segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Princípios religiosos da Fé Baha'i

“ Ó vós que habitais a terra! A religião de Deus visa o amor e união; não a torneis causa de inimizade e conflito... Nutrimos a esperança de que o povo de Bahá possa ser guiado pelas palavras abençoadas: "Vede! Todas as coisas são de Deus!" Esta excelsa afirmação é como água para extinguir o fogo do ódio e da inimizade latente dentro dos corações e peitos dos homens.. Ele, deveras, diz a verdade e mostra o caminho. Ele é o Todo-Poderoso, o Excelso, o Benévolo. “
1. Ensinamento Bahá'í
Os ensinamentos  Bahá'ís,  assim como o de outras religiões, definem que o propósito da vida é o crescimento espiritual. Este  processo é gradual, como em um embrião no ventre materno, continuando eternamente após a morte. O paraíso referido em muitas escrituras religiosas, é apontado na Fé Bahá'í como metafórico, já que o desenvolvimento é eterno, tratando-se para eles, apenas de uma definição necessária adotada pelos profetas anteriores para melhor compreensão dos povos da época.
Todos os ensinamentos Bahá'ís  giram ao redor de três alicerces principais: a unidade de Deus, unidade de Seus Profetas, unidade da humanidade.
Um só Deus, uma só Religião, um só Mundo - ensinamentos Baha'i.
 Um só Deus
Os Bahá'ís acreditam na existência de um único Deus, o criador de todas as coisas. A existência de Deus é considerada eterna, não tendo começo ou fim. Segundo os  ensinamentos Bahá'ís, Deus é inacessível e incognoscível, mas tem consciência de sua criação, tem uma vontade e propósito. Os ensinamentos Bahá'ís também declaram que Deus não pode ser compreendido pela mente humana. Eles  acreditam que Deus expressa sua vontade através de uma série de Mmensageiros Divinos referidos por "Manifestantes de Deus" ou "Profetas". Esses Manifestantes estabelecem as bases das grandes religiões mundiais, e os seus ensinamentos são uma forma de Deus educar a humanidade.  Nas escrituras Bahá'ís, Deus é frequentemente referido por títulos, como "Todo-Poderoso", "Onisciente", "Suprema Sabedoria", "Aquele que subsiste por si próprio".
Uma só Religião
 A despeito de constantes conflitos que há séculos envolvem as religiões na visão de inúmeros expositores, os Bahá'ís se apoiam nos próprios ensinamentos dessas religiões para enfatizar que todas as religiões, ao contrário, ensinam o amor e a unidade - sendo a intolerância e o fanatismo origem de tais conflitos.  É proibido o fanatismo na Fé Bahá'í, o que consistiria em se fechar a dogmas que muitas vezes podem ser mal-interpretados. À luz do princípio de que todas as religiões provém de Deus, os homens podem procurar compreender e desta forma eliminar os preconceitos religiosos.
A 'religião de Deus', ou 'religião una' descrita através da sucessiva revelação Divina a cada época, foi denominada Revelação Progressiva. De acordo com os bahá'ís, este conceito não é exclusivo da Fé Bahá'í, mas apresentada de diferentes maneiras em todas as religiões. Moisés fez a promessa ao povo de seu tempo sobre a vinda de um Messias, quando Cristo afirmou ser o Prometido, também advertiu a seu povo sobre a vinda de um Messias. Os escritos bahá'ís delineiam categoricamente as religiões que fazem parte da revelação de Deus. Sobre a mudança entre as Leis e Ensinamentos de cada Manifestante, Bahá'u'lláh diz:
“ Ó povo! As palavras são reveladas segundo a capacidade, de modo que os principiantes possam fazer progresso. O leite deve ser dado segunda a medida, a fim de que a criancinha deste mundo, possa entrar no Reino da Grandeza e estabelecer-se na Corte da Unidade. “ 2
Os bahá'ís desenvolvem a idéia de que cada época diferente exige necessidades diferentes. Assim como as leis de um país precisam evoluir conforme evolui sua sociedade, as Leis de Deus sempre evoluem através das religiões, conforme evolui a humanidade.
Um só Mundo
Os Bahá'ís acreditam que o ser humano possui uma "alma racional", na qual provê à espécie uma capacidade única de reconhecer a Deus e a relação da humanidade com seu criador. Todo ser humano é considerado possuidor do dever de reconhecer a Deus através de seus mensageiros e de seus ensinamentos. Através do reconhecimento e obediência, serviço à humanidade e práticas espirituais, os Bahá'ís acreditam que a alma pode se aproximar de Deus. Quando um ser humano morre, a alma continua existindo no mundo espiritual próximo ou distante de Deus, descreve a relação entre este mundo e o próximo, não sendo nenhum lugar físico, nem a sujeição a recompensas ou punições.
Os Escritos Bahá'ís enfatizam a igualdade essencial do ser humano e a abolição de todos os tipos de preconceito. A humanidade é considerada essencialmente uma, embora diversificada; esta diversidade de raça e cultura é considerada merecedora de apreciação e tolerância. Doutrinas de racismo, nacionalismo, castas, e classes sociais são impedimentos artificiais da unidade. Os ensinamentos Bahá'ís declaram que a unificação da humanidade deve ser assunto principal sobre as condições religiosas e políticas no tempo presente.
Abaixo, a última parte da entrevista do arqutieto Luis Henrique, representante da Fé Bahá'í no 3° Encontro da Nova Consciência, de 1994.


Notas:

1. Esinamentos Baha'is, retirado do livro O Tabernáculo da Unidade.

2. Ensinamento Baha'i, retirado do livro "O segredo da Civilização Divina."

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Persépolis, livro e filme. França, 2007.

Capa do livro.
Persépolis narra de forma singela passagens autobiográficas da autora do livro em quadrinhos que deu origem a esta animação inteligente e brilhante, Marjane Satrapi. A adolescência de Satrapi desfila por cenários que testemunham a ditadura imposta pelo Xá no Irã e a posterior irrupção do regime fundamentalista dos ayatolás.

Em Teerã, capital iraniana, durante o ano de 1978, a criança Marjane, mergulhada em seus sonhos infantis, acalenta o desejo de se tornar uma profetisa quando crescer, pois assim terá poderes para salvar o Planeta. Ela tem diante de si o exemplo liberal de sua avó, marcante figura feminina que oferece à neta preciosas diretrizes morais e também um intenso senso de humor. Além disso, seus pais são modernos, adeptos da ideologia de esquerda e igualmente inteligentes.
Marjane vê se desenrolar diante de seus olhos a passagem de uma ditadura opressiva para um sistema regido por grupos islâmicos fanáticos, não menos cruéis que o antigo Xá. Eles determinam cada detalhe da vida dos iranianos, desde o comportamento até a forma de se trajar. A menina é então obrigada a usar um véu, o que lhe inspira a vontade de se converter em uma autêntica revolucionária.
Esta genial animação se vale de vários desenhos compostos em preto e branco, perpassados por densas faixas pretas, no interior das quais é possível encontrar diversas tonalidades em tons acinzentados. Mas o cuidado com o visual não pretende em momento algum ofuscar a beleza e a criatividade do que é narrado no centro dessa moldura formal. Certamente uma narrativa tradicional roubaria tanto do livro quanto do filme sua engenhosidade natural e a poética surpreendente que se encontra em ambos.
A animação desvela boa parte da história iraniana que se desenrola a partir do governo totalitário do Xá, retratando também o bombardeio de Teerã ao longo da guerra contra o Iraque, seguido por um incessante sumiço de pessoas. Este contexto desemboca em um sistema cada vez mais opressivo e cruel, no qual não faltam conflitos bélicos, torturas e crimes.
Diante desta preocupante situação, os pais de Marjane decidem enviá-la para Viena, capital austríaca, tentando assim impedir que algo terrível lhe aconteça. Aí a jovem experimenta outras tantas conturbações, mais relacionadas ao período da adolescência. Ela enfrenta questões como a liberdade, o amor, perpassados por boas doses de tristeza e melancolia, por se sentir distante de sua família, exilada de sua pátria. Marjane se sente inevitavelmente deslocada em seu novo refúgio.
A jovem se vê diante de um dilema crucial. Para conquistar o mínimo de liberdade necessária para qualquer ser humano, Marjane é obrigada a se manter em terra alheia. Se quiser voltar para seu país de origem, terá que abrir mão de tudo que pensa, sente e sonha.
O filme francês de animação estreou em 2007, escrito e dirigido por Satrapi e Vincent Paronnaud.  No Festival de Cannes de 2007, recebeu o prêmio do júri. Foi lançado na França e na Bélgica em 27 de junho do mesmo ano. No Brasil, foi lançado em 30 de outubro de 2007 no Festival Internacional de São Paulo e em 23 de fevereiro de 2008 no circuito comercial.

A animação do ponto de vista estético já seria uma boa dica para o fim de semana. No entanto, a sugestão para esta data está de acordo com a temática abordada nos tópicos desta semana, já que a história se passa no Irã, cidade importantíssima para a religião Baha’i, que estamos estudando. Vale a pena tentar entender o quão desafiador foi - e ainda é - apresentar conceitos religiosos mais abrangentes em um cenário fundamentalista tão severo.
A seguir, um trecho do filme Persépolis... Bom fim de semana!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Arquitetura simbólica Bahá’i

“Diz o Grande Ser: Ó bem-amados! Ergueu-se o tabernáculo da unidade; não vos considereis uns aos outros como estranhos. Sois os frutos de uma só árvore e as folhas do mesmo ramo. “
Ensinamento Bahá’i. 1

Na contemporaneidade, a decadência das religiões fundamentalistas gerou a dessacralização dos símbolos considerados divinos na arquitetura. Em tempos de conflitos e divergências nos dogmas das religiões, os novos programas de necessidade exigem o minimalismo e a escassez de simbologia na arquitetura religiosa, a fim de não mais confundir os fiéis. Neste cenário  a-religioso, os edificios mais magníficos cujo projeto partiu do uso de números ou geometrias  sagradas são projetados para usos profanos, em geral complexos edificios com volumes rigorosamente diagramados para vencer alturas inimagináveis, como as Torres Petronas, na Malásia. 2
Torres Petrona, Malásia. 2
fonte: http://www.wikipedia.com/
 Na contramão da simplista produção arquitetônica religiosa estão os templos da Fé Bahá'í. Na simbologia Bahá'í, a geometria adorada é a mais complexa existente, estrelas e polígonos obtidos a partir dos números 8 e 9,  constantemente   representados já na planta arquitetônica de seus edifícios.
A estrela de oito pontas é utilizada com sua simbologia original, diferente de seu siginifcado no projeto das Torres Petrona. Ainda que apenas nos detalhes decorativos do Centro Mundial de Haifa, no Monte Carmelo, o resgate desta intrincada geometria neste projeto foi suficiente para propagar seu uso em outros edificios religiosos atuais, recordando principalmente a cultura e a arquitetura do islamismo.
O número nove representa para muitos o número da perfeição. Diferente do significado da estrela de oito pontas, a  estrela de nove pontas, não representa apenas uma, mas as nove religiões monoteístas, classificadas segundo os ensinamentos Bahá’i. 3.  Além deste significado, o número  nove se torna importante por ser o número de anos do intervalo entre a revelação do Báb (1844) e a de Bahá'u'lláh (1853), e  também  pelo valor numérico da palavra Bahá` em Árabe.
Templo Baha'i de Chicago, EUA.
fonte: http://www.bahai.org.br/
 Embora sejam um único prédio coroado por um domo imponente  , os templos Bahá'ís têm todos nove entradas  4. Assim conhecidos como “Casas de Adoração” pelos bahá'ís, esses templos são construídos unicamente para a realização de orações. Não havendo nenhuma espécie de culto, é permitido a livre entrada de pessoas de todas as religiões. Atualmente, todas as Casas de Adoração possuem apenas uma sala sem divisão sob o domo, e os assentos do auditório são voltados para o Santuário de Bahá'u'lláh em Akka, Israel. Lá, cada indivíduo é incentivado a recitar as palavras reveladas por seu Deus, sejam estas de Krishna, Moisés, Zoroastro, Buda, Cristo, Maomé, Báb ou Bahá'u'lláh.
Templo Baha'i, India.
fonte: http://www.google.com/
Além do carater simbólico da planta, outro aspecto marcante na arquitetura destes templos é o resgate do desenho, técnicas construtivas ou mesmo do emprego de materiais  próprios da cultura local onde o edifício está instalado. E ao redor destes templos, os jardins serão ornamentados apenas com plantas e árvores específicas do lugar.
Templo Baha'i, Panamá.
Importante notar o uso de técnicas construtivas locais na arquitetura do edifício.
http://www.bahai.org.br/


 Para ver um pouco mais sobre arquitetura Baha'i, clique no video abaixo:


Notas:

1. Ensinamento Baha'i. Epístolas de Bahá'u'lláh

2 .Torres Petrona  são dois arranha-céus edificados na cidade de Kuala Lumpur, Malásia, cuja base a partir da estrela de 8 pontas recorda os motivos encontrados na arte religiosa islâmica. As torres de aço e vidro foram projetadas pelo arquiteto Cesar Pelli. Concluído em 1998, tem 88 andares e atualmente é o terceiro edifício mais alto do mundo (pronto), com 452 metros.
3. A religião Bahá'í considera nove as religiões monoteístas : Sabeismo, Hinduísmo, Judaísmo, Zoroastrismo, Budismo, Cristianismo, Islamismo, Fé Babí e Fé Bahá'í. Contudo, essas não foram as únicas religiões reveladas, vindo a existir muitas outras anteriores, mas são as que ainda existem.
4. Os Escritos da Fé Bahá'i relativos à estrutura dos templos Bahá'ís, definem que estes devem possuir duas características básicas: possuir nove entradas e coroadas por um domo central no topo. Por simbolizarem a Unidade de Deus, Unidade de todos os Seus profetas e a Unidade da Humanidade, a edificação deve dar a impressão de um único bloco arquitetônico.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Bahá'í, a religião da Unidade

“ Não se vanglorie o Homem em amar a sua pátria,
antes tenha ele glória em amar a sua espécie.
 A terra é um só país e os seres humanos são seus cidadãos.”
Ensinamento Bahá'í. 1
Mirzá Husayn Ali (1817-1892), o Bahá' u' lláh.

A palavra Bahá'í pode ser usada para referir a fé Bahá'í ou os seguidores desta religião particular. Esta palavra deriva do termo árabe "Bahá" (بهاء) que significa glória ou esplendor.
A religião Bahá'i foi fundada por Mirzá Husayn Ali (1817-1892) na antiga Pérsia, atual Irã, em 1844. Nascido em Teerã,  Mirzá proclamou-se Bahá' u' lláh, “Glória de Deus”,  e deu início a uma nova fé que defendia a união de todas as religiões e a crença de que somos todos parte de um mesma unidade universal.
Por enfatizar a unidade espiritual da humanidade, a Fé Bahá'í permaneceu monoteísta. Trata-se de uma religião independente que possui as suas próprias leis, escrituras sagradas, administração e calendário, mas não possui dogmas, clero, nem sacerdócio.
Os fiéis acreditam que os fundadores das grandes religiões monoteístas foram igualmente “Mensageiros do Divino”, fazendo parte de um plano maior divino de educação dos seres humanos. Eles combatem qualquer tipo de preconceito, seja por raça, religião ou classe social, e defendem a igualdade de direitos entre homens e mulheres.

Os ensinamentos Bahá'ís atribuem grande importância ao conceito de unidade das religiões. A história religiosa da humanidade é vista como um processo de desenvolvimento gradual, em que surgem diversos Mensageiros Divinos com ensinamentos adequados às necessidades de cada momento e à maturidade de cada povo. Esses mensageiros incluem Krishna, Abraão, Buda, Jesus, Maomé e, mais recentemente, O Báb e Bahá'u'lláh. Segundo os ensinamentos Bahá'ís, a humanidade encontra-se num processo de evolução coletiva a caminho de uma civilização mundial, e as suas necessidade atuais centram-se, essencialmente, no estabelecimento gradual da paz, justiça e unidade a uma escala global.

O principal templo Bahá'i fica em Acre, próximo a Haifa, em Israel, onde  Bahá' u' lláh ficou preso durante seus últimos anos de vida. No santuário encontra-se o corpo de Bab, O Profeta, visto pelos seguidores da fé Bahá'i como o “Mensageiro de Deus”, pois foi ele que no século XIX previu o nascimento desta religião.
A Fé Bahá'í é a segunda religião mais espalhada entre as religiões independentes, estabelecida em 247 países e territórios; representando cerca de 2.100 grupos étnicos, raciais e tribais; as escrituras bahá'ís foram traduzidas para aproximadamente 800 línguas, possuindo 7 milhões de adeptos no mundo.  O país que possui maior concentração de Bahá'ís é a Índia, com 2,2 milhões de seguidores. O segundo é o Irã com cerca de 1 milhão de Bahá'ís.   No Brasil estima-se 57 mil membros, e o Centro Nacional Bahá'i fica em Brasília.
O vídeo abaixo apresenta uma entrevista com Luis Henrique, arquiteto e representante da Fé Bahá'í no 3° Encontro da Nova Cosnciência. Vídeo de 1994.



Notas:

1. Seleção dos Escritos de 'Abdu'l-Bahá

2. Dados da Enciclopédia Britânica de 1992, levando em consideração o número de países alcançados, confirmado através do site http://www.britannica.com/, em 30 de janeiro de 2012.

Mais informações: http://www.bahai.org.br/

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Havdalá


"Penso 99 vezes e nada descubro.
Deixo de pensar, mergulho no silêncio, e a verdade me é revelada."
Albert Einstein. 1879-1955

Após um período sabático, o ArqSagrado retorna com sua missão de provocar discussões sobre a Religião e a Arquitetura Sagrada. Os estudos que antecederam este retorno seguiram em ordem cronológica, de acordo com a história da humanidade, e seguindo o índice estabelecido em meu trabalho acadêmico denominado Biblioteca Antropo-Teológica, do ano de 2007.
Percebi durante este primeiro ano os assuntos mais procurados e os temas que ainda não havia abordado naquele trabalho acadêmico, ou por impossibilidade de tratá-lo na Universidade Católica ou mesmo porque não estavam de acordo com o rumo que aquele  trabalho seguia. Estes assuntos serão tratados nos próximos posts, sempre tendo como referência uma bibliografia consistente, estudando as mais diversas manifestações de religiosidade desprovido de qualquer preconceito, característica marcante deste blog.
Uma vez que as postagens são elaboradas após um processo de experimentação da arquitetura religiosa, o tempo entre elas não será homogêneo, já que alguns temas requerem um trabalho de pesquisa mais intenso, e a busca de livros que realmente apresentem o tema de forma clara, livre da emoção que a experiência mística oferece. Contudo, prometo sempre preencher estas lacunas com sugestões de filmes, visitas a lugares, livros interessantes ou mesmo imagens que possam contribuir para o estudo da Geometria Sagrada.
Iniciando o ano de forma diferente, não olharemos para o passado, mas para o presente: a religião “Fé Bahá'í”, o mais interessante fenômeno religioso da atualidade, cujas edificações fazem parte da melhor produção arquitetônica religiosa contemporânea. Para quem gosta de boa arquitetura, vale a pena colocar as nove cidades nos roteiros de viagem deste ano. O vídeo abaixo refere-se ao Templo em fase de construção na cidade de Colina, a norte de Santiago, no  Chile. Aproveite para espiar um pouco do que vamos estudar em breve.

Nos vemos!

Fabricio Forg, arquiteto.
 

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Arquitetura Sagrada para Orações Modernas - final.

"Contrariamente às predições dos sociólogos da religião das décadas de 50 e 60,
 que apostaram num processo de decadência da religião, fruto do avanço da técnica e da Modernidade,
parece que assistimos a uma revitalização religiosa através de fenômenos, como o avanço do fundamentalismo,
a difusão do pluralismo religioso e a fragilidade das instituições religiosas (Igrejas),
como únicas portadoras de certezas existenciais."
Brenda Carranza, 1998. 1

              A produção e a experiência da arquitetura – como a de qualquer outra arte – constituem sempre atos crítico-históricos, envolvendo o que o arquiteto e o espectador aprenderam a distinguir e a imaginar através de suas próprias relações com a vida e com as coisas.  Segue- se  portanto  que  a   força   e   o   valor   de   nosso   contato   com   a   arte  e  arquitetura  dependerão da qualidade de nosso conhecimento histórico.
Não existe maneira de separar a forma do significado; uma coisa não pode existir sem a outra. O que pode haver são  apenas  diferentes  avaliações  críticas  dos  principais  métodos mediante os quais a forma transmite significado ao espectador. A memória é o agente operante pertinente neste processo de resgate. Tanto a empatia quanto a identificação de sinais são respostas aprendidas,  resultado de experiências culturais específicas. 2
O resgate de um vocabulário arquitetônico anterior já havia sido praticado por inúmeros arquitetos, dentre eles Michelangelo, por exemplo, que “tendo raramente adotado um tema [em sua arquitetura] sem lhe dar uma nova forma ou um novo significado (...) reteve invariavelmente características essenciais de antigos modelos para forçar o observador a recordar a fonte ao mesmo tempo em que desfrutava das inovações.” 3  Os arquitetos contemporâneos acreditam que “quando hoje reexamina-se – ou descobre-se – este ou aquele aspecto da produção de construções de outros tempos, não é com a idéia de repetir suas formas; é, antes, na expectativa de alimentar mais amplamente novas sensibilidades que são inteiramente fruto do presente.” 4  ; e uma citação da década de 1960 do arquiteto Robert Venturi também serve como complemento ao pensamento acima “os elementos convencionais em arquitetura representam um estágio no desenvolvimento evolutivo e contém, na alteração de seu uso e expressão, parte de seu significado passado, assim como de seu novo significado . (...) isso é o resultado de uma combinação mais ou menos ambígua do antigo significado, convocado por associações, com um novo significado, criado pela função modificada ou nova, estrutural ou programática, e pelo novo contexto (...) o elemento vestigial desencoraja a clareza de significado e promove, em seu lugar, a riqueza de significado.” 5.  A arquitetura contemporânea produzida a partir do resgate de formas simbólicas passadas capacita antigos lugares-comuns com novos contextos, ricos em significados ambiguamente velhos e novos, banais e brilhantes. 6

Templo Bahai - India.
http://www.google.com.br/
Independente do vocabulário arquitetônico escolhido para determinado projeto, o arquiteto deve se adaptar as exigências da massa pós-moderna (consumista e descompromissada), composta por vários tipos de indivíduos. Sem ideais sólidos, o homem contemporâneo dedica-se a causas periféricas, e as religiões são substituídas por esoterismo ou outras filosofias, não menosprezando o valor de cada uma delas. Pensa mais em expandir a mente do que na salvação da alma. As novas práticas são libertadoras e a religião continua culpabilizante. “As religiões se marginalizaram. Elas se afastaram das experiências concretas das pessoas (...) As religiões como muitos hoje já tem convicção, não fazem mais apelo à arte. Elas se puseram fora de combate.” diria James Turrel quando questionado sobre o distanciamento das artes da religião. 7
 Para os poucos homens religiosos do século XXI, o espaço ainda continua heterogêneo; ele apresenta roturas, quebras, existindo porções de espaço qualitativamente diferente das outras. Em contrapartida, para a experiência do sujeito contemporâneo, o espaço é homogêneo e neutro: nenhuma rotura diferencia as diversas partes de sua massa. Por vezes, o homem não-religioso segrega locais privilegiados, mas estes são qualitativamente diferentes dos outros: a paisagem natal, ou os sítios dos primeiros amores, ou certos lugares na cidade estrangeira visitada na juventude. São lugares com uma qualidade excepcional, única, são os lugares sagrados do seu universo privado, como se neles um ser não-religioso tivesse tido a revelação de uma outra realidade, diferente daquela de que participa em sua existência cotidiana. 8

Notas:

1. CARRANZA, Brenda. in http://www.pime.org.br/mundoemissao/religgeralseculo.htm, texto sobre a religião no século XXI
2. SCULLY,Vicent. apud  VENTURI, Robert. Complexidade e contradição em arquitetura. Sp. Editora Martins fontes. 2004.  nota à segunda edição.

3. ACKERMAN, James. apud VENTURI, Robert. Complexidade e contradição em arquitetura. SP. Editora Martins fontes. 2004.  p. 50.

4. HITCHCOCK, Henry Russel. apud VENTURI, Robert. Complexidade e contradição em arquitetura. SP. Editora Martins fontes. 2004. citação no prefácio XXV.

5.VENTURI, Robert. Complexidade e contradição em arquitetura. SP. Editora Martins Fontes. 2004. p.46.

6.  Ibid, p. 40.

7. TURRELL, James. Revista L’architecture d’aujord’hui, jan/fev. 2005 – edição nº 356. Entrevista concedida em Paris, no mês de outubro de 2004.

8. ELIADE, Mircea. O Sagrado e o profano. SP. Editora Martins Fontes. 1992. p.28.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Arquitetura Sagrada para Orações Modernas. 1

“A necessidade do arquiteto é criar aquele uníssono de
                                                               partes e detalhes que nas melhores edificações de todos os
                                               tempos remontou miraculosamente os processos imaginativos
                                                               a quantidades matemáticas e a contextos geométricos.”

           Erich Mendelson, 1887-1953. 1
Catedral de Brasilia - Oscar Niemeyer .
exemplo de simplificação da forma em arquitetura destinada ao Sagrado.
fonte:http://pt.urbarama.com/project/catedral-de-brasilia 

            Durante metade do século XX, os arquitetos acharam que uma nova tipologia finalmente daria um rumo à desordem proporcionada pela liberdade projetual da arquitetura iluminista: o movimento chamava-se Modernismo. Na década de 50 alguns jovens arquitetos com o Team X iniciaram a crítica aos preceitos dos CIAM (Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna), principalmente em relação ao urbanismo, ao contestar a famosa Carta de Atenas redigida por Le Corbusier, dentre eles Rykwert Peter Smithson e Aldo Van Eyc. 2   No entanto, as primeiras reações à excessiva dogmatização que a arquitetura moderna propôs surgiram, de uma forma rigorosa, por volta da década de 1970, tendo em nomes como Aldo Rossi e Robert Venturi seus principais expoentes.  
          A partir dos anos 70, preferiu-se a imagem ao original;  era o mundo do simulacro ocupando o espaço do real. O simulacro embelezava, intensificava, tendo encontrado na televisão o meio ideal para ser explorado, tornando tudo um espetáculo. A partir da queda do Muro de Berlim na década de 80, a quebra do bloqueio aos países do leste europeu proporcionou o processo de “liquidação” das ideologias. A informação espalhou-se em todos os cantos do planeta.  O homem foi globalizado mas, intelectualmente, estandardizado, acompanhando a produção em série das mercadorias, advinda da necessidade de otimização econômica. A serialidade foi uma forma de controle social e nas artes passou a ser um contraponto para muitos que consideravam a obra de arte como sendo única, original, irrepetível –  “(...) no momento em que o critério da autenticidade deixa de aplicar-se à produção artística, toda a função social da arte se transforma. Em vez de fundar-se no ritual, ela passa a fundar-se em outra práxis: a política(...)” 3
             A época contemporânea, caracterizada na cultura arquitetônica pelo abandono de todas as formas de ordem, de simetria e a chegada do desarmônico e do assimétrico, não se limita em suas considerações negativas. O momento contemporâneo é essencialmente cibernético, informático e informacional, aprofundando todo tipo de estudo e pesquisa.
Sabe-se de todo o processo teórico que os idealizadores do movimento moderno percorreram, porém a arquitetura em si propunha a simplificação e a concentração das formas, das linhas e do espaço, reduzindo-os à essência e ao serviço da funcionalidade. Em contraposição a essas características, o pensamento arquitetônico contemporâneo explora a incompatibilidade de estilos, formas e texturas. Em seus elementos estruturais relacionam contrastes como ordem dórica de colunas com sobriedade, impessoalidade com racionalidade, incorporando o ornamento como fundamental. Os projetos recuperam estilos, resgatando a história em um só conjunto. Os valores simbólicos também são retomados em comum com estilos antigos como o Barroco. Opõem-se as retas às curvas num ecletismo de formas; na união do ornamento barroco com o vidro fumé, por exemplo, cria-se um desequilíbrio de movimentos e fantasias. 4
Os arquitetos contemporâneos instigam o sagrado na ordem temporal utilizando o vocabulário arquitetônico das antigas construções religiosas. Isso se dá porque a sociedade ocidental do século XXI é herdeira do pensamento racionalista do Iluminismo, fundado na separação das esferas política e religiosa. E como herdeira deste período histórico tão importante, a arquitetura conseqüentemente, retorna em alguns momentos, a buscar a metodologia utilizada pelos arquitetos daquela época para as produções contemporâneas. Nos novos projetos, “profanam-se” algumas regras arquitetônicas sagradas, utilizando-as de forma a desaparecer a definição funcional dos edifícios, transformando-os em templos modernos dos novos deuses leigos. 5   

Notas:


Orações Modernas: termo criado pelos arquitetos Salwa e Selma Mikou, para matéria  sobre arquitetura
religiosa na edição nº 356 da  revista L’architecture d’aujord’hui, de jan/fev. 2005.

1. PENNICK, Nigel. Geometria Sagrada. SP. Editora Pensamento. 1980. p.68.

2. O Team X propôs, ainda nos anos 1950, recolocar nos projetos o homem real das ruas no lugar do Modulor, homem ideal, de Le Corbusier e da “velha guarda” dos CIAM.  As questões das diferenças individuais passaram a ser estudadas
no lugar do coletivo ideal. A idéia principal era de devolver a cidade a seus habitantes.
O grupo era heterogêneo e eclético, mas tinha a convicção comum de ir contra a doutrina da Carta de Atenas. Joseph Rykwert continua até hoje seguindo esta linhagem teórica, ao insistentemente buscar alternativas ao modernismo
 ao longo de toda sua obra. Pode-se notar uma influência direta de Van Eyck,
sobretudo temática, ligada ao estudo da mitologia e dos rituais, ou seja, ao resgate de um simbolismo primitivos
 claramente ausente do racionalismo do pensamento moderno.
http://www.vitruvius.com.br/resenhas/textos/resenha106.asp., acessado em  22 de maio de 2007, as 14h30.

3. QUEIROZ, Silvia de Souza. Brasilianas Neobarrocas na cena da contemporaneidade. http://www.arte.unb.br/anpap/queiroz.htm. 1996. apud BENJAMIN, Walter.
A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, in Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo. Editora Brasiliense, 1985.

4. QUEIROZ, Silvia de Souza. Brasilianas Neobarrocas na cena da contemporaneidade. http://www.arte.unb.br/anpap/queiroz.htm. 1996.


5. MIKOU, Selma. Revista L’architecture d’aujord’hui, jan/fev. 2005 – edição nº 356. artigo “Orações Modernas”, de Salwa e Selma Mikou.