quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Filme: Arn, o cavaleiro templario. 2007.

            Um conto de poder, coragem e traição, este filme, ambientado na Suécia, conta a inesquecível história de amor de Arn Magnussson, jovem culto e exímio esgrimista, e Cecilia, separados pela guerra entre cristãos e muçulmanos, quando ele é enviado como cavaleiro templário para a Terra Santa. Aprendendo a sobreviver e superar o sofrimento, eles jamais perdem sua confiança um no outro, nem a certeza de que se reencontrarão. Ao retornar à sua pátria, Arn tem que lutar por seu amor e pelo que se tornou a missão de sua vida: fazer da Suécia um único reino. No estilo “Cruzada”, mas com maior embasamento histórico, o filme relata a luta por Jerusalém, tomada por Saladino, com a ajuda dos cavaleiros templários.
          Quanto ao elenco, os críticos consideram uma ótima interpretação do protagonista, Joakim Nätterqvist, assim como Sofia Helin também tem bom trabalho. O elenco como um todo é muito bom, para um filme de produção de baixo orçamento. Além disso, o figurino e os efeitos também são excelentes, muito condizentes com a época. A direção também fez um trabalho muito bom, em especial com as câmeras. Até mesmo o roteiro é muito lógico e harmônico. Sem contar que, como pano de fundo, a belíssima história de amor resplandece e emociona.
          No final, o  filme que  apresentaria  vários motivos para um pré-conceito negativo - nenhum artista renomado, e uma produção de um país sem história no cinema no mundo (Suécia) - acaba por surpreender já ao ler a  sinopse, onde é possível detectar um bom ponto de partida, e uma boa produção fotográfica.



Ramon Llull e sua obssessão missionária - parte 2.

  
"... a maior amizade que deveria existir neste mundo deveria ser entre clérigo e cavaleiro"
 Ramon Lull.1       


          Tomado pelo clima religioso reinante na época, Ramon Llull  declarou-se imaginativo e iluminado, elaborando e propagando um método apologético que deveria difundir à conversão dos infiéis. Sua obra mais famosa, Ars Generalis sive Magnis (1308), descreve como estabelecer a verdade essencial:  sua arte deveria ser um instrumento argumentativo de conversão para judeus e muçulmanos.
           Podemos dividir seu pensamento nesta questão em duas fases. Na primeira, que compreende quase toda sua vida, Llull defendia a evangelização dos infiéis através do amor e do diálogo, a prática da conversão através de uma conversa inteligente entre homens cultos de diferentes religiões. A partir do século XIV, no fim de sua vida, o fracasso do esforço missionário pacífico levou-o a defender o uso da força. Esta perspectiva se insere no quadro histórico ibérico da época, de expansão e conquista militar cristã, fase final da Reconquista. Logo, possui um espírito de cruzada ibérica (tardio em relação ao resto da Europa), expansão ultramarina (idéia que precede em quase um século as navegações portuguesas) e sentido civilizacional cristão (que permeia toda sua obra).

Ramon Llull entregando sua obra para uso nas Cruzadas.
fonte: cometica.ufpr.br

           No tratado Liber de fine (1305), preocupado com possíveis fracassos militares na dispersão das forças cruzadas em várias frentes de batalha, propôs que a cristandade concentrasse seus efetivos na expulsão dos mouros de Granada e num bloqueio econômico e militar ao Egito. No Liber de acquisitione terrae sanctae (1309) retornou à pregação da cruzada, considerando a viabilidade da tomada de Constantinopla simultaneamente a uma operação contra Granada.
            Em sua estratégia cruzadística, o papel desempenhado pelas ordens militares era fundamental. A grande questão de seu tempo a respeito das ordens foi a supressão do Templo decidida por Clemente V, e o destino dos bens templários espalhados por toda Europa. Llull sugeriu ao papa a fusão das ordens numa só, a exemplo de Pedro Dubois. Na idéia de um controle maior sobre as ordens, também pensou numa espécie de "independência restrita" no mediterrâneo leste, área de maior atrito entre templários e hospitalários, principalmenteDe qualquer forma, para Ramón Llull o papel dos monges guerreiros era o de protagonista do teatro da guerra cruzada na Península. Os atributos considerados por Llull essenciais para a consecução da cruzada eram a caridade (caritas) e o poder (potestas), ambos intrinsecamente ligados à ideologia cruzadística monástico-militar.
            O conteúdo de sua Ars é, basicamente, a exposição deste método argumentativo. O sistema combinatório de que Llull faz uso utiliza um simbolismo visual (esquemas, letras, cores, figuras geométricas), em que foi dado um importante passo a caminho das operações intelectuais baseadas num mecanicismo de fundo matemático. Além disso, Llull inaugurou o catalão literário, fazendo um pioneiro uso do vernáculo românico para seus escritos. Sua obra teve grande repercussão até meados dos século XVIII, e o lulismo penetrou também em Portugal, juntamente com outras correntes filosóficas, como o averroísmo e o escotismo. Registramos algumas obras de Llull na biblioteca alcobacense, em letra gótica miúda do século XV, além de referências no Leal Conselheiro de D. Duarte. Todavia, não teve o mesmo eco entre os filósofos.

Notas:

1.  LLULL, Ramon. O livro da Ordem de Cavalaria. Trad. Ricardo da Costa.
São Paulo: Giordano, Instituto Brasileiro de Filosofia e
Ciência "Raimundo Lúlio" (Ramon Llull), 2000.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Ramón Llull, o cavaleiro templário.

          "Fui um homem casado, pai de família, numa boa situação de fortuna, lascivo e mundano.
A tudo isso renunciei de bom grado, a fim de poder honrar a Deus, servir ao bem público
e exaltar nossa santa fé. Aprendi árabe; fui várias vezes pregar entre os sarracenos.
Detido, encarcerado e flagelado pela fé, trabalhei cinco anos para comover
os chefes da Igreja e os príncipes cristãos em favor do bem público.
Agora estou velho, agora estou pobre, mas não mudei de idéia e perseverarei na mesma,
se o Senhor me permitir, até a morte."  1


            O pensamento e a obra de Ramón Llull nos permitem analisar a visão cristã da cavalaria peninsular diretamente envolvida no contato direto com o "outro": o muçulmano. Ao inserir-se numa proposta missionária de conversão - e portanto muito mais próximo do "inimigo" - Llull trouxe importantes contribuições à visão cristã da cavalaria. Sua obra Libro del Orden de Caballería foi fruto desse envolvimento. Embora contra as cruzadas desde o começo - era considerado um pacifista - Ramón Llull no fim de sua vida aceitou a luta armada contra o infiel como uma forma de impor o diálogo.
           Nasceu entre os anos 1232 e 1235, em Maiorca. De família nobre, foi pajem e cavaleiro de Jaime I, o Conquistador, e senescal e mordomo de seu filho, o infante D. Jaime de Maiorca. Casou-se antes de 1257 com Blanca Picany, tendo dois filhos, Domingos e Madalena. Ao contrário do que se costuma pensar, não existe nenhuma prova documental que Llull tenha aderido a qualquer ordem religiosa. Na verdade, Llull foi um pensador leigo. Contudo, a iconografia posterior o franciscanizou.

Ramon Llull.
fonte: nibiryukov.narod.ru
           A forte presença moura e judia em Maiorca contribuiu para o sentido missionário de sua obra. Em 1265, aos trinta anos, quatro aparições de Jesus crucificado levaram-no a dedicar-se à conversão de todos os infiéis. Até então, sua vida era voltada para a corte, as poesias trovadorescas e a vida mundana: "Apesar da ajuda que recebi dos anjos e das pregações dos religiosos (...) cheguei a ser o pior dos homens e o maior pecador desta cidade e de todas as redondezas."  Ramón Llull nasceu quando Maiorca estava sendo conquistada aos mouros por Jaime I. A presença da Ordem do Hospital em Maiorca - auxiliou a campanha de Reconquista cristã, recebendo como prêmio a repartição da ilha - provavelmente influenciou o espírito de conversão expansionista do pensamento de Llull.    
           Seus esforços resultaram na fundação, por Jaime II, de um colégio em Miramar, em 1276, onde os missionários cristãos podiam enfronhar-se nos mistérios da língua árabe. Não se sabe a duração do Colégio de Miramar. Especialistas especulam que a crise espiritual sofrida pelo filósofo em 1293 foi devida ao fechamento do Colégio. De qualquer forma, a partir de então, aos sessenta anos, Llull fez viagens à África e Ásia para pregar  (esteve na Berberia, Tartária, Abissínia, Chipre e Rodes - sede internacional da Ordem do Hospital desde 1308).
Pregou ainda na Universidade de Paris e no Concílio de Vienne (no Delphinado, na França) de 1311 - 1312, onde foi decidida a supressão da Ordem do Templo. Morreu em 1315, apedrejado até a morte por muçulmanos em Bougie (norte da África) . Mais tarde, difundiu-se uma lenda que dizia que teria expirado numa barca de mercadores catalães que o haviam pegado em Túnis para reconduzi-lo à terra natal. A lenda também propagou sua imagem como a de um alquimista e mago, o que não se confirma com o estudo de suas obras.
           Ramón Llull foi um escritor prolífico. Sobreviveram quase trezentas de suas obras; poesia, misticismo, filosofia e teologia. Boa parte de seus escritos do final de sua vida inserem-se dentro da perspectiva da ideologia cruzadística cristã (Liber de fine, 1305 e Liber de acquisitione terrae sanctae, 1309) e suas conexões com o maravilhoso (Libre des meravelles - ca. 1288) . No entanto, a filosofia luliana num todo é realista, não-aristotélica (por esse motivo aproveitada no Renascimento) e progressista - por exemplo, Llull foi um pioneiro na tentativa de organizar um sistema de arbitragem nas discussões internacionais. Em sua época, alguns filósofos (Duns Scott, Guilherme de Ockham e os averroístas) tentavam libertar-se dos estreitos vínculos da metafísica e da teologia. Llull colocou não só a lógica, mas toda sua filosofia novamente a serviço da religião.


Nota:

1. LLULL, Ramon. Disputatio clerici et Raymundi phantastici
in artigo de Ricardo da Costa, 1977, UFES, Porto, Portugal.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O corcunda de Notre Dame, 1939.

           A sugestão de filme para esta semana de estudos é o clássico " O corcunda de Notre Dame" dirigido por William Diertele, primeira versão sonora cinematográfica do livro clássico de Victor Hugo. A versão do cinema mudo foi estrelada por Lon Chaney (1923). Esta produção estrelada por Charles Laughton, que estava no auge de sua carreira quando personificou Quasímodo (o Corcunda),  recebeu duas indicações ao Oscar, em 1939.  É provavelmente, a melhor interpretação dada ao triste personagem, morador da Catedral de Notre Dame, que perambula pelos impressionantes cenários de Paris, criados especialmente para o filme, em Hollywood. Maureen O'Hara está perfeita como a linda cigana Esmeralda, pela qual Quasímodo se apaixona desesperadamente, a ponto de romper a paz da imponente e secular Catedral, aterrorizando a população. 
          Filme imperdível e obrigatório em qualquer filmoteca, vale a pena assistir a este clássico para entender um pouco sobre os costumes da sociedade medieval, principalmente no que diz respeito ao uso dos espaços religiosos para atividades profanas. A seguir o trecho de um dos pontos altos do filme, quando Quasimodo salva Esmeralda de ser morta. A todos, bom divertimento.

Importante: inúmeros filmes já foram produzidos como pano de fundo a história de Victor Hugo. A indicação acima se torna importante por ser um clássico.

A arquitetura religiosa no Humanismo.

            "... a grande transição do espírito europeu do Reino de Deus para a Natureza, das coisas eternas para o ambiente imediato, dos tremendos mistérios escatológicos para os segredos mais inofensivos do mundo criado. (...) A vida orgânica, que depois do fim da Antiguidade havia perdido todo o valor e significado, mais uma vez se torna honrada, e as coisas individuais da realidade sensível são doravante erguidas como sujeitos de uma arte que já não requer justificações sobrenaturais. Não há melhor ilustração desse desenvolvimento do que as palavras de São Tomás de Aquino, 'Deus rejubila em todas as coisas, em cada qual de acordo com sua essência'. Elas são o epítome cabal da justificação teológica do naturalismo. Todas as coisas, por mais pequenas e efêmeras que possam ser, têm uma relação imediata com Deus; tudo expressa a divina natureza de sua própria maneira e assim ganha valor e significado também para a arte". 1

         
             A linha de pensamento dos humanistas objetivava a elaboração de modelos simbólicos do universo cósmico. O princípio de unidade é levado à geometria, e as plantas dos edifícios religiosos quase sempre se apresentavam como poligonais centralizadas. A questão da centralidade nas artes ficou clara na obra De re aedificatoria, livro composto de 10 volumes, escrito pelo arquiteto Leon Battista Alberti a partir do ano de 1443. O círculo, afirma ele, é a forma primária que acima de todas as outras é favorecida pela natureza começando pela própria forma do mundo. 2  Seus projetos tinham como repertório os poucos intactos edifícios redondos da Antigüidade Romana, já que a maioria seguia a forma retangular. Porém seus estudos tinham origem também na obra de Vitrúvio, que no apêndice do seu Quarto Livro já destacava o círculo como uma das formas possíveis para os edifícios religiosos.  3  Além do círculo ficaram estabelecidas outras oito figuras geométricas para as construções religiosas; dentre elas o quadrado e os retângulos provenientes do quadrado e meio, quadrado mais um terço e quadrado duplo.
            O resgate da obra de Vitrúvio fez com que a geometria renascentista fosse clara (diferente das igrejas góticas, onde as formas só poderiam ser compreendidas pelos iniciados), e cada uma das partes do edifício estivesse intimamente ligada ao todo, por analogia, conforme os membros do corpo humano como no tratado de Vitrúvio. O mesmo arquiteto romano foi importante quando o resgate da figura do Homem Vitruviano sintetizou o conflito do círculo com o quadrado na modulação de várias construções da época, revelando o embate filosófico relacionado entre o Céu e a Terra, entre o Cósmico e  Humano, embate esse proporcionado pela nova forma de ver o homem no mundo – “Deus também criou o homem à sua própria imagem: pois como o mundo é a imagem de Deus, também o homem é a imagem do mundo.” 4
Tempietto de S. pedro, Bramante.
fonte: vam.ac.uk
            O Tempietto de São Pedro, de Donato Bramante, finaliza o uso do círculo como símbolo religioso durante o período Clássico. Construído em Montoro no ano de 1502 no local histórico do martírio de São Pedro, o edifício com planta circular teve seu destaque semelhante ao Panteão de Roma (no que diz respeito à utilização como repertório para arquitetos posteriores – Palladio, por exemplo),  porém suas dimensões são menores, por se tratar de uma construção dentro de um claustro. O interesse no estudo dessa construção se deve à harmonia perfeita alcançada por intermédio de um profundo conhecimento das soluções formais utilizadas, harmonia essa também alcançada nos antigos edifícios de mesma planta circular.
            Mesmo com simbolismo tão rico, as igrejas de planta circular foram construídas em curto período, já que a Igreja Católica não desistira facilmente de suas tradições. Com a influência desta igreja, a planta dos espaços sagrados voltou a ser a cruz latina, manifestação máxima do amor de Cristo pelo homem; porém o cubo permaneceu presente. Apenas no período Barroco, com a introdução das linhas orgânicas é que entra em declínio o uso do quadrado nas construções clássicas destinadas ao Sagrado. Auxiliado pela filosofia do século XVIII, o homem ocidental  modifica o sentido do Sagrado em sua vida, o que repercute diretamente na geometria e arquitetura, passando o círculo a ser utilizado sem intenções simbólicas, apenas plásticas.

Notas:

1.  HAUSER, Arnold. The Social History of Art. Routledge, 1999. Volume 1, pp. 210-215
2. BIERMANN, Verônica. Teoria da arquitectura: do Renascimento aos nossos dias. Lisboa- Portugal.
Taschen Editora. 2005.  p. 22 e passim.

3. PENNICK, Nigel. Geometria Sagrada. SP.Editora Pensamento. 1980. p.107.

4. ROOB, Alexander. Alquimia & Mística, el museo hermético – Madrid, Espanha: Taschen, 2005. p. 534 apud  Cornelius Agrippa, Filosofia Oculta, 1533.

A arquitetura Religiosa cristã

“O arquiteto cristão, não contente em construir florestas, quis, por assim dizer,
                                               construir seus murmúrios, e, por meio do órgão e do bronze suspenso, prendeu ao
                                               templo gótico ate o ruído dos ventos e dos trovões que rolam nas profundezas
                                               dos bosques. Os séculos evocados por esses ruídos religiosos faz com que
                                               suas antigas vozes saiam do seio das pedras e suspirem em todos
os cantos da vasta basílica.”

                                               Chateaubriand, Le génie du christianisme, Paris, 1802, III, c.VIII. 1


            Na Idade Média, semelhante ao período primitivo, a necessidade de proteção (contra os bárbaros) e a verticalidade (ligação do homem com o Divino) permearam a arquitetura. Nos edifícios ligados a religião da época (igrejas cristãs), a estrutura física adotada decorreu da necessidade de grandes vãos internos para se adequar às novas atividades: festas religiosas ou não. Por este motivo, as colunas continuaram a ser utilizadas – agora unidas por arcos – e conseqüentemente a base para a planta destes edifícios era o quadrado. Quando transposto do eixo horizontal para o eixo vertical a fim de orientar as alturas do prédio de forma harmoniosa, o quadrado se transformava na figura do cubo.
            O Cristianismo cresce e por intermédio do Catolicismo, grupos formados darão sua contribuição no que diz respeito ao uso do círculo na arquitetura sagrada, já que o uso do quadrado e do cubo, conforme dito acima, se faziam também por uma necessidade estrutural. O primeiro grupo é chamado de Cavaleiros Templários, constituído no ano de 1118 em Jerusalém, com a função de prover a segurança aos peregrinos que visitavam os santuários sagrados  na  Terra  Santa recém conquistada. Seu poder cresceu rapidamente e logo a organização se tornou rica, capaz de edificar várias igrejas cristãs. O círculo tornou-se a marca dos templários bem como outros símbolos obtidos através do intercâmbio com religiões e culturas orientais. A forma circular adotada para a planta dessas igrejas foi declarada posteriormente como heresia pela Igreja Católica Romana, que percebia que os templos pagãos primitivos estavam sendo usados como referência para essas obras. A ordem foi extinta em 1314, porém a riqueza acumulada possibilitou à revelia, a construção de outras igrejas redondas na Inglaterra. 2
Igreja de São Tomás, sec. XII. Limine, França.
Fonte: acervo particular.
             Outra ordem que contribuiu muito para a divulgação da planta circular na Idade Média foi a Maçonaria. Historicamente a primeira organização dos irmãos-pedreiros deu-se no século XIII, quando alguns homens começaram a se reunir em grêmios independentes da tutela dos beneditinos. Os maçons monopolizaram as construções das catedrais da época, por conhecerem técnicas construtivas e geométricas capazes de edificar grandes obras góticas. Esse conhecimento foi obtido num período em que os reis cristãos mandavam seus emissários a Ikhan, vice-rei da Pérsia durante o Império Mongol, já que os persas eram os novos aliados contra os turcos. Os maçons se infiltraram nas comitivas e em contato com os arquitetos islâmicos aprenderam novas técnicas construtivas e esquemas geométricos, misturando-os ao seu estilo nas construções das catedrais. Para seus projetos a orientação, a geometria, a proporção e o simbolismo eram utilizados de forma a recriar a Grande Obra, a unificação do homem com Deus. 3 Com relação ao posicionamento, na data do padroeiro o mestre responsável pela obra fincava uma vara no solo e a partir da incidência do Sol – colaboração divina – traçavam-se retas que demarcavam os círculos da vesica-pisci, esquema compositivo que gerava as formas geométricas necessárias à locação da obra no terreno. E embora em alguns casos a planta não fosse circular, o círculo estava presente em vários detalhes importantes da Catedral desde a fase projetual.
            Os cavaleiros Templários e os Maçons, em contato com as mesmas civilizações orientais, adquiriram novas maneiras projetuais elaboradas a partir do quadrado. Os dois sistemas maçônicos de geometria eram o ad quadratum e o ad triangulum, sendo o primeiro o mais usado. O ad quadratum é uma seqüência de quadrados desenhados no ângulo de 45º um ao lado do outro, cujos centros coincidiam entre si. Esse esquema pode ser identificado através do cruzamento dos arcos nas naves das igrejas góticas. Dessa técnica, surgiu o dodecaid: três quadrados posicionados no mesmo ângulo de 45º, sobrepostos em um quadrado triplo simbolizando a Santíssima Trindade cristã. Era a partir destes esquemas geométricos originados sob a forma de composições quadradas, que a Maçonaria estabelecia seus segredos, e através dos projetos de igrejas deixava suas marcas: “Se queres projetar um pináculo seguindo a tradição dos canteiros, e deseja que seja geometricamente correto, começa com o quadrado”, recomendaria determinado autor de um livro intitulado “Sobre os pináculos”. 4
Igreja de S. Pedro e S. Paulo, sec. XII. Rosheim. França.
Fonte: acervo particular.
           Sabe-se que a complexa visão do mundo, cuja ênfase estava na harmonia entre o Microcosmo e o Macrocosmo já era vigente na Idade Média.  O cubo e o quadrado nos tempos dos carolíngios aproximadamente no ano 800, foram as formas escolhidas para retratar a criação divina nas artes, cujas justificativas se apoiavam nas obras de Isidoro de Sevilha  5, que desenvolveu seus estudos em contato com a cultura árabe, onde conheceu os conceitos estabelecidos na Antiguidade para estas figuras. 6  O círculo era a forma escolhida para trazer luz nas naves centrais das catedrais: a roseta. Porém o aprofundamento dessa harmonia se deu no Renascimento, onde o conflito entre as figuras do quadrado e do círculo esteve mais explícito em projetos arquitetônicos.

Notas:

1. BALTRUSAITIS, Jurgis. Aberrações: ensaio sobre a lenda das formas. RJ. URFJ Editora. 1999. p. 189.

2. PENNICK, Nigel. Geometria Sagrada. SP.Editora Pensamento. 1980. c. 8.

3. Ibid, c. 9.

4. WITTKOWER, Rudolf. Los fundamentos de la arquitectura en la edad del humanismo. Madri, Espanha. Alianza editora. 2002. apêndice IV, p. 214.

5. Isidoro de Sevilha (556 a 636) foi um teólogo agostiniano e bispo espanhol. De origem visigoda, é considerado um dos maiores escritores dos primeiros séculos do Cristianismo. Criou várias escolas e seminários na Espanha. Sua obra mais importante é chamada Etimologiaelibri, uma enciclopédia com 20 volumes, sendo os três primeiros sobre arte, e os demais sobre astronomia, artes militares, etc.. Conhecia a obra de Aristóteles (parte dela utilizou em sua enciclopédia) antes mesmo dos árabes a trazerem, porém o contato com estes possibilitou a coleta de dados para os livros sobre matemática e geometria..

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Filme: Jesus de Nazaré. 1977.

            Para entender a arquitetura sagrada do período medieval é necessário entender o personagem mais importante para a religião reinante no Ocidente neste período: o cristianismo. Diversas obras cinematográfiocas já foram produzidas tendo como pano de fundo a vida de Jesus Cristo, algumas excessivamente fantásticas, outras excessivamente sanguinárias. 
           O filme indicado para este fim de semana de estudos é Jesus de Nazaré, de Franco Zeffirelli uma premiada versão  aclamada pela crítica pela sua grandiosidade e pela sua correção histórica e religiosa. O épico conta com a interpretação de atores como Robert Powell e a participação de Anne Bancroft, Claudia Cardinale e James Farentino entre outros.
           O comovente retrato da vida e a morte de Jesus de Nazaré é aqui apresentado desde o seu nascimento, passando pelas suas peregrinações ainda enquanto criança e o seu batismo por João Batista. Relatando inúmeros milagres durante o seu percurso, este lindo filme culmina com a crucificação e ressureição, num dos mais fiéis e impressionantes relatos da vida de Cristo.
            Além da mística apresentada pela representação -  a mais fiel possível -  da história de Jesus, vale a pena ressaltar alguns elementos importantes para nosso estudo, principalmente nas questões de arquitetura de espaços (templos hebreus), comportamentos diferenciados das sociedades romana e hebraica, e algumas divergências - bíblico/históricas como a forma de Cristo carregar a cruz, defendida por muitos historiadores do tema. Dica: o filme tem longa duração, mas vale muito a pena acompanhá-lo do início ao fim.


quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O homem, o centro. parte final.


“ O Humanismo não é apenas o gosto pela antiguidade, é o seu culto;
                               culto levado tão longe que não se limita a adorar, mas esforça-se por reproduzir.
                               E o humanista não é só o home que conhece os antigos e nele se inspira; é
                               aquele que está de tal modo fascinado pelo seu prestigio que os copia,
                               os imita, os repete, adota seus modelos e os seus modos, os seus exemplos
                               e os seus deuses, o seu espírito e sua língua. Um tal movimento,
                               levado até as suas extremidades lógicas, tendia a nada menos que
                               suprimir o fenômeno cristão.”

                               Phillipe Monnier, Le Quattrocento, livro II, c. I, p.24.  1

A Criação. Afresco de Michelangelo na Capela Sistina.
fonte: acervo particular

O Renascimento ao contrário do período medieval, não dividiu o passado de acordo com o plano divino da salvação, mas sim com base nas ações humanas. O tempo “intermediário” dava lugar a um ressurgimento de todas aquelas artes e ciências que haviam florescido nos tempos antigos.
A origem dessa visão revolucionária da história pode ser buscada nos anos de 1330, nos escritos do poeta italiano Petrarca  2; o primeiro dos grandes homens a dar início ao Renascimento, corporificando em seus estudos duas características do momento: o individualismo e o humanismo. O individualismo, uma nova autoconsciência e autoconfiança, permitiu ao homem afirmar, contra toda a autoridade estabelecida, que a “era da fé” fora na verdade, uma era de trevas e que os pagãos “incivilizados” da antiguidade, representavam o estágio mais iluminado da história. 3 Para Petrarca o humanismo em oposição às letras divinas ou estudo das Escrituras, significava uma crença na importância das letras humanas, a busca do aprendizado de línguas, literatura, história e filosofia como um fim em si mesmo, num contexto secular, não mais religioso. 4
Embora a política oficial continuasse definida pela influência da Igreja e pela primazia do teocentrismo nas questões de Estado, o imaginário ocidental começava a se interessar por questões relacionadas à natureza e a produção “profana” dos homens, levando-os à investigação do mundo objetivo e das razões não divinas da existência. Aos poucos a Europa abandonava a contemplação das obras de Deus e a preocupação com a salvação da alma e assumia uma atitude investigativa dos fatos da natureza e dos atos humanos. O homem renascentista era curioso e procurava respostas objetivas e naturais não mais nas Escrituras Sagradas. Nessa época Galileu Galilei fazia seus estudos astronômicos, e era considerado pela Igreja como herege; Leonardo da Vinci estudava anatomia e introduzia a perspectiva na pintura a fim de retratar o que havia de natural na natureza e de humano no humano. 5
            Embora as obras de Petrarca apontassem para a antiguidade clássica, de forma alguma o interesse dos renascentistas era o de reproduzir com exatidão as obras antigas, mas igualar-se a elas e se possível superá-las. Na prática isso significava que a autoridade atribuída aos modelos antigos estava longe de ser ilimitada. Os humanistas não se tornaram neopagãos, mas foram muito longe em sua tentativa de harmonizar a filosofia clássica com o cristianismo. Os arquitetos continuaram a construir igrejas e não templos pagãos, mas ao fazê-lo usavam um repertório baseado no estudo das estruturas clássicas. Assim também faziam os médicos apaixonados pelos estudos de anatomia dos antigos. O desejo de retornar aos clássicos, desejo tão rejeitado na Idade Média, trouxe à nova era o nascimento de um novo homem: o Homem Moderno.

Notas:

1. LALANDE, André. Vocabulário técnico e crítico da filosofia. SP.
 Editora Martins Fontes.1999. p.479.

2. Francesco Petrarca (1304 – 1374) foi um dos poetas mais influentes da literatura ocidental, sabendo integrar os valores da antigüidade greco-romana a um cristianismo aberto às emoções humanas. Inaugurou assim na literatura a fusão entre fé e paixão, ou entre conflito e mudança, que anunciava o Renascimento e a modernidade. Dentre suas obras mais importantes estão De vivis illustribus  ( Sobre homens ilustres), coleção de biografias dos heróis da história romana, e  De vita solitária ( 1346, sobre a vida solitária ), em que desenvolveu sua teoria a respeito de como o homem pode desfrutar ao mesmo tempo da natureza e da espiritualidade, obras de suma importante para os homens renascentistas. DOTTI, Ugo. Vida de Petrarca. SP. UNICAMP. 2007.

3. JANSON, H.W. Iniciação a história da arte. SP. Editora Martins Fontes. 1996. p.168.

4. DOTTI, Ugo. Vida de Petrarca. SP. UNICAMP. 2007. c.3 e passim.

5. PASSADOR, Luiz Henrique. Antropos e Psique, o outro lado da subjetividade.
SP. Editora Olho d’Água. 2002. p.34.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

O homem de Cristo em busca da salvação - Deus, o centro. parte 1.

“ (...) e a multidão estava lá ... empenhada em se reunir para adorar e
                               beijar as santas relíquias (...) ninguém em meio a intensa densidade de
                                               milhares de pessoas podia, sequer,  mover um pé.”

Suger, abade da Catedral St. Denis, 1135. 1

A antiguidade clássica era tida como o período em que o homem atingira o apogeu de seu poder criador e que terminara abruptamente devido aos bárbaros, que tinham destruído o império romano. Pouco se realizara em termos de inovações, neste intervalo de quase mil anos. O homem medieval não imaginava pertencer a uma era distinta da antiguidade clássica; o passado para ele, consistia simplesmente em “a.C.” e “d.C.” e a história, sob esse ponto de vista, fazia-se no céu e não na terra. 2  A imprecisão na medida do tempo e mais ainda, a fragilidade de uma concepção quantitativa do tempo, impediram a constituição de um conceito de progresso propriamente humano, muito embora progressos tecnológicos tivessem ocorrido: óculos de leitura, o arado e formas do uso da terra, a roda de fiar, os ofícios de ferreiro em geral.
A popularização do relógio mecânico iria acompanhar a transformação da concepção do mundo. Com ele a hora de 60 minutos substituiria o dia como medida básica de tempo. No entanto a Igreja, com suas prescrições e proscrições sobre o que devia ou não podia ser feito neste ou naquele dia, nesta ou naquela hora, fazia com que o tempo continuasse desigual em qualidade. As horas canônicas continuavam a seguir o ciclo do dia; do nascer ao por do sol. Mesmo assim apesar de o tempo ser impreciso, não deixava de haver uma história.
O homem medieval vivia imerso numa história litúrgica. Cristo é histórico. Ele nasceu em determinado dia durante o reino de César Augusto quando Herodes era o tetrarca da Galiléia. O próprio Sagrado criava uma consciência histórica, mas tratava-se de uma história de redenção que culminaria segundo os planos da Igreja, com uma humanidade, e não um povo específico, regenerada. O mundo todo partilharia uma mesma história; mas para dela participar era preciso ser cristão e por isso, a evangelização dos gentios e mesmo a salvação dos selvagens era apresentada como parte da vontade do Divino.

Icone de Jesus Cristo em igreja do séc. XI.
Fonte: joiasesimbolosmedievais.blogspot.com
No final da Idade Média, as grandes navegações proporcionaram ao homem europeu um dilema. O encontro com terras habitadas por povos até então desconhecidos por eles, obrigou-os a compreender os nativos do Novo Mundo, pois para o processo de colonização essa mão-de-obra nativa era fundamental. No entanto esse encontro teve sua conseqüência no campo filosófico, pois o homem passou a questionar os limites da humanidade: “Eram os nativos humanos ou não?”. Da resposta surgiu o termo “selvagem” para descrever de forma genérica e incompleta uma diferente condição de vida: a dos povos habitantes das novas terras, com referências culturais desconhecidas.
Quando o selvagem apareceu na vida do homem europeu, não existia a separação entre o Estado e a Igreja. A concepção teocêntrica predominava na filosofia, e o ser humano cuja condição era definida pela fé, acreditava que era portador de uma alma concedida a si como dádiva divina. Assim as discussões sobre a humanidade ou animalidade do selvagem se desenvolveram em bases teológicas: “O selvagem possui alma ou não? Foi criado por Deus como homem ou como animal?” Ao perguntar-se que homem era selvagem, o ocidental questionava sobre si próprio. Porém a força dos dogmas católicos desfazia qualquer tipo de questionamento oposto ao da Igreja, e tudo que estivesse fora do quadro mental e teológico do período só poderia ser considerado monstruoso ou herético.
O fantástico predominava sobre  o factual. O pensamento medieval era composto de fragmentos do conhecimento antigo repetidos e copiados de um autor a outro, sendo o plágio uma forma respeitável de erudição, parte de uma atitude segundo a qual inexiste conhecimento novo: o pensamento medieval não privilegiava a pesquisa independente.  Os dogmas religiosos limitavam a imaginação criativa. Conhecimentos novos eram possíveis, pois nunca deixaram de haver viagens de comerciantes, aventureiros e missionários para além do mundo europeu-cristão. Contudo parecia haver uma recusa à aceitação dos fatos geográficos, resultando uma ignorância etnográfica.          
O mundo era dividido apenas no âmbito religioso em duas categorias: idólatras ou pagãos e cristãos. O primeiro rótulo agrupava os egípcios, cretenses, mouros, romanos antigos e outros povos cujo culto aos mortos os levou à criação de deuses. Os integrantes daqueles grupos haviam se rebelado contra o Deus do cristianismo. Para a comunidade cristã, tempos prósperos impulsionados pela mão divina, e para os outros restaria apenas a degeneração por obra de Satã. 3
O selvagem passou a ser um assunto teológico, econômico, político, e também objeto de investigação filosófica. Passou a habitar definitivamente o imaginário europeu, porque tal encontro foi um marco no pensamento medieval. 4 Paulatinamente o selvagem, que a princípio era apontado como desprovido de religião, foi transformado em inimigo do cristianismo por aderir a uma religião falsa; um obstáculo à realização da vontade divina. O homem selvagem se aproximou do bárbaro por não possuir linguagem, no entanto, possuía uma linguagem de sinais e grunhidos semelhantes aos dos animais, uma linguagem que podia expressar sentimentos, mas não idéias. 5 “Os escritores medievais...preferiram evitar explicações teológicas para a existência dos homens selvagens... os homens selvagens, em sua lamentável condição, não seriam uma criação de Deus, mas criaturas que teriam caído nessa condição bestial devido a loucura, por terem crescido entre animais, pela solidão, ou pelos sofrimentos por que passaram.” , dizia o antropólogo Roger Bartra 6.
Durante muito tempo a colonização continuou enviando administradores e missionários às novas terras, praticando uma política de “civilização” dos nativos através da catequese, a fim de “humanizá-los” e submetê-los aos interesses coloniais e às formas de vida, fé e trabalho ocidentais, para uso de sua mão-de-obra. Enquanto isso, na Europa surgia o Renascimento como movimento filosófico e artístico, reintroduzindo a perspectiva antropocêntrica dos ideais gregos, abandonados durante o período medieval. Iniciava-se o primeiro período na história em que o homem passava a ser consciente da sua própria existência, inventando um termo para se autodesignar.

Notas:  
1. TOMAN, Rolf. O Românico – arquitetura, escultura, pintura.
Lisboa, Portugal: Konemann Verlagsgesellschaft mbH, editora portuguesa, 2000 p.11.

2. JANSON, H.W. Iniciação a história da arte. SP. Editora Martins Fontes. 1996. p.168.

3. PASSADOR, Luiz Henrique. Antropos e Psique, o outro lado da subjetividade.
SP. Editora Olho d’Água. 2002. p.32.

5. WOORTMANN, Klaas. Selvagem e o novo mundo:
ameríndios, humanismo e escatologia. Brasília. UNB. 2004.  p. 18

6. Ibid, p.26.

7. Ibid. p.25. apud  BARTRA, Roger. “El salvaje artificial”. Espanha. 1997.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Ben-Hur, um clássico de 1959.

O filme começa no ano de 26 d.C., quando o príncipe Judah Ben-Hur ( Charlton Heston ) é um comerciante rico em Jerusalém . Seu amigo de infância, Messala ( Stephen Boyd ), agora um tribuno militar, chega como o novo comandante da guarnição romana. Ben-Hur e Messala estão felizes em se reunir, após anos de separação, mas a política poderá dividi-los; Messala acredita na glória de Roma e do seu poder imperial , enquanto Ben-Hur ainda acredita na liberdade do povo judeu. Tempos depois, por um acidente, Ben-Hur é acusado injustamente pelo seu amigo, e condenado a servir a Roma nas galeras, dando início a uma fase de sofrimento que culminará no encontro com Jesus Cristo, figura misteriosa contemporânea de sua época. Após este encontro, a sorte de Ben-Hur muda, e ele ganha a liberdade, tentando depois a qualquer custo retribuir a ajuda recebida pelo homem misterioso.
O subtítulo, "Um Conto de Cristo", se faz jus devido às duas histórias que se cruzam a partir de um determinado momento do filme. Não somente por ser um retrato diferenciado da histórica mística de Jesus, o clássico Ben-Hur apresenta vários aspectos da vida romana, dando maior ênfase a vida política e questões militares, deixando em segundo plano a religião, bem aos modos da sociedade da época. Uma boa sugestão para iniciar o tema religiões cristãs sem cair nas produções muito específicas desta doutrina.
Abaixo, um trecho de uma das cenas mais famosas do filme... Bom fim de semana.


quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A religião da Roma Antiga.

Os romanos ultrapassaram todos os outros povos na sabedoria singular de compreender que tudo está subordinado ao governo e direção dos deuses. Sua religião, porém, não se baseou na graça divina e sim na confiança mútua entre deuses e homens; e seu objetivo era garantir a cooperação e a benevolência dos deuses para com os homens e manter a paz entre eles e a comunidade.
Entende-se por religião romana o conjunto de crenças, práticas e instituições religiosas dos romanos no período situado entre o século VIII a.C. e o começo do século IV da era cristã. Caracterizou-se pela estrita observância de ritos e cultos aos deuses, de cujo favor dependia a saúde e a prosperidade, colheitas fartas e sucesso na guerra. A piedade, portanto, não era compreendida em termos de experiência religiosa individual e sim da fiel realização dos deveres rituais aos deuses, concebidos como poderes abstratos e não como Divindades Antropomórficas.
Um traço característico dos romanos foi seu sentido prático e a falta de preocupações filosóficas acerca da natureza ou da divindade. Seus preceitos religiosos não incorporaram elementos morais, mas consistiram apenas de diretrizes para a execução correta dos rituais. Também não desenvolveram uma mitologia imaginativa própria sobre a origem do universo e dos deuses; seu caráter legalista e conservador contentou-se em cumprir com toda exatidão os ritos tradicionalmente prescritos, organizados como atividades sociais e cívicas.
Do ponto de vista arquitetônico, o único exemplar relevante para o estudo de geometria sagrada foi o edifício do Panteão. Nele as características colonizadoras da civilização romana se expressavam de forma plena, sendo colocado lado a lado divindades de várias civilizações conquistadas. Com relação às inovações tecnológicas, a planta circular era complementada por uma grande calota, projeto inspirador para muitos arquitetos do período renascentista, caso de Michelangelo que considerava “o grande templo da antiguidade clássica”.
Panteão romano.
Fonte: rengerwurm.blogspot.com
O declínio e consequentemente o ceticismo religioso chegou a ser uma atitude predominante na sociedade romana, em face das guerras e calamidades que os deuses, apesar de todas as cerimônias e oferendas, não conseguiam afastar. O historiador Tacitus comentou amargamente que a tarefa dos deuses era castigar e não salvar o povo romano. A índole prática dos romanos manifestou-se também na política de conquistas, ao incorporar ao próprio panteão os deuses dos povos vencidos. Sem teologia elaborada, a religião romana não entrava em contradição com essas deidades, nem os romanos tentaram impor aos conquistados uma doutrina própria. Durante a república, no entanto, foi proibido o ensino da Filosofia Grega, porque os filósofos eram considerados inimigos da ordem estabelecida. Os valores dominantes da cultura romana não foram o pensamento ou a religião, mas a retórica e o direito. Com as crises econômicas e sociais que atingiram o mundo romano, a antiga religião não respondeu mais às inquietações espirituais de muitos, passando a ser declarado o Cristianismo como religião oficial de todo o império.