocese de Santo Amaro.
 
4 – As forma de arte que você desenvolve nos traz referencias na arte bizantina, pela longevidade dos rostos e tendência á verticalidade por intermédio das formas geométricas, sejam retângulos ou elipses. As primeiras representações deste tipo, aqui no Brasil, segundo meu conhecimento foram elaboradas para igrejas ou capelas de ordens jesuíticas. Algumas ordens são mais abertas a este novo tipo de pintura mural, outras mais fechadas. Isto é realidade ou um mito? A Igreja Católica por completo está aberta ao “novo”, no que diz respeito às novas tipologias arquitetônicas ou artísticas?
 
Em toda a História, a Igreja sempre foi a grande incentivadora das Artes e das Ciências, mas também nunca pôde pôr de lado a Moral e a Teologia. Hoje o mesmo se dá: a Igreja incentiva a arte contemporânea, mas nem tudo serve como arte sacra.(...) Assim como qualquer instituição séria, a Igreja possui princípios e normas, e no que diz respeito à arte eles não são nem um pouco rígidos,  e a partir deles dá para afirmar que todo artista sacro é um artista plástico, mas nem todo artista plástico é um artista sacro! Toda a Arte Sacra Cristã tem uma razão de ser, ela brota da Revelação e esta a serviço da Liturgia, portanto a forma não pode estar desprovida de conteúdo e o artista deve ter um conhecimento teológico, bíblico, para que seu trabalho não seja um corpo sem espírito. Existem sim, alas conservadoras que vivem da reprodução do passado artístico, mas de uma forma geral, a Igreja está aberta ao 'novo'. Contudo não podemos cair na ilusão de pensar que ele pode ser qualquer coisa, precisa ser condizente com o espírito da Instituição, com sua missão: se nas formas do 'novo' estiver o conteúdo da Revelação, a Teologia Cristã, o espírito Litúrgico, certamente haverá o reconhecimento, a Verdade, a presença do Invisível, a veneração; e aí certamente a Igreja irá acolher e incentivar como Arte Sacra.  Existem, evidentemente, escolas, faculdades, instituições que são de iniciativa de Ordens Religiosas Católicas que incentivam a produção da Arte contemporânea nos mais diversos setores (moda, arquitetura, artes plásticas, artes cênicas, arte digital...) mas nem tudo que é produzido serve para ser Arte Sacra.
 
Detalhe do painél na Igreja Paroquial do Sagrado Coração de
Jesus, em Boiçucanga.
 
 5 – Muitas vezes o trabalho mural pode ser encarado como mera decoração do interior de igrejas. Contudo, os novos projetos dos templos católicos são tão complexos que a referencia ao sagrado fica difícil de ser reconhecida se não pelo contato com a pintura ou arte decorativa. Em algumas igrejas, a estatuaria foi substituída por decorações nas paredes, bem à maneira das igrejas ortodoxas, ou mesmo de paredes islâmicas ou hindus. Como você entende a importância de sua arte neste período em que o interior das igrejas está sendo “desnudado”?
 
O trabalho mural nos templos cristãos sempre teve uma função pedagógica e catequética: por meio da imagem ensina-se algo da Revelação de Deus, ou da vida eclesial.  A falta do reconhecimento que você denuncia nessa questão esta justamente na ausência do conteúdo  como elemento primordial na arte autenticamente sacra. Algumas igrejas têm formas muito boas, complexas, mas carecem de conteúdo, não possuem referência ao sagrado, são apenas fruto de uma técnica muito rebuscada em que o objetivo é a autoafirmação de um ego idolátrico.
 
Quanto ao desnudamento no interior do espaço sagrado observado hoje, ele é fruto de uma busca do Centro. Com o passar do tempo os templos cristãos foram tornando-se palco de manifestação de uma religiosidade subjetiva, devocional; fiéis e clérigos piedosos –  bem intencionados, mas mal orientados e com gosto duvidoso – foram enchendo  as igrejas de imagens de santos, Madonas, anjos, rendinhas, paninhos, flores artificiais e a lista prossegue assustadoramente, tudo isso desordenadamente! Hoje o que vemos nas reformas e construções de novas igrejas, é a referência primeira que dá vida e força para uma autêntica vida eclesial, que dá sentido à vida espiritual. O mundo moderno é cheio de informações, imagens diversas; o templo deve ser o lugar da transcendência, o lugar do Encontro, do Reconhecimento, e nesse sentido o Vazio é visto como o lugar onde habita o Sagrado. No Espaço Sagrado tudo é meticulosamente planejado para não se perder justamente o Centro: Jesus Cristo, o centro e a plenitude da Revelação de Deus; o rosto humano pelo qual Deus se mostra ao Homem. A partir desse Centro que todos os elementos devem ser organizados . Agora, quando o 'desnudamento' não é seguido de uma nova 'roupagem', ou seja, quando a retirada das imagens tem por objetivo o Vazio por ele mesmo, não esta condizendo com os princípios cristãos da arte, pois a arte cristã tem seu centro no Deus que se fez Homem, e não no Deus invisível do Antigo Testamento. Por isso, a importância que vejo no meu trabalho nesse processo atual de 'desnudamento', é dar a 'roupa nova', é tirar o velho e pôr algo novo no seu lugar, é ressaltar o que realmente é o Centro, o Foco , no culto e na vida eclesial. Entendo que um templo vazio e carente de referências simbólicas, é como um homem diante de várias opções de caminhos: sem saber aonde quer chegar, qualquer lugar leva a lugar nenhum. Meu trabalho é mostrar o caminho, é convidar à oração, e facilitar a liturgia.
 
Mural na Paróquia de Nossa Senhora Aparecida, em São Carlos.
6 – Seu trabalho contribui muito para situar determinadas igrejas em um contexto arquitetônico mais contemporâneo, haja vista as intervenções em edificações de meados do século XX.  Você já foi alvo de criticas por parte de grupos mais tradicionalistas da igreja?

As críticas sempre existem, e muitas vezes nos fazem crescer. Sou constantemente alvo de duras críticas, mas todas elas são as chamadas 'críticas de gosto' ,  particulares, e não de grupos . Estão sempre no nível do subjetivo, do gosto sem justificativa: não gosto de vermelho, não entendi esse monte de quadrados, esse anjo tem asas muito grandes!  As críticas mais teóricas, feitas por pessoas que defendem no nível mais conceitual determinados estilos de arte ainda não chegaram ao meu conhecimento e quando chegarem certamente vou utiliza-las para o crescimento do trabalho que faço.
 
Painél da Comunidade de Santa Rita de Cassia.
 
 7 – Quais são seus novos desafios? Existe algum trabalho ou algum ícone religioso que você deseja pintar ou esculpir futuramente?

Trabalhar com Arte Sacra já é por si mesmo um grande desafio! Deixar de lado a autoafirmação para poder desenvolver um trabalho sólido, com conteúdo, guiado pelo Espírito Santo é sempre uma tarefa árdua! Podem considerar espiritual demais nessa afirmação – em alguns momentos até concordo que seja! –, mas se o artista sacro não tem intimidade com o objeto de sua arte, se ele não tem vida espiritual, dificilmente conseguirá desenvolver um trabalho que leve o espectador à experiência do sagrado. E aqui faço uma revelação em tom muito confessional: sabe qual é o grande desafio , diante do qual eu sempre tremo? Pintar o rosto de Cristo! Pra mim é sempre uma responsabilidade muito grande tornar visível o Rosto do Amor, o rosto diante do qual muitos vão derramar suas lágrimas pedindo ajuda, diante qual doentes vão pedir a cura para suas doenças, pessoas deprimidas vão buscar consolo, mães vão rezar pelos seus filhos! Confesso, sempre paro e fico muito tempo em silêncio , percebo  o quanto sou indigno de realizar essa tarefa, é onde acredito piamente na força do Espírito Santo, pois sem Ele meus Cristos estariam todos com o rosto em branco...

Cristo. Painél da Paróquia de São João Maria Vianney, Santo Amaro

8 – Finalizando, pediria a você um conselho para os leitores do blog que admiram sua arte e pretendem desenvolver um trabalho da mesma importância para trazer cada vez mais a religião católica aos tempos atuais.

O conselho que dou para quem quer desenvolver um trabalho autenticamente sacro é educar o olhar e preparar o espírito: estudar História da Arte Sacra Cristã, ver como a arte foi feita e como se desenvolveu na história, seus símbolos frequentes, como a forma e o conteúdo se harmonizam. Estudar liturgia, seus tempos, seus movimentos, seus gestos e símbolos. Ter contato com a Palavra de Deus e com a Teologia, sem elas não existe Arte Sacra ; cultivar uma vida de oração saudável, ela ajuda muito a técnica desenvolver-se. Colocar a Arte Sacra Cristã para dialogar com a cultura contemporânea não significa abandonar a Tradição, esquecer o passado, deixar de lado os próprios princípios e símbolos, mas sim, usar o que de melhor existe na contemporaneidade para melhor exprimir o Mistério de Deus, que está sempre para além dos conceitos, fórmulas, teorias, estruturas, mas sempre acessível pela Arte!

Projeto para a fachada externa da Paróquia de São Paulo, Diocese de Santo Amaro.

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